Victor Campos Nunes

Leitor e escritor assíduo, consome e produz histórias sempre quando pode. Estuda Direito e é fascinado por textos, imagens e narrativas em geral.
Desperdiça talento e derrama café nas páginas que escreve todas as manhãs, sem exceção

Cem Anos de Solidão: Sobre a Memória e a América Latina

Gabriel García Márquez celebra a imaginação, a memória e a rica História da América Latina em seu mais abraçado romance "Cem Anos do Solidão", título que lhe garantiu o prêmio Nobel da Literatura e a eterna gratidão de um continente inteiro.


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A memória. Não há cultura no mundo que a valorize mais do que a cultura latina. Somos um povo marcado pela pobreza, pela opressão e pela injustiça. Mas também somos um povo marcado pelo sentimento, pela intensidade das nossas emoções e pelo valor afetivo que conferimos a ela: a memória. Equipada com um poder gigantesco, ela é capaz de nos destruir, confortar e, também, de apenas deixar o gosto doce ou amargo da saudade. O livro Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez é basicamente isso: conta cem anos de histórias marcadas pela intensidade de sentimentos e pelo peso que a História confere sobre elas na cidade fictícia de Macondo. Uma cidade que facilmente se apresenta como um modelo de toda a História da América Latina.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. A frase que inicia o livro já diz muito sobre ele: aparentemente simples, a frase carrega, em suas entrelinhas, páginas e páginas de intensa carga dramática. Em um contexto de caráter histórico e político (“diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía…”), o que pesa mesmo na frase – e no livro inteiro – é o viés sentimental provocado pela memória (“…havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”). Desse modo, o autor, por mais que não deixe de descrever o contexto da narrativa, sabe que, na literatura, pessoas gostam de ler sobre pessoas. O que justifica o seu extremo cuidado na descrição de cada habitante de Macondo.

Introduzindo um catálogo interminável de personagens, o autor os torna críveis e empáticos ao descrever cada um deles de forma única. Por mais que Márquez insista em repetir os nomes dados aos personagens da família Buendía, ele jamais confunde o leitor, pois as características de cada um são tão distintas que já identificamos quem é quem somente pelas atitudes que correspondem a suas respectivas personalidades. E é quando os personagens se relacionam entre si que o livro respira e cria vida: testemunhamos novas guerras, conflitos, greves e contratos; mas também novas dores, paixões, amizades e romances. No cenário construído por Márquez, nota-se que o povo de Macondo é essencialmente definido pelo sexo e pela violência: elementos que definem a gradativa evolução e, posteriormente, destruição da cidade.

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Aliás, considerando que a memória força cada membro da família Buendía a encarar esses fatores – sexo e violência – como precursores das consequências que guiaram suas vidas ao inevitável momento da solidão, pode-se concluir que a própria cidade é um membro da família Buendía: fundada por José Arcadio Buendía e por sua mulher Ursula, Macondo se desenvolve ao longo da narrativa marcada por sentimentos de ódio e paixão; por guerras movidas a supostas ideologias; e pelo sexo que gera mais e mais gente. A cidade, também, é condenada pela solidão. Eventualmente abandonada por seus habitantes, Macondo se resume apenas a uma coisa: ao amontoado de memórias que nela reside (amontoado representado pelos escritos do cigano Melquíades, que discorrem sobre a história da cidade e sobre os 100 anos vividos pela família Buendía). E é a partir delas – das memórias – que se inicia a dolorosa realização do inevitável desaparecimento, seguido pelo esquecimento, delas no mundo.

O que me faz retornar à verdadeira história contada pelo livro: a História da América Latina. Utilizando-se do realismo fantástico como maneira de contá-la, García Márquez apresenta um povo que mesmo miserável e desigual ao longo das décadas, ainda apresenta uma cultura rica de mitos, sentimentos e histórias maravilhosas. Um povo com o universo mágico tão entranhado na cultura que já não consegue diferir o real do irreal – em um momento inesquecível, por exemplo, Remédios, a bela, transforma-se em santa sem causar estranhamento nos outros.

García Márquez, no entanto, apresenta um povo com memórias condenadas a serem esquecidas: a partir do massacre provocado pela Companhia Bananeira na estação ferroviária (em referência ao desconhecido massacre de Aracataca, na Colômbia), a cidade de Macondo inicia um processo de regressão. Após os quatro anos, onze meses e dois dias de chuva (um choro infinito por todos os mortos no massacre), a cidade se desfalece até deixar de ser um amontoado de memórias para transformar-se em um amontoado de lama e destroços. Um crime, considerando a tamanha importância sentimental que ela, a memória, tem para cada ser humano que habitou nessa injustiçada, miserável, mas calorosa e vívida terra.

Ainda bem que existem artistas como Gabriel García Márquez, Eduardo Galeno, Chico Buarque e demais outros que sabem da tamanha necessidade de evitar que cada história da América Latina, por menor que seja, deixe de ser lembrada. E, para isso, basta contá-las: seja pela música, pelo cinema ou pela literatura. Afinal, a arte está aí para isso: espremer dela, da impassível História, maravilhosos relatos da vida humana.

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Victor Campos Nunes

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