o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O afundamento do que não mais flutua, em Gloomy Sunday

Parece existir uma espécie de disputa surda entre os artistas de diversas orientações para pegarem para si mesmos a tradição dos perdidos, do intelectual ensimesmado que prefere pegar a estrada e se perder no meio do nada a dar um sentido a sua vida – um sentido, digo, socialmente aceito. Ocorre que hoje a própria busca no meio do nada parece ser um caminho quase tradicional.


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A geração beat é hoje uma das principais inspiradoras desse way of life. Claro que tem gente que confunde a embalagem com o conteúdo. E para descobrir isso NÃO basta ler superficialmente um On the road. Pois há quem leia tudo, faça provas disso e daquilo e mesmo assim não convença. Sabemos que essa pessoa, bem no fundo, e às vezes nem tão profundamente assim, não busca lá muita coisa.

Imagino que boa parte do charme desse estilo de vida precário origine-se dos russos. Imagino Gógol viajando do interior atrasado de uma Rússia desconhecida para ele mesmo a uma São Petersburgo que já revelava a cisão que iria caracterizar a modernidade. Ou imagino um Dostoiévski tentando sustentar seu jornal enquanto tinha ataques epilépticos e tentava traduzir sua religiosidade em mensagens que poderiam dizer algo a qualquer um.

E diziam.

O personagem jovem de Gloomy Sunday lê Dostoiévski. Eu leio também – porque tenho o livro –: é Crime e Castigo. É Raskolnikóv. Aquele que quer separar quem vale viver de quem não vale. E que mata por isso. Com uma faca que se mexe por conta própria. E que mata. E que no final é absorvida. Como esse medíocre imbecil não diria algo a respeito do mundo a quem já nem quer mais ter base, caminho ou destino? É o sujeito da peça, parado no banco da estação, lendo páginas que não avançam – quando é interrompido.

Repare-se: o sujeito é interrompido.

Um sujeito qualquer sendo interrompido não é nada. Um sujeito que optou pelo não sendo interrompido é sendo abordado da única forma que ele não quer. Mas quem interrompe é uma garota de 14 anos (acho, não me lembro bem). Que parece ser algo em que ele não mais acredita. Ou que não acredita mais existir. Mas ela, a Renatinha (segura), insiste. Sonha. Viaja. Sonha um sonho de quem não mais sonha.

Note-se como ele não acredita nela. Como ele retoma a leitura. Como ele tenta retomar sua existência sem rumo. Como ela interrompe. Imaginem o Marião sendo interrompido em sua solidão em frente ao Teatro Cemitério de Automóveis. O que ele faz quando é interrompido? Sai. Não se envolve. Ou até se envolve demais. Mas ele sai. Como todo aquele que optou pela via do caminho. Sem qualquer caminho a priori se não aquele determinado por uma vontade. Ela lhe diz: vou com você. Dividir o nada. Como se ele acreditasse. Mas ele se ilude. E pior: sabe. Un paso hacia tras.

Mas voltemos à peça – que está acontecendo agora, neste exato instante. O sujeito conversa, então. Aceita o embate – algo que ele não queria. Pois para sujeitos desse o diálogo é embate. Ele está se procurando. E agora ele ainda finge que acredita – na existência de um outro. Dá o braço a torcer. Ela se impõe, assim, de alguma forma – determinada. Do seu jeito de ser.

Eles se juntam, digamos. Dividem algo. Ele desiste então da via do caminho. É quase pueril vê-los entremeados, nos insistentes atos de procura e encontro que antecedem, sustentam, resultam e mais que nada supõem o contato. Dirão amor, alguns. Eu mesmo gosto de acreditar nisso – até porque agora acredito. Mas não podemos supor isso tudo. Nada é assim tão fácil.

Dói ver o sujeito ensimesmado – quem sabe pela primeira vez em todo o tempo do relacionamento – quando ela afinal decide terminar com tudo. Não irei dizer por que isso acontece – que é quase óbvio na trama da peça (que envolve um terceiro, mais e menos velho). Concentro-me nele. No desmazelo (não leve a sério, Gabriel, é só uma forma de interpretar algo que está em seu corpo, só isso, não é recado) do corpo de um sujeito corpulento que decide dar um tempo para si mesmo – como se estivesse ainda viajando – e que se levanta para pegar as coisas e ir embora. Quando ela decide voar. E ele fica.

A cena final mostra o cara aparentado aos russos descabidos e descabelados sozinho na estação, mas agora sem o livro – e portanto sem a menor vontade de dar sentido àquilo que ele experimenta – a viagem. O sujeito não tem mais olhar – é claro. Mas, mais que isso, não está mais lá. Antes, ele ainda estava. Agora, não mais.

Há uma vontade férrea do diretor, o Trovão, em apresentar vias musicais àquilo que vemos à nossa frente. Nesse sentido, tudo parece partir de notas dadas de antemão – o que não pode ser sequer bom ou mesmo ruim. É só a impressão curiosa que permanece – e que mostra, ao que parece, o porquê de o outro personagem da trama – um sujeito que parece ter alguma relação com tudo que acontece mas que o faz enquanto testemunha ao invés de como participante – ter vozes que remetem a passado e a presente. O Maurício Bittencourt, o ator que faz o personagem, diz que o foco da direção foi justamente o de fazer a rouquidão se projetar. Chegar até lá longe. O Mau diz de suas dificuldades em tornar isso realidade.

Houve um momento na história da música em que o gutural e a nasalidade passaram a ditar o tom de uma sensibilidade desinibida de um espírito que parece nos dizer mais do que a voz límpida e suave de uma dor tão sincera quando a de uma Amy Winehouse. Eu mesmo tanto gosto disso que nem consigo me aperceber. Mas aqui, claro, não há canto. Há falas que remetem a passado. E a um tempo que não volta. O esforço em falar supõe a dificuldade em aceitar a vida. Ou a dor de tentar dizê-la – que fica clara nos esgares do sujeito que ainda tenta acreditar em algum sentido para tudo.

Há um momento em tudo em que o personagem do Mau fala normalmente. Quando fala ao telefone. Quando entra em contato com a menina que então rompe com o sujeito fortão. Um presente que apaga com o que não existiria e que deixa margem à rouquidão do que passa a existir quase a contragosto. Tirando isso, Mau assume a voz que tanto tem dificuldade em manter. O recado está dado. Estarei inventando? Não sei.

Uma tristeza óbvia fica de tudo – uma tristeza que já nem me toca tanto assim. Mas que não me é irrelevante, longe disso. Pois remete às trajetórias de todos esses coitados que quiseram, pela primeira e última vez em suas vidas, dar um sentido a uma busca sem sentido, sem caminho e sem destino. O sujeito de Gloomy Sunday tinha escolhido. Arrependeu-se. Terminou destruído. Não pode mais escolher. Maior tristeza que essa difícil eu imaginar agora. Mesmo agora que a experimentei pessoalmente – acreditem – em textos que jamais trarei à tona, aqui ou em qualquer lugar da internet.

É bonito ver o Trovão perdendo o cabaço com tamanha integridade. Ficou um choro contido na garganta que ainda tenho. E um aroma de Sam Shepard no deserto que não vejo, que não imagino, que nem cheiro mas que está lá, em meio ao piso de madeira colocado por cima do linóleo do palco do Teatro Cemitério de Automóveis.

Gloomy Sunday: https://www.youtube.com/watch?v=xHpYyKqgzks

“Pois na morte eu te acaricio/ Com o último suspiro da minha alma/ Eu estarei te abençoando”

Frei Caneca, 384. Sextas, 23h59.


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Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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