guilherme cruz.

Nasceu numa fronteira física e se mantém numa fronteira ambulante com calos e acasos. Se alimenta de Comunicação, Audiovisual, Música, Silêncio e Reticências. Com os olhos transcendendo Nhu-Porã.

Imprevisível ser gelado

O documentário e o extremo entre subjetividade e realismo. O filme Extremo Sul através do imprevisível busca outro tratamento por meio do real.


O cinema documental traça um paralelo à frente da própria história do Cinema, uma vez que as ideias e formatações de muitos gêneros partiram da sua derradeira busca por um realismo. E para isso foram introduzidos linguagens técnicas, formas de discursos, ângulos e representações que tentam legitimar esse gênero cinematográfico.

A singularidade do documentário divide e, por muitas vezes, entrelaça por uma abertura proposital estilística, ou ainda por acontecimentos espontâneos de comportamento e momento – elementos como tempo, caráter, humor, locações, ou seja, tudo que estará circulando na órbita imaginativa do documentário em construção.

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O documentarista, na percepção do seu espaço, digere seus vínculos e reflexos de sua sociedade. São papéis, personagens e atuações com referencial (a realidade), mas, ao mesmo tempo, se impõe a construção autoral pelo tratamento artístico dessa realidade de como mostrar na tela essa referência. O filme Extremo Sul, dos diretores Sylvestre Campe e Mônica Schmiedt, nasce como uma documentação pensada e planejada da subida de cinco personagens ao Monte Sarmiento, localizado na Patagônia chilena, pertencente à cidade de Punta Arenas.

Usam-se as palavras “pensada” e “planejada” porque o trabalho durou cinco anos, entre pré-produção e captação de recursos; contou com 25 pessoas, entre alpinistas e equipe cinematográfica, resultando em 100h de imagens gravadas. A estrutura pré-estabelecida pela produção demonstra a preocupação com detalhes como saúde, alimentação, hospedagem e todos os processos de definições para a formalização de um espaço adequado para as filmagens num lugar de clima instável.

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O filme é rico em detalhes pela exposição do material encontrado da terceira tentativa de subida do Padre Alberto Maria de Agostinho. O italiano começou a sua aventura em Monte Sarmiento, protagonizando duas tentativas frustradas: uma em 1913 e outra em 1914. Mas foi somente em 1956 que o padre, já com 70 anos de idade, auxiliou a escalada e alcançou o cume sul do Monte Sarmiento, com uma equipe de 14 pessoas que registraram em 16h de filmagem sua aventura. O filme Extremo Sul ainda se utiliza de outra gravação de um grupo de alpinistas americanos que alcançaram o cume oeste da montanha em 1995.

Esses dois registros auxiliam na tensão dramática do documentário, expondo as dificuldades e a curiosidade sobre essa montanha de difícil acesso que remonta o início do século XIX, nas tentativas dos Iamanos, habitantes da região, também filmados e estudados pelo Padre Alberto Maria. Extremo Sul nasce como uma película que registrará a congregação latina, de amigos de diferentes países, para desbravar uma montanha de 2400 metros de altura. No entanto, a partir do desenrolar da história, o filme relata o humano através do esporte.

Extremo Sul - foto Miguel Bonato - Alpinistas.jpg

Inóspito e difícil são estradas que levam a localização da montanha. Esses são fatores que dormem na mesma barraca da criação. Os diálogos, as conversas, as atitudes, os gestos são intensificados pelo frio, pela chuva, pela neve e pelo isolamento para trabalhar e, consequentemente, pela vontade de todos, inicialmente, de subir a montanha. Esses elementos estão contidos no dizer de cada personagem, nos planos e no desvio de foco desse documentário.

O cotidiano no acampamento amplia os detalhes e as formações dos habitantes passageiros da Terra do Fogo. Abre-se a discussão para o medo. Uma das cenas do filme mostra os cinco personagens olhando para a montanha, depois de passados dias, pois ela estava diariamente envolta por nuvens. Ao se mostrar pela primeira vez, a montanha ganha o respeito e o medo dos componentes, que se colocam em discussões a partir dessa “amostra” sobre perigo que estava por vir – algo que o paulista Nelson Barretta definiu como “não somos nada”: “ninguém falou que seria, mas não precisava ser tão difícil”. E as dificuldades se impuseram como núcleos formadores, principalmente, na divisão e na rivalidade que se criou entre alpinistas e equipe de filmagem.

A música tema do filme, Donde vas, assim como toda a composição da trilha, traz um aspecto psicológico para o entendimento de cada momento. A música se torna uma voz de contraponto em resposta à montanha, que se repete incessantemente. A vontade era de continuar, de progredir e alcançar o cume possível, mas a contínua relação poética contida na letra da música contradizia, por uma leitura do inesperado – “¿Donde vas? Si no vas. ¿Donde vas? Sin amor, sin dolor, sin saber que no vas...”.

Extremo Sul - foto Stephen Venables - Cume Oeste e Pacifico.jpg

Quando se analisa o documentário Extremo Sul, vê-se uma ambivalência no seu tema principal de narração. Este é o primeiro embate, dentro de Extremo Sul, com a imprevisibilidade: ele nasce como o primeiro longa-metragem brasileiro a falar sobre alpinismo que se transmuta em um registro antropológico de aceitação de valores e do duelo entre limites humanos e naturais.

Observa-se no documentário de Sylvestre Campe e Mônica Schmiedt um processo que, aparentemente, traria uma frustração aos produtores de Extremo Sul, mas que, no entanto, derivou um tema com maior abrangência. Seria uma limitação de público caso a subida ao cume desse certo, de modo “perfeito”, e assim a história seria mostrada por um planejamento, e tudo estaria em volta do alpinismo – e nada mais.

A indefinição do documentário, de seus personagens e da história tem “cena” marcada. Um dia próximo à primeira tentativa de subida, um dos alpinistas de apoio lança mão da incredulidade para o processo de subida e alcance do cume. O alpinista Mariano Santonato abre o conflito perguntando se deve continuar com a “grande mentira” de realizar aquela subida e, por consequência, o documentário.

Extremo Sul - foto Miguel Bonato - Monica e Sylvestre MS.jpg

O filme tem o seu divisor de águas durante uma cena em que Baretta fala da primeira tentativa de subida e, em seus óculos espelhados, aparece o diretor Sylvestre Campe. Nesse momento, acontece um enorme flashback, retrocedendo até as cenas que gerariam o conflito e engessariam as primeiras ações do documentário e seu enredo programado. Volta-se a cena, e é nesse momento que o espaço é tomado pelos personagens, que, até então, estavam atrás da câmera.

Os alpinistas de apoio, a equipe cinematográfica e os diretores transformam o acampamento num registro próximo ao reality show. Assim, a diretora Mônica Schmiedt ganha voz e se torna a outra narradora do filme, dividindo espaço com Baretta e com a sua representação de si mesmo. Nele podemos identificar, ainda, uma ação bem característica do reality show, que são os “diários”, uma câmera pequena se torna espaço de desabafo e onde o personagem pôde registrar dias, horas, tempo, humor e sentimentos.

No site oficial do documentário, existe uma análise da psicanalista Eda Estevanell Tavares, que diagnostica os extremos dos limites dos sonhos humanos presentes no filme: “Para aceitar o limite é preciso aceitar que a única realização possível não é a máxima. Aceitar que um sonho, um ideal, pode não deixar de sê-lo por ser apenas um pedaço. Os Everest de cada um não estão todos na mesma altura”. A compreensão e, por consequência, a aceitação do imprevisível trouxeram ao documentário uma forma de lidar com um embate interno, conferindo-lhe uma nova maneira de confiar-lhe uma exposição de um realismo.


guilherme cruz.

Nasceu numa fronteira física e se mantém numa fronteira ambulante com calos e acasos. Se alimenta de Comunicação, Audiovisual, Música, Silêncio e Reticências. Com os olhos transcendendo Nhu-Porã. .
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