o mundo e mais um ponto

Foi com Carlos, ser gauche na vida

Suellen R.R.

Tá que nem o Bowie. We can be heroes, but just for one day.

No meio do caminho de Proust

Considerado um dos grandes clássicos da literatura universal, Proust pode assustar com seus sete volumes de Em busca do tempo perdido, mas há quem se meta a enfrentá-lo.


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Esse ano resolvi me aventurar nessa grande narrativa (literalmente) de Marcel Proust e com a plena consciência de que não conseguiria ler cada volume consecutivamente em um ritmo regular. Isso é fato, não dá para abandonar outras leituras obrigatórias, portanto, a trajetória que vai de O caminho de Swann até O tempo redescoberto é imenso - seja você estudante de literatura ou não.

Vou contar como eu fiquei sabendo da existência desse 'livro'.

um belo dia em que resolvi falar sobre a categoria do tempo num romance do Daniel Galera, vasculhando o Tempo e Narrativa do Ricoeur, encontrei um capítulo (se não for um capítulo, mas um sub, peço desculpas desde já) dedicado à referida obra de Marcel Proust.

Era engraçado. O único Proust que eu conhecia até então era o da química, aquele da Lei de Proust, das proporções constantes (das massas) dos reagentes e produtos, saca? Durante muito tempo fui interessada em Química, cheguei a cursar dois pedregulhosos anos de Engenharia Química que me renderam um trauma que só fui superar quando entrei para o curso de Letras, uns 8 anos depois.

Quase cheguei a pensar que fosse o mesmo, pois sabe como é, uma coisa não exclui a outra. O Anton Tchekov era médico e escritor, aliás, um baita dum escritor.

Bom, o capítulo esse do Ricoeur sobre Em busca do tempo perdido eu não vou recordar exatamente o que dizia (até porque li de metida, não era necessário para o que eu queria apontar no Mãos de Cavalo, do Galera). Ele também tem uma parte especial para A montanha mágica. O que interessa pro Paul Ricoeur ao analisar esses dois romances é ver em que instância ambos lidam com o tempo. Tô pra dizer que lembro mais do capítulo sobre o Thomas Mann do que do Proust. Mas tá.

Decidi pedir emprestado o tal desse tempo perdido na época, isso em 2012, recém entrada no Mestrado. Descobri que não era um livro, mas sete. Daí meu professor me deixou com No caminho de Swann por um tempo. Consegui vencer algumas cento e poucas páginas, passando pelo episódio famoso da madeleine (que eu nem sabia que era famoso na época), mas não consegui avançar. Sabe aquele papo de professor de literatura que diz que todo livro tem seu momento? Pois saiba que tem mesmo. Naquela onda de ter muita leitura obrigatória – algumas chatas pra cacete e outras ótimas – eu não tinha como levar o Proust adiante.

Felizmente, no início desse ano a barreira foi transposta e já consegui 'vencer' os dois primeiros volumes. Depois que você se acostuma com a escrita do Proust - que é repleta de idas e vindas - passa a perceber o quão encantadora é essa narrativa.

O importante quando nos deparamos com essas obras intermináveis é aproveitar a viagem e nem pensar muito na chegada.

O primeiro parágrafo de No caminho de Swann:

“Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: ‘Adormeço’. E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela; durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V” (p. 20).

Mais em: In the Sky

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Suellen R.R.

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