Aprender a ser cristão na cidade do ócio

Uma apontamento de viagem sobre a pousada que resistiu a Amesterdão.


A cidade liberta-se do calor aos poucos. No centro vêem-se manadas de jovens junto às vitrinas. Homens e mulheres caminham por ruas cheias de lojas com pénis, vaginas e mamas nas montras. São turistas. Chegam às coffeeshops e pedem já enrolado para dar menos trabalho. Comem stroopwafels. À noite voltam à coffeeshop e a diversão termina em Leidseplein no Alto jazz club, ou no Boom Chicago.

Turistas perguntam-me onde podem passar a noite. No Shelter Jordan, respondo. Onde? Na pousada onde trabalho em Jordan, uma pousada cristã. Cristã? Surpreendem-se os turistas. Sim, cristã. Geralmente para um turista este pormenor pouco altera a sua estadia nesta cidade. Alguns dos hóspedes nem sabem que a pousada onde dormem é uma pousada cristã. Isso, de facto, não interessa muito para quem precisa apenas de dormir.

É a cidade do ócio. O núcleo da cidade concentra todos esses pontos de energia. Mas à medida que nos afastamos do centro a energia vai-se disseminando. Estamos agora dentro do Shelter Jordan, uma pousada cristã na Bloemstraat, que pertence à organização protestante Tot Heil des Volks.

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Sou um viajante sem dinheiro. O acordo foi este: trabalhas 28 dias sem folgas apenas da parte da manhã, ficas a dormir num dos dormitórios, damos-te três refeições diárias, lavamos-te a roupa, tens de aparecer para as Bible Discussions todos os dias de manhã. Pareceu-me justo.

No primeiro dia, durante a primeira Bible Discussion, conduzida por um dos cleaning supervisers, também eles voluntários mas enviados por organizações cristãs de vários países, perguntam-me se tenho fé. Respondo que tenho fé na inexistência de Deus. Digo isto enquanto a cidade do ócio prossegue lá fora. Sou um cleaner, e especializo-me em casas-de-banho. À tarde vou de bicicleta para a biblioteca, à noite vou com o outro cleaner da pousada para um bar ou para um encontro com couchsurfers. Bebo vinho.

Todos os dias antes de iniciar o trabalho temos Bible Discussions. Lemos passagens dos Reis, do Levítico, Crónicas, Salmos, saltamos para o Novo Testamento. Discute-se o texto. Tento discutir a fé, uma coisa que não se discute. Debatemos. Depois vêm as limpezas.

Os dias prosseguem e o corpo sempre inclinado sobre os aspiradores, os panos e os desinfectantes. Mas agora também se inclina sobre a Bíblia. E a cidade do ócio prossegue lá fora. Passo a ir às Bible Discussions do final do dia - aquelas em que está todo o staff presente. Insisto: Deus criou leis universais perfeitas impossíveis de seguir por quem não é perfeito, e castiga se não as seguirmos. Como o Homem não é perfeito, Deus criou o Homem para ser castigado.

Os cristãos sorriem. E como eu invejo aquele sorriso. O sorriso da verdade revela uma grande capacidade de eliminação. Sorriem como se tivessem ganho um conflito. Debruço-me na Bíblia para encontrar respostas, mas desisto. 28 dias é muito pouco tempo quando Amsterdão ainda prossegue lá fora.

No último dia de trabalho, os cristãos escrevem-me uma carta. Agradecem todos os debates e todo o confronto ideológico. Esperam que um dia me possa vir a salvar, dizem. Deixei a cidade entregue às coffeeshops, aos pénis, às mamas e às vaginas. Sentirei falta de tudo isso. Principalmente daqueles rostos que sorriem, que fecham os olhos e que ainda conseguem rezar, libertando-se completamente da cidade onde vivem.


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