o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

“Fome”, de Raquel Barros, aka Leopolda Bruna

É fácil. É fácil? Não, é difícil. Dá para notar. É difícil. Se fosse fácil nem começaria assim. Se fosse fácil nem seria dor. E é. É lírico. É sua dor. Que quer universal. Que vê universal. Que é nossa. Parece fácil. Ela diz que é fácil. Talvez seja – para ela. Mas a gente sente: é um lamento: é difícil.


human.jpgEscorregar. Escorrega-se quando se vacila. Ninguém – a não ser os sadomasoquistas – escorregam porque querem. Escorregar é cair e se machucar. Ninguém que escorrega acha isso assim tão fácil – nem as crianças, que muitas vezes choram. Os adultos escorregam, fingem que nada aconteceu, e quando bem-sucedidos saem de cena meio que dando uma de “acontece”.

Mas esta pessoa, este ser lírico, escorrega no vazio que aparentemente a incomoda. Com a presença, a ausência do vazio, ela parece dar-se bem. Mas neste vazio – que não é qualquer um – ela escorrega – e deve perder a si mesma. O vazio é o de um oceano.

Mas um oceano é cheio, repleto até. Mas o oceano deste ser lírico tem um vazio enorme que nos faz escorregar, que quem sabe nos obriga a isso. Mas o oceano é repleto sim, de quê? De fome. De uma fome que assume três principais formas: uma fuga, um desamparo, uma fome. Uma fome de fome. Tudo aqui é carência. Uma fuga é uma carência travestida de ação. Um desamparo é uma carência travestida de compaixão de si mesmo. Uma fome de fome é como abordar o fulcro de uma carência que nem mais fundamento tem.

giacometti1.jpgNão existem figuras mais famintas na arte contemporânea que os magricelas do Giacometti. Mas eles não são magricelas por algum problema fisiológico. Reparamos que eles são normais, elegantes até. Parecem gentlemen, assumem posturas esbeltas de homens que parecem bastar-se embora a eles a gente sinta que falta alguma coisa.

Todos eles estão para fora. Todos eles estão à procura. Mesmo quando olham para o interior de si mesmos, a eles parece faltar-lhes alguma coisa. Buscam dentro de si mesmos para o interior de sua magreza que, perdoem-me a indiscrição, parece até mesmo a minha (peso 58 kg). Esses magricelas também andam, embora – como eu já havia dito em outro texto – pareçam parados no tempo e no espaço.

Parecem estar em busca de algo que não está longe, mas no processo – quem sabe até continuem procurando algo que já foi, que ficou no meio do caminho. Os famintos de Giacometti são, por assim dizer, famintos de sua própria fome.

Não à toa os famintos desta Leopolda atravessam a rua sem olhar. Não à toa, embora limpinhos nas reentrâncias sem fim de seus corpos deturpados por alguma carência inominável – lembrem-se de Beckett, meu amado –, estes famintos, desta nova Leopolda, estão perdidos em meio a 360 graus de lama e charco e pântano e esterco – tal qual o personagem inominável de um Beckett de Como é. Há inclusive abusos sem fim subentendidos nessas fomes todas que parecemos identificar nesses nossos colegas de jornada que parecem não se afastar de telas que não param de se mexer.

Abusos de fome que são impossíveis de satisfazer – tão logo sentimos alguma satisfação até mesmo fisiológica de um prato aparentemente insuperável numa cozinha francesa qualquer vemo-nos, quando passamos pela rua – vejam, passamos pela rua -, diante de um qualquer que também nos aborda em uma dessas telas e que sabemos que, mesmo que nos fatisfaça, até mesmo sexualmente, não conseguirá saciar nossa fome de fome. O ser humano dos séculos posteriores a guerras que quase levaram-nos a um paroxismo insuperável – e que hoje parecem supostas em conflitos de civilizações do início das eras – é assim: faminto de si.

Faminto de algo que ele não mais consegue vislumbrar. Como não imaginar que os famintos desta Leopolda fictícia iriam nos conduzir a desgraças iminentes – e transparentes – sem começo nem fim? E acaso o sofrimento tem começo e fim? O sofrimento nunca nos dá indicações de quando realmente começou – nem do seu fim, que só acaba com a nossa morte, realmente.

Como porém se dá essa escorregadela macabra que nos leva ao fim de nós mesmos – um fim que está entre nós como vizinhos com os quais atravessamos a rua? Se dá lentamente e devagar – como os dias que vivemos, um a um, e que atravessamos como que nos enganando de que são anos e décadas e vidas que terminam.

Mas Leopolda ainda diz que é fácil. Que é fácil escorregar sem ter que enfrentar o medo. Sim, pois, é fácil viver sem medo, não é? É fácil viver bebendo nos bares tentando esquecer o inevitável. Assim como é fácil escorregar, lentamente, acostumando-se aos poucos com o que nos destrói. O que nos destrói? Bom, sabemos que isso é com qualquer um. A cada um destrói o que cada um deixa que o destrua. Pode ser qualquer coisa. A questão porém não é essa, mas escorregar sem enfrentar esse medo.

Por que se enfrentamos o nosso medo o que efetivamente nos acontece? Enlouquecemos. Piramos de lucidez. Como as figuras de um Guayasamín, o grande equatoriano de todo o sempre, que ao se renderem às condições insuperáveis de sua condição de inviáveis parecem enfim – como quase nenhum de nós – aceitarem o desespero de quem não vê mais luz no fim do túnel, expresso na ausência de profundidade dos olhos dessas figuras-caveiras que porém coadunam uma humanidade tamanha que nos deixam estupefatos com uma eticidade há muito, para todo o sempre, perdida. Pois no fundo nós gostaríamos tanto de enlouquecer, de desesperar, de poder enfim assumir o comportamento de seres que definitivamente se afastam da vida para finalmente abraçarem esgares de pavor? Como nós não gostaríamos de gritar desbragadamente, sem dar afinal atenção a ninguém? É a liberdade dos loucos e – em parte – dos mendigos.

Resta-nos, embora ela, Leopolda Bruna, diga que é fácil, flutuar sem perceber, para deslizarmos livres e leves em navalhas invisíveis que nos desfiguram. Ou alguém conseguiria perceber algo diferente à vida, a nossos trabalhos desfigurantes, que nos tornam rinocerontes (razão) andando com pernas de gazela (emoção)? A razão que precisamos assumir para nossas vidas é isso: a cela de que precisamos para existir em nosso desespero de figuras virtualmente lúcidas de um Bacon do pós-guerra.

Podemos, é claro, soltar o leme, abrindo as mãos. Podemos também deixar-nos levar pelo catastrofismo do panorama, sem porém – afinal já se foi essa época romântica – abandonarmos o brilho cintilante do olhar da vida que nos afoga enquanto ainda QUEREMOS.

Poema (Raquel Barros, aka Leopolda Bruna, http://leopoldabruna.blogspot.com)

Fome

É fácil/ Escorregar no vazio/ Desse oceano/ Faminto de nossa fuga/ Faminto de nosso desamparo/ Faminto de nossa fome/ De nossa alma que atravessa a rua sem olhar/ Entre 360 graus de lama e charco e pântano e esterco/ Faminto de abuso/ E de nossa desgraça transparente/ que parece não ter começo e nem fim

É fácil escorregar, lentamente/ Devagar/ Sem ter que enfrentar o medo/ E acostumar-se aos poucos/ Com o que nos destrói/ E flutuar sem perceber/ E deslizar livre, leve/ Numa navalha invisível/ Que nos desfigura/

É fácil/ É muito fácil/ Abrir as mãos/ Soltar o leme/ E naufragar com um sorriso no rosto/ E os olhos brilhantes/ Cintilantes como as ondas em que mergulhamos/ Ávidos


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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