o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

“É claro que a vida não significa nada” (Roberto Alvim)

Quinta, dia 19/02, Roberto Alvim deu uma palestra no Teatro Cemitério sobre O Teatro, Hoje. Estava com a Rossiley do meu lado esquerdo, e a Priscila, do meu outro. Eu imaginava sobre o que Alvim ia discorrer. Mas ele sabe cativar e a hora passou rápido.


8816622924_53c872508a_z.jpgNum determinado momento, com ar irônico ou mesmo sardônico (sem muito escárnio, porém), Alvim comenta, olhando diretamente à plateia: “Porque afinal não é possível que alguém acredite que a vida significa algo, não é?” Pausa.

Ironias à parte, eu me lembro de uma aula na pós do Ricardo Terra em que ele comenta a mania que certo professor colega dele, mas de outra faculdade (Terra era da Filosofia), tinha de consultar a umbanda para “resolver” certos problemas. Um cientista apelando à religião.

O ser humano é fraco, isso todos sabem. Em determinados momentos da vida, todos nós fazemos partes de claques as mais diversas. Eu passei pelo marxismo como ópio – embora tenha ficado alguma convicção –, pelo catolicismo, pela simpatia pelo budismo, além de pelo espiritismo.

Isto não é um confessionário, por isso reluto em dizer o que penso, diretamente, a respeito de crenças. Mas sei que a gente tende a se apoiar em algo, principalmente em momentos difíceis. Mas tenho sido convencido do “emplastro” que muitos atribuem a religiões, crenças e ideologias diversas. E por isso tenho aguentado firme, embora por vezes vacile.

Mas é tudo muito chato, isso, porque afinal de contas estamos no século XXI, o que não é pouca merda. Tanto foi feito, tanto o saber foi de lá para cá, e é uma decepção incomensurável sentir-se tentado por vias obscuras quando a razão já nos deu tanto no mundo.

Para o Alvim, o fato de a vida não significar nada não é assim tão relevante. Pois, afinal de contas, com a arte podemos atribuir-lhe (à vida) tantos significados quanto conseguirmos imaginar. E aí estaria a graça. O problema seria a falta de imaginação.

Ao meu lado esquerdo, a Rossiley salientou algumas coisas ao Alvim, que respondeu bem-humorado, como sempre. Já ao meu lado direito a Priscila ouvia atentamente e sorria como só ela sabe. Foi bonito ver tudo isso, entremeado com observações de participantes e uma singeleza ímpar por todo o evento. Saí antes. Fiquei no bar tentando acessar o wifi (consegui só muito depois).

É muito difícil ao indivíduo contemporâneo, pelo que percebo, admitir que a vida, a SUA vida, possa não significar absolutamente nada. Pois abstratamente isso pode nem ser tão difícil. Mas conduzir a conclusão a SUA vida concreta não é nada pouco. Saber disso, talvez ele/a realmente saiba. Mas admiti-lo é realmente saber cair do cavalo.

Pois a gente parece, no fundo, tendente a se conectar a alguma coisa. A se ligar a uma explicação determinada – às vezes oriunda de muita reflexão e dor. Ou mesmo nem a uma explicação: a uma pessoa, a uma concepção de vida, a objetivos, sei lá. A acreditar, em suma. Deixar de acreditar sem com isso desacreditar é andar numa linha fina perigosa.

Pois sabemos: tão logo alguma tragédia acontece podemos realmente perder o norte para sempre. A gente acredita para nos sustentarmos, para supormos que algo pode ser mais do que isso que simplesmente vemos; já desacreditar é muitas vezes dar razão à porra-louquice do mundo, jogar-se num vendaval do qual podemos querer não sair ilesos. “E por que não?”, alguns/mas podem se perguntar.

Não é de hoje que, concordando com o Alvim, acredito na possibilidade da “outridade” na arte. Na busca, conjunta e bem-acompanhada, de mundos outros que podem ser nossos, e que não precisam ser somente MEUS – embora eu teime em achar que, sozinho, eu ainda possa perceber algo que não sacava antes. Ocorre que a sedução do NOSSO é por vezes muito mais poderosa – e concreta. O que será isso?

Não é á toa, para mim, que o Alvim conectou, ao final de sua fala (da que eu vi), a palavra amor, ternura e tudo o mais. Pois, nesse mundo de outridades cada vez mais chapadas, apostar na conexão com o outro ainda pode ser revolucionário. Mas isso é difícil. Doloroso. E exige uma admissão do que se é que poucos podem querer pagar.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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