o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Você está aí?

O ser humano atualmente mal parece existir, seja nos wifies da vida, no teatro, em pinturas, nos atentados diários e na melhor arquitetura.


zaha-hadid-the-opus-dubai-designboom-02.jpgNão sei quem é você – e pelo visto, na medida em que não posso, ao menos aparentemente, ver quem lê este artigo, não posso saber (a não ser que você queira). Mas estou num café usando o wifi e é possível (embora claramente improvável) que você esteja me lendo aqui mesmo, ao meu lado.

Imagine que te descubro, fisicamente falando, lendo este artigo. Imagine que falo com você. Pois é. Eu sei que na hora, naquele exato instante, você não será mais você. Você será uma persona. A tecnologia está fazendo isso conosco cada vez mais. Nos aproximamos e nos afastamos. Podemos encontrar dezenas ou até centenas de garotas no Tinder, mas a um breve toque (certo ou errado) determinada garota aparece ou desaparece. Sem deixar vestígios, sem sabermos por quê.

Maravilhas da tecnologia... Pergunto-me o que acontecerá conosco quando aqueles óculos do Google pegarem. As pessoas continuarão olhando umas às outras?

Quando atuo em uma peça – faço papéis em uma companhia paulistana –, tão logo eu saio – sou um dos primeiros a sair – reparo no semblante daqueles espectadores que ainda permanecem no bar. Há também os amigos, muitas vezes presentes. Mas eu me concentro, muito especialmente, nos desconhecidos.

Há aqueles que te cumprimentam. Outros te evitam, olhando de soslaio. Outros te boicotam – amigas deles te chamam às suas mesas, mas eles evitam te cumprimentar ou tiram a cadeira em que você iria se sentar da tua frente. Muitos aparentam desconforto – parecem não saber o que fazer. Quase nenhum quer falar sobre a peça. Não deve existir uma regra para aferirmos as reações dos espectadores após uma peça. Mas, se eu estava seguro de alguma coisa, agora não mais. Nunca mais (como O Corvo, de Poe).

Maravilhas do teatro... Às vezes questiono-me se o melhor não seria que eu saísse na boa e ficasse no meu canto, evitando reparar em qualquer coisa a respeito.

O estranhamento na vida e na arte não é de agora, todos sabem. A urbanização aproximou as pessoas, mas também deu mais do que motivos para elas quererem ficar na delas. Os sinais, no começo imperceptíveis, de distanciamento, tornaram-se quase grosseiros. Viraram códigos de conduta. É uma perda de tempo tentar argumentar com quem tornou a grosseria um modo de vida. Por outro lado, expressar emoção é algo quase démodé. Chega a ser chique, às vezes.

As telas do pintor Francis Bacon, com suas figuras isoladas e retorcidas de carne e dor, servem como bom vestígio dos dias de hoje. Sim, eu não disse sinal, eu disse vestígio. Quase um testemunho. Mas não só ele vai nessa direção. Ou não sentimos uma angústia desmesurada também ao ver as figuras de um Lucien Freud ou do atualmente em cartaz Ron Mueck? Há quem veja calor naquelas pessoas. Eu não consigo identificar isso muito claramente.

Maravilhas da arte... Às vezes questiono-me se o melhor não seria abandonar de vez o figurativismo e descambar logo para o abstracionismo, as cores, as figuras e o esquecimento de tudo o que nos parece real. Pois, afinal, é real?

Recordo-me então do gesto que um dos terroristas ao periódico Charlie Hebdo fez pouco antes de matar o policial que estava à saída do jornal, na rua. O terrorista estava correndo e mal esboçou um gesto ao atirar com uma arma bem potente no policial, que morreu na hora. Havia um quê de desprezo olímpico no gesto do terrorista. Como no olhar de uma mulher que outro dia avisei que estava esquecendo algo na bancada ao meu lado. Eu não estava lá, a depender do seu gesto. Como o policial. Pelo menos não era UMA PESSOA que estava lá.

A arquitetura também parece nos mostrar que nosso espaço (o espaço dos seres humanos) acabou (quem sabe há muito). Aqueles trambolhos da Zaha Hadid, de tão fluidos e assemelhados a naves espaciais, parecem orientar-se a mundos que não nos dizem mais respeito. Algo num Niemeyer ainda parece dar espaço a quem possa entrar e curtir a paisagem. Não consigo sentir o mesmo numa Hadid. Ou quem sabe eu sinta que as brincadeiras sérias de um Richard Serra, com suas estruturas metálicas incomparáveis, servem mais de desculpas – quando no fundo não estão para nos dizerem algo, a nós, seres humanos.

Maravilhas da arquitetura... Começo então a sacar realmente o que uma Bauhaus começou a nos dizer, com a aparente desculpa de tornar o espaço realmente funcional. Será que é isso que eu vejo mesmo?

Vejo fotografias aqui e acolá, por outro lado, e sinto um certo desconforto quando vejo figuras humanas em relação. Pareço me aproximar mais da figura isolada, do procurado, do selfie, do que de imagens na qual estou, como espectador, de fora. Quero que falem, digo, as imagens, comigo, para meio que provarem que realmente estou aqui. Um casal se beijando como em Doisneau cria uma angústia em mim. Dirão que é porque estou isolado. Não é isso. É mais um egoísmo puro, uma comprovação de minha real presença no mundo.poe-dark-21004.jpg


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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