o mundo e mais um ponto

Foi com Carlos, ser gauche na vida

Suellen R.R.

Tá que nem o Bowie. We can be heroes, but just for one day.

The Dark Mountain Project - Os 'não-believers'

Uma das questões que mais assola o ser humano do século XXI é, com toda certeza, o destino da humanidade. Para onde esses bilhões de pessoas irão se continuarem a poluir e explorar a natureza como se não houvesse amanhã? Pois um grupo de artistas, escritores e pensadores desistiu de ativismos do estilo ‘vamos proteger nossa fauna e flora’ e concentram-se no aqui e agora, aceitando nossa própria incapacidade de fugir do nosso destino decadente.


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Essa matéria que você está prestes a ler é resultado de um artigo que li no New York Times esses dias (clique aqui e saiba mais), uma entrevista com Paul Kingsnorth, um ex-ativista em prol da natureza que se tornou uma dos fundadores desse projeto inusitado. Nossa civilização está sugando o mundo, e está tudo bem. Não há nada que possamos fazer.

Essa ideia pode parecer um pouco fria, mas faz algum sentido quando observamos os esforços de organizações não governamentais para tentar impedir o abuso desenfreado dos recursos naturais. Kingsnorth desistiu dessa briga, e com ele, muitos outros artistas, escritores e pensadores, que hoje são parte de um projeto muito interessante, chamado The Dark Mountain.

The Dark Mountain Project teve seu início em 2009, a partir de um manifesto, “Uncivilisation” (traduzindo mais ou menos daria um “de-civilização”) escrito pelo próprio Paul Kingsnorth, quem fundou o projeto juntamente com Douglad Hine, também escritor e ativista.

A epígrafe do tratado, o poema “Rearmament”, de Robinson Jeffers, explica a origem do nome para o projeto: “I would burn my right hand in a slow fire To change the future … I should do foolishly. The beauty of modern Man is not in the persons but in the Disastrous rhythm, the heavy and mobile masses, the dance of the Dream-led masses down the dark mountain. Robinson Jeffers, 1935”

(trecho da epígrafe para o manifesto The Dark Mountain Project)

Composto por cinco secções e uma lista de princípios do projeto, “Uncivilisation” é a base da montanha negra. Problematizando a ideia de civilização, a partir de autores consagrados como Joseph Conrad e Bertrand Russel, Kingsnorth mostra como nossa confiança e segurança em uma vida estável, sem nenhuma ameaça podem sim, significar perigo. Um dos trechos do manifesto, mostra como a nossa civilização está sofrendo uma corrosão por dentro:

Now a familiar human story is being played out. It is the story of an empire corroding from within. It is the story of a people who believed, for a long time, that their actions did not have consequences. It is the story of how that people will cope with the crumbling of their own myth. It is our story.

“Agora uma história humana familiar está se desenvolvendo. É a história de um império corroendo por dentro. É a história de pessoas que acreditaram, por um longo tempo, que suas ações não tinham consequências. É a história de como essas pessoas irão lidar com o enfraquecimento de seu próprio mito. É a nossa história.” (tradução minha, de forma bem livre)

Embora as ideias do The Dark Mountain Project pareçam um pouco radicais, elas podem convencer muitas pessoas que ainda enxergam na nossa sociedade e no nosso futuro próximo, um ponto de interrogação cada vez maior e em negrito. Kingsnorth teve suas razões para “chutar o balde”, pois todas as conferências internacionais (o tratado de Kyoto lá foi um exemplo) de que as grandes potências não estão dispostas a perder seus lucros por causa de um punhado de árvores, uns litros de rios e uns animais extintos. Na entrevista dada para o New York Times, Paul Kingsnorth revela o motivo pelo qual desistiu de tentar ir contra a maré:

“Everything had gotten worse,” Kingsnorth said. “You look at every trend that environmentalists like me have been trying to stop for 50 years, and every single thing had gotten worse. And I thought: I can’t do this anymore. I can’t sit here saying: ‘Yes, comrades, we must act! We only need one more push, and we’ll save the world!’ I don’t believe it. I don’t believe it! So what do I do?”

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The Dark Mountain Project pretende nos conduzir a algo mais intimista, é verdade. Desacreditando nessas lutas contra os grandes, devemos nos voltar para o simples, controlando as nossas ações no dia-a-dia.

O capitalismo, desde sua criação, vem se metamorfoseando e criando novos meios de fazer com que a classe oprimida se sinta sempre com um pouco de vantagem. E o fim do capitalismo, sem uma reciclada muito boa nesses bilhões de pessoas do planeta, parece bem inviável. Segundo o manifesto de Kingsnorth, nossa sociedade é regida pelo mito do progresso, e isso a História muitas vezes tem nos ensinado: a vida de uma civilização anterior é sempre ‘pior’ do que a da civilização presente. Entretanto, o que observamos é uma mudança de paradigmas que não nos alivia nem um pouco das tensões como indivíduos. Não temos mais aquela noção marxista de classe, anteriormente tão bem definidas, mas somos aprisionados por outras pressões: leis, vigilância, competição, o consumismo.

The Dark Mountain Project propõe que façamos questões profundas acerca do que fazemos de nossas vidas e daquilo que queremos fazer. Segundo seus adeptos, o que está ocorrendo é um desacordo entre a nossa civilização e aquilo o que falamos sobre ela. O enfoque do grupo no papel da arte e literatura é incontestável, e bastante peculiar se compararmos a outros grupos. O projeto The Dark Mountain tem como alternativa "o compromisso cultural embasado no aqui e agora, adotando uma visão "econcêntrica" e sem promessas efêmeras de crescimento, progresso e glória humana." (tradução minha)

Encerro a matéria com os oito princípios do manifesto “Uncivilisation” (o qual não vou traduzir por não confiar tanto assim na minha capacidade de tradutora - e porque eu acho que as coisas na sua língua original são mais bem expressas). Confesso que essa ideia me parece bastante plausível, bem mais do que um Greenpeace da vida.

Website do Projeto: http://dark-mountain.net/

The eight principles of Uncivilisation:

1. We live in a time of social, economic and ecological unravelling. All around us are signs that our whole way of living is already passing into history. We will face this reality honestly and learn how to live with it.

2. We reject the faith which holds that the converging crises of our times can be reduced to a set of ‘problems’ in need of technological or political ‘solutions’.

3. We believe that the roots of these crises lie in the stories we have been telling ourselves. We intend to challenge the stories which underpin our civilisation: the myth of progress, the myth of human centrality, and the myth of our separation from ‘nature’. These myths are more dangerous for the fact that we have forgotten they are myths.

4. We will reassert the role of storytelling as more than mere entertainment. It is through stories that we weave reality.

5. Humans are not the point and purpose of the planet. Our art will begin with the attempt to step outside the human bubble. By careful attention, we will reengage with the non-human world.

6. We will celebrate writing and art which is grounded in a sense of place and of time. Our literature has been dominated for too long by those who inhabit the cosmopolitan citadels. 7. We will not lose ourselves in the elaboration of theories or ideologies. Our words will be elemental. We write with dirt under our fingernails.

8. The end of the world as we know it is not the end of the world full stop. Together, we will find the hope beyond hope, the paths which lead to the unknown world ahead of us.


Suellen R.R.

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