guilherme cruz

Nasceu numa fronteira física e se mantém numa fronteira ambulante com calos e acasos. Se alimenta de Comunicação, Audiovisual, Música, Silêncio e Reticências. Com os olhos transcendendo Nhu-Porã.

Mayra Andrade e a libertação da língua crioula

Mayra Andrade ao usar como interlocutor de sua música a língua crioula expõe a modernidade de seu canto, e conduz por outra via a universalidade oral.


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O canto africano sempre foi datado e consumido pela singularidade e pela “exótica” sonoridade que poucos conheciam. Foi dessa maneira que vozes femininas como a de Miriam Makeba meados dos anos 60-70, e de Cesária Évora - nos anos 70-80, que entre outras, provocaram e abriram portas para o que era produzido na África. Cesária foi antecessora de Mayra na música cabo-verdiana e alcançou status de rainha da morna, ela disseminou o canto que vinha do país de origem vulcânica constituído por dez ilhas.

Mayra, diferentemente dessas cantoras, atualmente, trabalha com a amplitude da música africana e sua conexão com outras línguas e ritmos – sem esquecer suas raízes: “uso as minhas raízes para tentar fazer algo novo”, disse em entrevista ao site Blitz de Portugal. O “algo novo” na música de Mayra é traduzir a universalidade da música sem estereótipos, e muito menos classificações. E ela de uma maneira provocativa trabalha suas canções principalmente com a língua crioula, mesmo tendo o controle e a possibilidade de cantar na língua inglesa, portuguesa ou francesa, ela opta em levar o crioulo como interlocutor da modernidade de sua produção. Em todos seus discos há canções em outras línguas, mas o crioulo se manifesta em sua grande maioria ficando claro que a mensagem pessoal-universal da música extraterritorial de Mayra Andrade não suportaria outro dialeto.

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Navega (2006) foi seu disco de estreia e teve a produção de Jacques Ehrhart, e do quase sorriso estampado na capa temos o convite de ouvir melodias e arranjos complexos para a sua voz que já imprimia outros horizontes por quem já tinha cantado tudo desde a MPB, pasando por boleros, blues, chanson, e sons da sua terra como a morna, o funaná, a coladeira e o batuque. Logo no título do disco, a escolha por uma palavra que define uma vida de viagens reais, mas também estéticas, uma viagem pessoal que marca a identidade artística, como ela mesma afirma em seu site pessoal.

Em Stória, Stória (2009), faixa título do seu segundo álbum, e que pode ser traduzido como o “era uma vez” de quando começamos a contar uma história, traça uma voz cortante e se legítima como interprete trabalhando com o produtor Alê Siqueira, responsável por algumas produções de Tom Zé, Tribalistas, Zé Miguel Wisnik e Marisa Monte. No disco ainda haveria a assinatura de alguns arranjos do maestro Jacques Morenlembau .

E do registro de um show acústico na Radio France, lança Studio 105 (2010) com uma compilação de releituras de seus dois discos anteriores e versões de Beatles (Michelle) e Serge Gainsbourg ( La Javanaise). Nesse trabalho Mayra ganha em interpretações livres, ao utilizar a voz como instrumento e assim alarga um universo íntimo através da suavidade de seu canto.

Interagindo entre experimentações e seu canto livre, a cantora segue desenhando uma rota paralela para quem ouve a música africana como simbolismo somente de origem e propulsão. Através de sua música o som africano se dissipa por pulmões largos de consciência e reconhecimento por quem respira e respeita a diversidade. Respeitando o passado, sem resgate ou revitalização, somente a continuação de uma cultura.

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