o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Olhe para mim

Há sempre estradas enormes abertas nos olhares de quem menos a gente espera. Mas para entrar é necessária uma autorização especial: abrir o nosso próprio, que quando mais o tempo passa mais parece se fechar.


6a00d834518cc969e20133ef574d6c970b.jpgNão sei quando foi mas houve um momento em minha vida que passei a ter dificuldade em cruzar o olhar com as outras pessoas. Não irei especular a respeito, simplesmente aconteceu.

Essa dificuldade ficou clara como o vácuo quando interpretava um papel numa peça, ano passado, e o autor me chamou a atenção: eu devia olhar aquela com quem estava falando. Reparei então que até aquele momento eu dizia as falas mas olhava para o chão. Inaceitável.

De fato, quando a gente sai à rua numa cidade como São Paulo nota de repente que as pessoas praticamente não se olham quando se cruzam. As garotas tendem a interpretar o cruzamento de olhares como uma cantada. Os homens não gostam de ver uns aos outros.

Mas refiro-me a outro tipo de olhar. A um olhar do tipo de um sujeito que está dirigindo um carro e vê um sujeito andando na rua. Ele não enxerga simplesmente o sujeito e faz uma anuência do tipo “tudo bem”. Ao contrário, ele desvia o olhar e faz como se o sujeito não estivesse estado lá, sob seu olhar. Ignora.

Um hábito que contradiz este fenômeno que estou ressaltando é a mania que principalmente homens têm de olharem uns aos outros quando se cruzam e, mirando bem fundo nos olhos uns dos outros, abaixarem a cabeça e falarem, baixinho, “tudo bem”. É um cumprimento eminentemente social, de quem reconhece o outro como uma espécie de irmão.

No meu caso, entrei numa amizade com uma garota pela qual me deixei atrair. Ela reclamava que eu parecia fingir. Parte disso deveria derivar do fato de que eu não falava olhando em seus olhos. Argumento dizendo que eu precisava pensar sobre o que ia dizer. Mas não colava. Com o tempo passei a olhar o seu rosto enquanto falava. Hoje é comum.

Aconteceu que um dia passei a olhar através. Ou seja, passei a escutar sem me prender ao que estava sendo dito. Eu enxergava seu rosto e notava as pequenas discrepâncias de tom – como todos os seres humanos comuns devem fazer. Mas via algo mais. Dialogava com algo que era eu mesmo entrando na lógica dessa amiga. Dialogava admirando a sua lógica para de vez em quando questionar a minha própria.

Ocorre que isso, segundo Deleuze, é amar. Uma amiga minha, a Marianne, diz que amar é biunivocidade. Segundo o Wlad, outro amigo, amar é reciprocidade. Marianne não concorda com o termo do Wlad. O Kurt Cobain falava em empatia (em alemão: einfühlen).

No trato com as atrizes de meu grupo de teatro, aprendi aos poucos a escutar – simultaneamente àquele processo que vivi com minha amiga. Mas aprendi algo ainda maior. Percebi que eu podia enxergar e olhar muito mais fundo do que eu jamais imaginaria. Descubro camadas e mais camadas de quem fala comigo, e, ainda melhor, percebo que essas camadas realmente existem. Elas olham, admiradas, quase embevecidas. Se tornam, quase instantaneamente, minhas amigas. Muito próximas, algumas.

Mas para que isso aconteça é necessário romper com o comportamento tradicional. Não irei comentar tudo o que é preciso para esse processo irromper, só lhes digo que percebo, já no começo de qualquer conversa com elas, uma resistência ferrenha. Parece haver um comportamento padrão na sociedade o qual, não diria que impede, mas dificulta e desestimula qualquer contato mais profundo – e quase sempre a partir do olhar. Seja como for, basta conquistarmos a confiança do interlocutor – num grau mínimo, às vezes, o que em muitos casos é difícil – para ele deixar as travas caírem. Aí é questão de navegar num mar aberto.

Todo dia me surpreendo com o processo e com os resultados. Ontem, falei com uma atriz que convidei no sábado a entrar no grupo. Falamos objetivamente. Mostrei uma cena escrita por mim. Mas num determinado ponto da conversa algo parou. Ela aparentava desconcentração – dizia-se preocupada com o horário, o que era balela, pois havia me dito que tinha bastante tempo. Desisti de insistir no meu jeito de explanar o processo. Começamos a trocar ideias descompromissadamente até um momento-chave em que ela desatou a falar o que eu não esperava ouvir. A verdade. Seu universo obedecia uma outra lógica, percebi na hora. Agora ela entra em contato com frequência, como se estivesse insegura. Mas aconteceu que a conversa repercutiu tanto nela, mais até do que eu esperava, que aquela impressão de desconcentração mostrou-se, afinal, falsa. Ela realmente se deixou afetar. Mas eu também: tive que perceber como fazer.

Todos os meus colegas devem achar que estou falando obviedades – e de certa forma devem ter razão ao dizer isso. Mas como meu foco é chegar ao âmago da verdade do meu interlocutor o quanto antes, até para agilizar o processo de criação de cenas no grupo, percebo que não é bem assim. Pois nesse afã do contato eu corro adoidado e percebo como processo aquilo que muitos encaram naturalmente (no contato com desconhecidos, na paquera, no namoro, etc.).

Há, sempre, o momento da confiança. Há o momento do contato. Há o momento da descoberta. E há o momento da entrega. Isso eu percebo que ocorre de qualquer jeito. Mas o processo varia o tempo todo, a depender principalmente da abertura do interlocutor a desvendar o universo do outro – e posteriormente a se deixar invadir. No nosso caso, que é o de um grupo, no qual eu dirijo os trabalhos, precisa haver sempre um distanciamento. O ator/atriz abre sua experiência. Eu permaneço opaco. Abro-me de outras formas, fornecendo referências, expondo opiniões, mas preciso da opacidade. Se não, pode complicar. Afinal, biunivocidade é amor.

É interessante notar como, porém, na relação entre amigos essa entrega tende a ser, em muitos casos, ainda mais dificultosa – o que é estranho, pois amigos deveriam ter menos travas entre si, não é mesmo? É curioso, por exemplo, como, nas conversas entre amigos, ocorrem muitas desculpas, muitas interrupções que fazem as vezes de justificativas. Como os amigos muitas vezes dizem que são assim mesmo, que ninguém os entende, que o problema está nos outros. Eu ouso discordar de Sartre: o problema está em nós mesmos. A questão é que nos escudamos e não abrimos o olhar, a maior parte das vezes. Permanecemos opacos por opção. Não confiamos.

Repare, como contraposição, nos olhares das crianças. No conjunto de prédios em que moro, elas normalmente se reúnem na lan house, que eu visito quase o tempo todo. Em termos de olhares, as crianças quase podem ser classificadas em idades. Reparam como os bebês recém-nascidos possuem olhares estranhos, como se não nos enxergassem? Eu diria que esses olhares ainda não se abriram. Um pouco mais velhas, elas têm olhares quase esgarçados de tão abertos: parece que querem engolir o mundo. Não possuem olhares desconfiados, ou fechados de medo – ainda. Por outro lado, tão logo elas se deixam afetar por emoções deixam isso claro nos olhares. Basta terem mais alguns anos, porém, para começarem a encontrar recursos para distrair a atenção dos que as vêem. Começam a ficar escorregadias, com olhares baços, estranhos, às vezes disfarçadamente hostis. Já os adolescentes costumam por vezes ter olhares traiçoeiros, como se não gostassem de ser vistos.

Claro, a pedagogia deve explicar tudo isso, deve mesmo. Mas não me interesso por explicações, aqui. Quero entender por que a distância entre as pessoas, com a idade, necessariamente tende a aumentar. Por que os olhares não mais mostram facilmente com quem realmente estamos falando. Reparam os olhares tristes de fotografias da National Geographic de crianças em lugares inóspitos ou perigosos? Pois é. Lembram do olhar de Hal, de 2001? Não causa um arrepio saber que, conforme o filme, por detrás daquele ponto vermelho tem, digamos, “alguém”? É algo similar que muitas vezes, não exagero, vejo por detrás do olhar de pessoas que, por vezes, até acho que conheço razoavelmente bem. Tenho até a impressão que os olhares das crianças agradam tanto os adultos simplesmente por oposição: porque estes, os adultos, não conseguem mais olhar daquele jeito. Como se tivessem uma espécie de saudade.

Quem sabe nós, adultos, tenhamos hoje mesmo de conviver com olhares como os de Robert De Niro em Taxi Driver ou de Dennis Hopper em Veludo Azul. Olhares fechados, mortiços, desesperados, esbugalhados e com almas destruídas que não conseguem mais achar saída alguma – ou entrada na estrada aberta da alma de outro perdido numa de nossas muitas noites sujas.


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