Ler Séneca para se estar actual

Se nos conseguimos actualizar com textos escritos há dois mil anos, não é porque as palavras são videntes, mas apenas porque a humanidade parece estar gravemente adoentada.


A civilização vive em crise ad eternum. A humanidade é um corpo despido que se aproveita das vestes que mais lhe convém para uma era. Mas a era apresenta sempre sinais de crise quando a humanidade inventa “prejuízos”, ou “ideias de prejuízos”, quando confunde o que é suficiente com o que é necessário, ou quando prefere camuflar o medo em vez de o conhecer.

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São estas algumas ideias que Séneca defendeu quando escreveu as “Cartas a Lucílio” há quase dois mil anos atrás, as mesmas ideias que ainda hoje filósofos e cidadãos conscientes aplicam aos tempos que correm.

Ler Séneca é, por isso, uma atitude coerente. Terminei há alguns meses as “Cartas a Lucílio”, uma obra que reúne as várias cartas que o filósofo romano, já perto do final da sua vida, enviou ao seu discípulo Lucílio. Estas cartas, mais do que revelarem alguns ensinamentos estoicos (doutrina defendida por Séneca), são autênticas crónicas de crítica dos costumes romanos. Séneca elabora uma dissecação moral tanto direcionada aos dirigentes romanos, corruptos e ostentadores, como ao povo embriagado com os circos, ou à “debilidade mental” dos atletas que negam o espírito.

A humanidade vive em exagero. Os excessos cometidos pelo capitalismo de que o Zizek fala no seu novo livro “Viver no fim dos tempos”, defendendo a ideia da “institucionalização da inveja”, ou quando o filósofo espanhol Antonio Fornés disse que “trabalhamos mais do que um escravo romano” são a prova de qua humanidade se lamenta dos mesmos defeitos quando vivemos no apogeu civilizacional. A ruptura parece ameaçar os sólidos pilares de uma civilização “evoluída”, como ameaçou o império romano de Séneca, contemporâneo de Cristo.

“Se um médico recomenda a um doente toda a espécie de excessos é porque este não tem salvação possível”, escreveu o romano na sua penúltima carta.

O filósofo estoico elabora ainda alguns conselhos sobre o tempo, a razão, a natureza e a morte. Diz ele que a razão, ao contrário do que muitos humanos pensam, é a nossa forma de expressar a natureza, e como devemos seguir a natureza para nos honrarmos como seres humanos, devemos seguir a razão e renegar os bens do corpo.

Sobre a morte, Séneca escreveu que esta “não é um mal, é sim, se queres saber, a única forma de igualdade entre os seres humanos”, acrescentando ainda que se a morte é a única coisa que temos por certo, não podendo nunca mudar essa evidência, não faz sentido que nos estejamos sempre a lamentar dela e a evitá-la no nosso pensamento.

Séneca coloca até a morte como uma força canalizadora da acção que nos faz almejar a vida e torná-la consequente. “É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte.”

Apesar destas ideias não nos arrebatarem de espanto, elas encerram em si uma visão que visa aplicar na prática. Foi isso que me levou a escrever sobre Séneca e a prestar-lhe uma homenagem, para que nos permitamos reflectir sobre o rumo da sociedade em que estamos inseridos.

Pensemos: se Séneca há dois mil anos elabora a mesma crítica à civilização que pensadores actuais repetem acerca da nossa era contemporânea, que lição podemos tirar daqui?

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