guilherme cruz

Nasceu numa fronteira física e se mantém numa fronteira ambulante com calos e acasos. Se alimenta de Comunicação, Audiovisual, Música, Silêncio e Reticências. Com os olhos transcendendo Nhu-Porã.

São Mateus em extensão

Um som sutil de saudade com lembranças de uma São Paulo que parece nem ter existido, e se existiu foi na cabeça de Rodrigo Campos que saiu a sua trilha. Sutil porque o seu som é “quietinho”, sussurrante com acordes selecionados para um respiro que as quatorze faixas do seu disco de estreia lhe exige.


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“São Mateus não é um lugar tão longe assim” coloca o cavaquinista de São Mateus como uma das caras novas do samba paulista. Mas isso vai além da mitificação do samba. Samba que sempre teve sua herança em Germano Mathias e seu batuque feito nas latas empunhadas pelos engraxates e suas improvisações no centro paulista, e também na consciência social imposta pelos versos de Geraldo Filme – sambista responsável pela fundação de diversas escolas de samba em São Paulo e que juntamente com Plínio Marcos criou os espetáculos Balbina de Iansã e Pagodeiros da Paulicéia dois trabalhos que lidavam com seu tema favorito: a valorização da identidade negra.

Mas as semelhanças com a velha-guarda paulistana e a música de Rodrigo Campos espelha-se mesmo através do expoente maior do samba da terra da garoa. Adoniran Barbosa e sua visão cronista impressa nas letras que tratavam da acelerada modernidade e de seus diversos personagens espalhados por malocas fez com que Rodrigo, mesmo recebendo uma influência maior de músicos cariocas através de linha melódica e estrutura musical, fecha-se um ciclo: enquanto Adoniram compunha vendo os primeiros passos da sociedade moderna, Rodrigo escreve sobre as conseqüências atuais no universo de sua periferia preocupado com a subjetividade – “a gente não faz samba exaltação, a gente faz samba meio pra dentro narrando situações menores, menos grandiosas” disse Rodrigo em entrevista para o programa Pelas Tabelas do Canal Brasil.

O artigo fala do samba de Rodrigo, mas essa "valsinha" diz muito sobre sua música #docontra

O poeta Vinícius de Moraes uma vez declarou que São Paulo era o “túmulo do samba”, e quando o samba não é feito com sotaque e cacoetes cariocas é sempre incompreendido ou taxado como não sendo samba. Rodrigo compreende essa via e diz: “a gente não tem essa tradição, e se fosse pra ter uma tradição seria essa de destruir as tradições”. Nos últimos tempos São Paulo conseguiu retirar a carapuça mercadológica do pagode, colocado na década de 90 e que deixou muita gente cega e surda, e tem criado uma geração de compositores que vem estruturando novamente o gênero através de música autoral de compromisso e sonoridade intensa. Rodrigo faz parte desse movimento que passa por heranças e sonoridade inventiva que já serviu para acompanhar Altamiro Carrilho, Dona Ivone Lara, Céu, Maria Rita e Curumim.

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Coletivizando esse trabalho Rodrigo já agrega e aponta outros nomes para servir e lhe servir para uma música que é samba, mas que é canção e que é qualquer outro som que versa sobre os seus próprios personagens, ambientações, amigos, saudades e tantos outros assuntos discutidos em algum canto da metrópole. O compositor já se firmou com esse disco como um nome que será importante para a música brasileira nos próximos anos.

Quem quiser dar um passo além na música de Rodrigo Campos pode ouvir o grupo Passo Torto que conta também com Kiko Dinucci, Romulo Fróes e Marcelo Cabral. E ainda ouvir o seu segundo disco Bahia Fantástica que acaba de ser lançado que tem as participações de Luisa Malta, Criolo e Juçara Amaral nos vocais.

Ouça Jardim Japão:


guilherme cruz

Nasceu numa fronteira física e se mantém numa fronteira ambulante com calos e acasos. Se alimenta de Comunicação, Audiovisual, Música, Silêncio e Reticências. Com os olhos transcendendo Nhu-Porã. .
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