o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Conexões tristes

Uma espécie de arquivista que já admite a inutilidade de certas coisas para o momento atual, e mais ainda o seu desejo diferenciado a respeito da vida, agora (algo nada triste), mas que sente a necessidade de guardar tudo numa gaveta para quem sabe assim finalmente esquecer que algo aconteceu.


299928467_1d14aa6cd8.jpg“Something in the way” é uma música do Nirvana que o Kurt fez, ao que parece, rementendo-se a um estado de completo abandono que ele teria experimentado, ao que parece, numa fase da vida em que foi obrigado a viver embaixo de uma ponte. Questionam se isso aconteceu. Eu sei que, para mim, essa é uma opção de música quando sinto haver algo extremadamente sutil e triste a falar – para mim mesmo ou para alguém. A música, amplamente conhecida, está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jDyvClUsCJU.

Mas a tristeza pode ter filigranas muito variáveis. Por exemplo, se a pessoa se sente abandonada enquanto ser (não me refiro sequer a ser humano), distanciada dos outros seres a ponto de questionar se existe, para si mesma ou para qualquer outro (por exemplo, um animal), ou se sente, a própria sensação de se saber abandonado/a adquire outros tons, ainda mais dramáticos. Nessas situações, lembro-me das composições de Arvo Pärt, compositor erudito estoniano cujo maior foco é musicar algo que remeta a um Deus de inspiração claramente definida. As músicas de Pärt costumam se traduzir, em mim, numa quietude que remete a uma paz desejada. Como, por exemplo, esta: https://www.youtube.com/watch?v=B8qg_0P9L6c

Nessa situação, eu, é claro, busco alguma coisa. Pois, embora sinta o desespero do abandono, ainda sinto uma vontade de escapar, de me trazer algum consolo – mesmo que através de uma música de Youtube, que qualquer cara pode acessar de qualquer parte do mundo. A música enquanto expressão, cabe notar, para mim parece traduzir uma saída quando aparentemente a razão não mais oferece nenhuma. Não sei quando isso começou a me acontecer, mas lembro que, em meio às brigas familiares das décadas de 80 e 90, eu me refugiava em notas sem fim de guitarristas egolátricos ou nos esgares agudos de violinos de virtuosos de outrora para tentar sentir o que eu achava sobre as pessoas envolvidas nas discussões – sabendo-me (ou acreditando-me) impossibilitado de estabelecer qualquer conexão com elas. Muitas são as músicas que ficaram dessa época, mas não cabe citá-las aqui tão facilmente, pois, levando a situações específicas, elas não traduzem virtualmente mais nada a ninguém, muito menos a mim mesmo. Nem esse consolo parece hoje ser necessário. Mas uma ficou, e remete a uma conexão que eu queria fazer com meu pai enfrentando um vício que não conseguiu abandonar, e que ao que parece o impedia (ou dificultava) sua conexão real com a família que montara (e da qual eu fazia parte. Essa música é o Poema, de Chausson, tocado necessariamente por Jasha Heifetz, que está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=JYExP5jWrvc.

Essa versão eu havia gravado um dia do rádio, num aparelho que mal e parcamente pode ser chamado de gravador. Mas era o que eu tinha. Cabe notar que as músicas dos guitarristas egolátricos não me davam necessariamente um consolo, mas mais uma esperança de chamar a atenção – quando até hoje tenho receio de sentir ao dedilhar uma corda de instrumento de corda. Era como se eu sentisse que, não sabendo como falar o que sentia, e desacreditado do poder da palavra para isso – pois esta necessariamente conduz a um solipsismo egocêntrico quando tentamos dizer como nos sentimos –, eu vislumbrasse naquelas manobras incontidas dos chatinhos das cordas uma forma de dizer que eu não me sentia dominado pela tristeza (o que era mentira, claro).

Daí que as composições dos guitarristas em nada pareciam remeter a qualquer tristeza. Daí que as situações vislumbradas por mim naquele afã de correr em meio às partituras pareciam, mesmo para mim, impossíveis sequer de, no fundo, conectar a mim em relação a mim mesmo. Como dizer que tal música mostrava o que eu sentia quando corria, de moto, em avenidas movimentadas (ou não), e como eu me sentiria se escapasse de uma morte certa (que, ao que parecia, eu procurava), se eu nem sequer sentia alegria ou alívio ao passar por uma ou outra situação?

Afinal, eu não corria para me sentir feliz, de alguma forma (mas para fugir de algo que eu não conseguia aceitar). E eu não me sentia feliz em ter escapado de algo supostamente trágico (pois eu procurava algo que pudesse me anular, por exemplo a morte). Uma música que traduzia uma alegria, por exemplo, mas uma alegria quase infantil, era esta, do Vinnie Moore: https://www.youtube.com/watch?v=bXusnQ5GiTc&index=2&list=PLJ7kQ6LB8GXHiGHIxOOrEnNW0qgeSDiEB.

Já o alívio de escapar era traduzido por esta, do mesmo guitarrista: https://www.youtube.com/watch?v=zthwkczs0n8.

Mas tenho de confessar que, embora relacionadas a uma tristeza bem clara, há músicas escolhidas naquela época que não parecem sequer me fazer lembrar nada. Como esta, do Leonard Cohen: https://www.youtube.com/watch?v=QtL-fkTH2Qc, que eu cantava usando aquele meu gravador patético, e que meu pai acostumou-se a ouvir – e que um dia inclusive cantou (bem baixinho). Reparem no título, I can’t forget, quase uma confissão, e no fato de ela sugerir um caminhar numa estrada ou algo similar, como se fosse ambientada numa situação não mais tão contemplativa quanto as primeiras (e tirando as dos guitarristas).

Hoje nem sinto muito ao ouvir essa música, muito menos a sensação de ouvir o meu pai a cantando. Mas sei que, lá no fundo, ela remete a um contato desejado e quem sabe perdido para sempre. Às vezes me emociono com a situação ou mesmo algo me convida a sentir algo inexprimível. Mas é tão raro que pode parecer sadomasoquismo me prender a isso. Termino dizendo que este texto não tem o intuito de levar vocês, mesmo que de forma rasteira ou envergonhada, a alguma sensação de outrora – quiçá ainda importante para mim. Nem mesmo tem outro intuito, que seria o de refletir sobre os motivos dessas tristezas – algo que nem quero. Muito menos existe o intuito de abrir espaço para outras tristezas, jogando as outras fora, para estas entrarem. Não.

Confesso que aqui eu me sinto mais como um catalogador. Uma espécie de arquivista que já admite a inutilidade de certas coisas para o momento atual, e mais ainda o seu desejo diferenciado a respeito da vida, agora (algo nada triste), mas que sente a necessidade de guardar tudo numa gaveta para quem sabe assim finalmente esquecer que algo aconteceu.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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