o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

A lua singela e sem subtexto de Luís Capucho

Falo do Luís Capucho, autor/compositor/pintor/artista cult de cepa extremamente original e com uma presença que escapa daquilo que tradicionalmente uma pessoa, qualquer uma, poderia esperar de um artista do seu porte.


9649f2_4eca19210e131a333fb36819fc89fa90.jpg_srz_p_570_220_75_22_0.50_1.20_0.00_jpg_jpgO CD sobre o qual vou falar agora eu comprei naquela inesquecível noite que eu passei na Casa das Caldeiras, na Água Branca, num show do Catarse, onde vim travar contato com esse ser mítico que acabei conhecendo pessoalmente e com o qual travo um contato gostoso de criadores e admiradores mútuos.

Falo do Luís Capucho, autor/compositor/pintor/artista cult de cepa extremamente original e com uma presença que escapa daquilo que tradicionalmente uma pessoa, qualquer uma, poderia esperar de um artista do seu porte. Já rolou o lançamento do seu último CD, Poema Maldito, que ele me mandou, e sobre o qual falarei logo – e que tentarei ajudar a divulgar, também 1.

Para esta resenha, não irei apenas faixa por faixa, como costuma ir a maioria dos resenhistas que fazem o trabalho como se deve. Irei também fazer conexões entre o jeito de ser do Luís, sua história pregressa e a história de suas dificuldades, assim como o estilo que ele usa para se comunicar, das mais variadas formas, artísticas ou corriqueiras. Para isso devo usar também algo do que venho inferindo da leitura de seus livros, Cinema Orly, Rato e Mamãe me adora.

O Luís é um professor de português e literatura do ensino médio aposentado por invalidez (recupera-se da Aids e de um período longo de coma) que publicou seu primeiro livro, o Orly, narrando seus excessos nesse local onde rolava de tudo em termos de sexo homossexual, e depois mais dois, sobre outros assuntos. Além do Lua Singela, este primeiro CD, Capucho lançou também mais dois (o terceiro será lançado dia 30 de janeiro) e agora também ganha a vida vendendo suas pinturas, todas com o mote Vizinhas de trás, uma das quais eu comprei aqui de São Paulo (ele mora em Niterói).

O Luís admite que só consegue escrever sobre o universo gay, que é aquele que ele conhece. Mas lendo-o a gente não sente que seus livros devam ser necessariamente classificados como livros de literatura gay. O Luís, a meu ver, trata o universo gay com a mesma naturalidade com que um Edward Bunker, ex-criminoso, trata seu universo de criminalidade, o único que ele realmente conhecia e com o qual, mesmo deixando-o para se tornar um escritor de sucesso, lá nos Estados Unidos (ele foi o mr. Blue, de Cães de Aluguel, de Tarantino), ele até a sua morte realmente se identificava.

capucho.jpgO Luís faz, a meu ver, com seus livros e CDs, uma aproximação de seu universo com o mundo, digamos, tradicional, da forma mais natural possível, sem considerar o que ele fez ou faz ou vier a fazer como algo passível de ocorrer somente em guetos. A literatura e as músicas de Capucho não são criações de gueto (embora eu não saiba se ele concorda com isso).

“Lua Singela” compõe-se de 12 faixas. A primeira é a faixa-título e desde já aproxima o ouvinte a algo bem, digamos, “para baixo”. Faixa lenta, com acordes demorados e em grande parte do tempo sujos, variando do elétrico (guitarra) ao acústico (violão), Lua Singela já mostra ao que veio nas primeiras estrofes (“Eu gosto daqueles que são maiores/ que me parecem ter mais suco/ têm os poros com mais seiva/ têm maior quantidade de sangue/ para me alimentar/ para me alimentar”).

Fica claro desde já que ele fala de “eles” e que tudo parece se resumir, ao menos neste ponto, a corpos, a dimensões, à existência de suco, seiva e sangue, à necessidade que qualquer um tem de ser alimentado. Tudo perfeitamente coerente com Cinema Orly, onde o único que realmente ocorre (em termos de atos, embora haja uma camada interna que faz a diferença em tudo o que é expresso) é o sexo, puro e simples, sujo ou limpo, verdadeiro.

Mas a diferença entre o Luís e muito do que vejo por aí que tenta captar a atenção desse mercado gay que só faz crescer é que ele bem que poderia jogar essa pedra apenas no lago que é sua canção. Mas não faz isso, e o que faz ele o faz com uma integridade que dá para sentir que é totalmente sincera. Alguns exemplos de trechos de estrofes que aparecem logo a seguir: “Morto de fome”/ “Muito mais lindos”/ “Nada pra comer”/ “Não tenho onde morar”/ “Andar sem destino”/ “Dormir sob as marquises”/ “A lua enorme caindo atrás da cidade”/ “Ê, lua singela”.

0.jpgJá o resto se repete. Algumas indicações ficam claras aqui, especialmente para quem costuma visitar o blog do Luís. O Luís, como quem o visita sabe, tem um costume perfeitamente arraigado de, de repente, usar expressões sutis, suaves até, em acepções completamente originais, que só ele usa, por escrito ou verbalmente, em qualquer lugar, mesmo em mensagens por face, que só possuem, é claro, um destinatário.

Como, por exemplo, Yahhhhhhhhhhhh, que ele não se cansa de teclar quando se refere a algo que ele realmente valoriza, ou como emoticons de extremo bom gosto, que expressam emoções mistas de orgulho e simpatia. Refiro-me, ao comentar tudo isso, é claro, ao “lindos”, adjetivo que parece de certa forma deslocado, como se não devesse estar ali, mas que está, e que diz algo impossível de especificar, de colocar em alguma caixinha em particular.

Os outros trechos de estrofe já parecem mais comuns, mas um aspecto cabe ser ressaltado a seu respeito: eles são comuns, sim, mas não expressam necessariamente uma exclusão que seria necessário combater ou tornar em bandeira, mas simplesmente uma situação pela qual nós, mortais, às vezes passamos, sem querer ou querendo mesmo.

Eu, por exemplo, lembro-me, sempre que ouço Lua singela, de uma noite que passei no Bexiga, em São Paulo, lado a lado a uma garota enorme que, ao que parecia, queria me conhecer, e da qual me afastei para me refestelar embaixo de uma marquise para dormir, já que não havia mais ônibus para me levar para casa. Lembro-me sempre dessa noite, na qual, porém, quase nada aconteceu – a não ser aquilo mesmo, que me deixou uma impressão indelével, e que não morreu.

Sobre o estilo de cantar do Luís eu já falei naquele artigo que citei na nota 1 de rodapé deste texto. Mas aqui, sobre esta faixa, cabe notar como ele canta o refrão principal da canção de uma forma estranha, caindo, aos poucos, como se algo nele não quisesse morrer, e lutasse para se manter de pé. Não dá, sinceramente, para imaginar alguém cantando essa música em voz alta para causar boa impressão, ou para dizer que sabe cantar.

O pessoal que ouvisse acharia que o cara tem algum problema, dado o jeito irregular e estranho, quase doente, de declamar essas palavras e essa mensagem, e que parece causar uma tristeza profunda em quem a admira, seja lá de qual lado o fizer. Logo em seguida, então, vem um Xalalá tão maravilhoso e estranho com o qual se estabelece um ar místico de rua suja e espírito destruído que, contudo, não nos deixa tristes, realmente tristes.

É a forma por excelência de se dizer tudo sem falar nada. Há, nesse momento, na canção, o uso de coro (no tempo da fala principal, ou não) e outros instrumentos que criam uma aparência de eternidade corriqueira e inescapável para o qual nenhum otimismo ou pessimismo pode oferecer explicação ou mesmo solução, sequer passageira.

A segunda faixa, Fonemas, tem um estilo totalmente diferente da primeira. Seu esquema é o seguinte: por detrás de acordes sincopados de violão, surge um saxofone que dialoga com o Luís cantando Foneeeeeeeeeeeeeeeemas e frases encimadas por Que importam? e palavras expressando coisas a serem ligadas aos tais fonemas.

A música toda segue essa estrutura, que lhe dá um caráter meio tosco mas ao mesmo tempo bem interessante, sem praticamente nada a acontecer, mas ao mesmo tempo incutindo no ouvinte uma curiosidade quanto ao significado desse jogo todo. Um ar de experimentalismo jogado por cima de uns acordes simples e bem trabalhados em conjunto com os aparentes improvisos do sax e a parte musicada como um todo.

Dá quase para imaginar o Luís viajando no tema dos fonemas, importantíssimos para a compreensão da linguagem, e sua ligação com coisas reais, ligadas ao mundo real. Tudo no fundo parece algo ligado aos concretistas, que tudo questionavam por meio de jogos com a linguagem, seja lá qual a forma em que aparecesse.

ensaio joo carlos rodrigues mai 13.jpgCapixaba de Cachoeiro do Itapemirim, Luís costuma referir-se diversas vezes, em entrevistas ou nos seus livros, à sua criação em cidades pequenas, pela sua mãe. É este o caso da música Os Bichinhos, a terceira do cd. Nela, acompanhado de um violão grave e (aparentemente de propósito) mal-tocado, e de um coro feminino que faz um contraponto que beira o engraçado, Luís ambienta uma cidade qualquer, com árvores, rios pequenos, igreja no alto do morro e céu cheio de estrelas, o aparecimento de bichinhos, dos quais se lembrava, sim, mas de cujas ações não, não se lembrava. Interessante é que quando os bichinhos aparecem, aparece também uma guitarra que faz uns solos contidos, ao passo que ao final surge um coro que não expressa nada, ou na verdade algo mais parecido com um uh.... que não assume forma de qualquer vogal. Tudo isso dá uma ideia de singeleza e de algo parecido a nada a dizer.

A quarta faixa do cd do Luís tem uma singeleza rara que faz uso, de forma insuspeita, de um diminutivo (de bengala) que aparentemente se refere a seres humanos em cuja classe ele explicitamente se inclui (“Bengalinha/ eu sou bengalinha/ você também./ Canta de galo/ eu me calo/ vem./ Bengalinha/ bengalinha/ meu lugar/ é na cozinha/ eu vou te botar pra ferver” e daí em diante). Lenta, a faixa como que se espalha no tempo enquanto o Luís parece brincar ao dizer que é aquilo que eu nem consigo imaginar o que seja, especificamente falando.

Ainda mais estranho é perceber como, com o tempo, os sentidos parecem radicalizar-se e tornar-se suspeitos cada vez mais no que se refere àquilo que deve dizer respeito o tal do diminutivo. Não posso deixar de notar, porém, que a aparente singeleza da posição beira o pueril e que, se não houvesse algo de inusitado na proposta, ela bem que poderia dizer absolutamente nada de relevante. Tão despropositada também parece ser a situação que tão logo a canção começa ela definitivamente termina. Ainda bem. Faixa, pelos meus critérios, especificamente fraca como nenhuma até agora.

Estamos, na quinta faixa do CD, no meio da rua. Dá para ouvir as pessoas conversando. O violão tosco do Luís mantém um ritmo compassado quase bocejante, e quando surge sua voz é em meio a um eco que parece vir do fundo do mar. O título da faixa, “Ponto Máximo”, sugere um momento em que o povo da rua por vezes se encontra em que, na aparência, nada há, mas em seu mundo interior a revolução se tonifica. Ou seja, há um quê de reclamação ou mesmo de lamento. Mas a letra aparentemente nada diz a respeito.

Fala de língua, fala de coisas impedindo a língua, fala da mulher, do trovão da mulher. Percebo que não errei. Que há um movimento sub-reptício de demanda. Que a minhoca come a língua. Que um colóquio desregrado. Invade a faixa um batuque por vezes discreto, por vezes não. E aparece uma bateria tranquila, vinda lá de onde.

Como sempre, o lalalarala do Luís assume caráter fatalista-reclamante que martela tanto, ao que parece, por saber traduzir a ponte entre uma demanda abstrata e substantivos claros e gosmentos – língua, minhoca, etc. Estamos sempre no mesmo registro. A rua volta e ouvimos uma garota perguntando, sem parar, em monossílabos, uma demanda de um homem que não parece dizer o que quer, ou que não quer o que diz. Uma feira. Uma abordagem. A minhoca. A ausência da língua.

Há algo tão estranho na tão sobejamente célebre “Maluca” (a preferida)! Uma aula de Capucho em poucos acordes – nem tão poucos. “Maluca”, como todos, até os cachorros, sabem, é o maior hit deste maldito, tornado eterno pelo talento da maldita Cássia Eller. São maldições diversas, essas, a conduzir as coisas neste nosso afã de captar o indizível, que é, aqui, como em vários outros pontos da trajetória de todas as pessoas, o lirismo e alegria de viver, simplesmente, independente de razão qualquer a guiar ou fazer-nos perder os passos.

É tudo tão “endeble” (instável, em espanhol), aqui! Para começar, puta merda, o violão parece não combinar, numa síncope que mal passa a impressão de notas, embora estas existam, e sejam acompanhadas de um piano quase à la Free Jazz (este começa num afã similar ao de uma verdadeira harpa, o que dá um aspecto etéreo demais à música, sim, mas ao ambiente, verdadeiramente falando).

Nem parece uma música começando, na verdade, mas com o passar dos segundos nota-se que os graves causam uma tamanha estranheza no ar que finalmente assumem o caráter pesado de uma letra leve, etérea e eternamente significativa. Impossível, nesse exato momento, deixar de lembrar da Eller, que tanto parecia encarnar o epíteto que serviu de mote para toda uma geração de mulheres de caráter forte, prestes a saírem voando rumo a lugar nenhum (nenhum? Sabemos que isso não é verdade). Enquanto isso, a síncope do violão torna-se mais encorpado e mais agudo, o piano brinca ao longe, e vemos surgirem palavras concretas (sim, sempre muito concretas) como “caminhão” (!), com uma concretude quase invisível e flutuante (sim, flutuante), típica do habitante suburbano de Niterói, pois afinal ele “carrega botões de rosas” (!!!!).

E me digam, o que fazemos com isso? Mas vamos lentamente aqui. A figura mesmo é quase essa, qual seja: a irmã delA a chama para ver, da janela, o caminhão... Ou seja, algo ainda mais sutil, ainda mais encorpado no espírito de todos nós, uma cumplicidade etérea de quem olha o mundo de longe. Mas o que ela faz? Fica maluca. Literalmente maluca. Não consigo descrever a sensação que capto quando ouço Capucho falar essa estrofe. Uma liberdade como uma pomba solta no ar. Daí ela rapidamente sai e “quando voltou”, “molhada”, “com mais uma dúzia de botões”, espalha os botões por TODA a casa, mas em pontos que são literalmente jogados pela música, como os botões em todo lugar, em todo lugar.

Quando algo passa a tomar a dianteira em tudo, algo que domina o clima da beleza integral de tudo, que é a CHUVA, sim, a chuva em maiúsculas, a chuva do seu cabelo molhado, o cabelo molhado de SUA chuva. É lindo – ainda mais porque me remete momentos muito especiais (esses, meus, inteiramente meus). Eu me perguntava, da primeira vez, o que a Cássia deve haver visto nesta obra-prima – não me perguntava estranhado, não (eu percebi, já na primeira vez, QUE ALGO HAVIA). Quem, como todos nós, vemos uma ou outra pessoa assumir arroubos eternos de felicidade/liberdade/amor sabemos o que é aquilo a que nos referimos, AQUI. A loucura de viver. Sem travas. Sem razões. Sem incompreensões.

Leiam só isso (Vai querer?): “O mundo é dos comerciantes por isso é que antes, quando eu vendia alicates, ganhava uns trocados arrancando uns dentes e agora preciso apertar uns parentes pra pagar as contas”. Eu, que não acredito mais em gênios, preciso lhes perguntar, então: “É ou não é um gênio?” Ainda mais porque é logo depois de “Maluca”!

O que tem a ver? Tudo. Percebam como o grito de Capucho é de constatação pura e simples, lamento sem ninguém para ouvir e ao mesmo tempo de um lirismo chapado na assunção de que tanto faz – contanto que compre... (Quem vai querer comprar). Quem vive sabe afinal que a verdade é essa mesma, que o mundo é dos comerciantes... A beleza de tudo, contudo – que poderia ser apenas algo marxiano –, está em grande parte – também – no jeito pelo qual o refrão é jogado ao ar, como num coro grego ou numa procissão de rua, puxado pelo Capucho, quiçá inspirado nos gritos dos feirantes cuja capacidade de viver é e sempre será simplesmente insuperada.

E reparem: “O mundo é dos comerciantes por isso é que antes, quando eu matava meus porcos, eu quase mudei, fui morar no planalto, mandava no povo e agora dou facada nos incautos e nunca devolvo”. Beleza insuspeita com ares de crítica social, ainda por cima – mas devidamente jogados à existência do qualquer um... Estamos juntos, o tempo todo, de todos os seres perdidos nas estradas em busca daquilo que todo mundo quer. Ou de que precisa para um dia desabafar.

A oitava faixa, “Sucesso com Sexo”, toca aquele assunto – o sexo – que separa os homens dos meninos, ou as mulheres das garotas. Isso se dá, como todos sabem(os), especialmente no mundo à deriva, esse mundo da noite, em que os hormônios e as vontades se confundem até ficarem indefiníveis – especialmente neste século XXI.

Quem não gostaria de poder dizer – ou diz – “eu faço sucesso com sexo”, sem com isso dar a impressão de exibicionismo ou falta de critério? Todo mundo gostaria de poder se exibir fazendo sucesso com sexo. Pois essa linha divisória traça uma distinção clara entre mundos. Os caras e as garotas uptodate querem dar essa impressão (de sucesso). Os velhotes tentam compensar isso com um certo charme ou mesmo com grana.

As garotinhas inexperientes não querem bancar as tais. As mulheres desanimadas com a vida gostariam de, pelo menos, suportar melhor os dias e noites com essa virtude passageira. Mas Capucho vai direto ao mote: “EU FAÇO sucesso com sexo”. É escrachado. Passível de ser colocado à prova. Capucho, como autor, coloca-se acima da carne seca, e vem provar com argumentos e posições. Ocorre que Capucho é gay. E diz que faz sucesso com o sexo oposto. Mas que não toma gosto porque no fundo é do mesmo sexo. Incrível, isso.

Um gay cult assumindo seu sucesso com as mulheres, que contudo não quer. Claro, se ficássemos nesse exibicionismo nada teria tanta graça assim. Mas o que Capucho faz é confundir, discorrendo sobre complexos, vontades e assunções claras, como simplesmente SER (anjo, no caso). Querer ser macho – será que ele quer mesmo é gostar de mulher? Ou a questão é mais profunda (claro que é mais profunda rs)? – nascendo anjo – o que seria um anjo, aqui, afinal? Tudo aparentemente questão de energia e de não se saber ser o que se é (será?).

Nascendo anjo, nasce-se sem sexo, “uma imitação do objeto”. Pois então, então sexo é uma relação entre objetos. E sendo imitação não há nela edifício erigido nenhum. É curioso também que logo a seguir Capucho fale de ereção e de um hospício (sua porta) EM ereção. Imitação em ereção. Lindo ver então a confirmação – elas (meninas) me amam e eu amo você... Para logo em seguida, numa cantoria alegre embora melancólica, Capucho recair numa espécie de lamento distante, como o daquelas pessoas que no bar te vêem à distância, em que “você não vê”. Lindinho.

Enquanto elas vêm querendo neném, ele quer pai. A molecagem – que só agora compreendo – é que ele precisa de paz e portanto de sexo voraz. Mas porra, ele não faz sucesso com sexo? Que é isso? Quer aquilo que já tem? O Capucho adora zoar da nossa cara. A ponto de dizer que o sexo, consumindo suas asas (creio que de liberdade), o tornaria humano – pois então, um escravo. Um humano escravo do... sexo. Mas ele faz sucesso com sexo? Será seu escravo? Sei lá! Tem uma pegada blues dominando o clima aqui, tudo muito alegre, porém. Com direito a backing vocals bem mainstream, mesmo. Quase uma música para ser cantada no Jô Soares.

“Cinema Orly”, o livro, foi o passo inicial de Capucho nas artes, de forma geral. Narra ele, de forma crua como nunca vi (pelo menos até aquele momento) (mas a crueza não é sua distinção), as entradas e saídas do próprio Capucho, no cinema marginal que assume esse nome tão francês. Eu já comentei o livro em algum blog meu (que tirei do ar, por motivos de força maior). O que importa aqui é que “Íncubos”, nona faixa deste CD inaugural, é o contraponto musical a essas aventuras que tanto moldaram e definiram o Luís.

Contraponto, claro, em termos, porque aqui não está se opondo nada a nada. Íncubo, como os dicionários dizem, é aquele que se coloca por cima de alguma coisa. Lembremos disso ao entender que Capucho fez o livro em condições precárias de saúde, pensando muito antes de cada frase (como ele lembra numa entrevista no YouTube), recuperando-se do coma em que caiu por causa da Aids.

Lembremos disso porque, retomando a vida no Orly, como que Capucho faz uma nova homenagem a essa vida tão fortemente vivida e ao mesmo tempo uma espécie de necrológio saudosista. Algo que se foi e que se deixou uma saudade presa ao próprio fato de o corpo tê-la experimentado. No caso, esta música é a alma. E a alma, aqui, é cantada por um parceiro Marcos Sacramento, de timbre (a meu ver) tão doce quanto o de um Djavan. A juventude, no timbre de Sacramento, é que parece saudar a si mesma, havendo passado, como um Capucho ao fundo admirando uma memória que no fundo só dele mesmo pode ser.

O íncubo, percebe-se, ao menos enquanto figura, fica em cima do outro, e aparentemente o domina. É como sentimos o protagonista, embebedado pelo hálito do dito cujo e pela maresia, subjugado por esse sátiro de chifres e falo. Tudo virou então sexo e calor, em sintonia com os outros bichos (o ser humano, um deles) também se amando. E isso, a noite inteira. Porque é a noite o lugar por definição do que dura uma eternidade. Ou ao menos o fim da noite, quando o Sol quer chamar a atenção. Coitado. O mundo gira à noite.

“Antes que a claridade apareça/ levando embora o encanto da noite”. A faixa é totalmente maistream, com todos os arranjos e cuidados respectivos. Pois é, “Maluca” (anterior) ganhou. Luís fica falando ao fundo. Repetindo uma espécie de vida que deixou as marcas que importam. E citando trechos do livro que não estão no encarte com as letras – uma surpresa. Tudo tão natural. Tão atual.

A partir de certo momento na vida a gente percebe o predomínio dos momentos em que não sabemos muito bem o que acontece. Não me refiro àqueles momentos em que não sabemos de nada, mas aqueles em que ficamos meio estupidificados com uma certa indefinição dada na conjunção entre nossos mundos externos e nossos internos. Não ficamos necessariamente em dúvida. Ficamos em suspensão. Duram poucos, esses momentos. Mas são geralmente predominantes na vida. “Algo assim” PARECE falar algo assim. Pois não é que a música começa assim? “Com isso eu era pra...” (quatro vezes). Pois ao que parece algo era esperado das situações antecedentes.

Mas algo acontece então. Algo que faz com que ele, Luís, não esteja nada. Legal, isso. Estar nada. Como a gente está quando fica em frente ao teatro. Querem que estejamos algo. Não, não estamos nada. Mas é curioso, porque o “Luís” é o que define o nada. Ou seja, não estar “nada Luís”, embora esteja mais Cláudia, ou Lestat, ou um pouco Cazuza, Brás Cubas e até Indiana Jones. Estar-se algo fora de nós, estar-se uma outridade. Dado que “em (meu) juízo final, fui o único juiz”. Ou seja, quando não sabemos de nada algo acontece que sabemos mais de outro, do outro fora de nós.

Porque afinal precisamos saber de algo, ser algo, não é mesmo? Então que sejamos outro. Essa outridade dá uma liberdade tal que que ele agora ousa querer roubar ou matar um pouco de inimigo, mas por outro lado ele só quer mesmo amooooooooooor.... algo assim pra eternidade. Como se passando por todos esses desafios de si e do outro sobrasse apenas um desejo de amor. Bonito, não? O Luís termina rindo e engasgando. Que coisa.

Estamos chegando ao fim do CD.

Sempre que eu me meto a dedilhar meu baixo (que talvez eu precise vender), não adianta. Chega um momento em que fico fazendo os mesmos sons. Sei lá, acho que eu me encho e resolvo deixar rolar os dedos do jeito que vierem. Um dia falei com um vendedor de instrumentos musicais e ele me disse que eu precisava apenas de umas poucas aulas para deslanchar, ou pelo menos para sair desse nível 0. Pois é. Mas eu não tive aulas. Continuo no nível 0. E isso não me incomoda, sabem? Por que isso?

Porque eu sinto, sempre senti, que eu precisava antes encontrar o meu “tom”, o meu jeito de tocar, o meu som. Pois então. “A vida é livre”, a 11ª faixa deste CD do Capucho, começa dessa forma sincopada e básica que, a meu ver, é uma das coisas que melhor caracterizam o trabalho criativo deste maldito. Uma “pobreza” que a gente ouve até começar a fazer sentido para depois de alguns segundos fazer realmente TODO o sentido. A curiosidade de tudo isto é que ele simplesmente bate no violão, nos mesmos acordes, um apenas, quero dizer, e só em determinado momento ele o muda. E com isso cria a canção.

Cria mais ou menos, porque claro, o Capucho é bem esperto em não se fazer prever. As palavras meio que escapam dos momentos-chave, as notas meio que erram (não erram), tudo fica como um fio desencapado, meio perigoso, sem que saibamos bem a que tudo isto veio. Pois é. “A vida é livre” parece-me a faixa mais profunda deste CD. Porque é simples. Básica. Insuspeita. O título diz tudo, e não é preciso dizer mais nada.

A natureza, na música, como que empurra a cidade, ou seja, as pessoas, para o alto. Tudo muito bonito e mais, ELE NÃO TEM MEDO. Ter medo para quê, afinal? Com um detalhe, eu JÁ não tenho medo. Ele tinha medo. Do quê? Só ele poderá saber. A gente tem tendência a sentir medo. Ele diz: a vida é livre. A natureza joga a vida para cima. Não tenha medo. O máximo.

A última faixa de Lua Singela, o primeiro CD do Luís Capucho, que vocês podem comprar com ele – ele está no facebook –, começa como um final. Não sei por que, eu identifico claramente, sem qualquer dúvida, as músicas que soam como a última, o final. Elas na verdade me soam como necrológios, como músicas fúnebres, tocadas ou cantadas para lamentar e ao mesmo tempo celebrar a vida, quando ela já se foi. No caso, aqui, o CD já se foi. Tudo o que poderia ter sido dito o foi.

Chegamos ao final da jornada e cumpre dizer as palavras finais. Que são... palavras escritas em máquina de escrever. “Máquina de Escrever”, o nome da música. Tudo começa com um piano, nada mais natural e antinatural. O piano que estabelece o tom certo para tudo aquilo que de importante merece ser dito. Não resisto e comento que o meu primeiro instrumento, o primeiro que me deu pavor, foi o piano. E ainda bem que foram as notas graves. Pois bem. Contrariamente a minhas expectativas, Capucho aqui abre finalmente o coração, dizendo, literalmente, “meu coração é uma máquina de escrever”.

Pois é como eu sempre senti esse cara, esse garoto com experiência de séculos – não me refiro àquilo que vocês podem imaginar, mas simplesmente à sabedoria de quem já morreu (eu morri 2 vezes, já, nesta vida). Capucho é um cronista da vida. Um homem que percorre as ruas, as camas, as amizades, sempre com o intuito de senti-las profundamente, como se elas já tivessem ido, mas também sempre com um laivo de descontentamento – que não cabe, contudo, revelar. O descontentamento, claro, surge na leve ironia. Uma ironia tão leve e tão singela que deixa a singeleza da lua do título do CD totalmente para trás. Uma singeleza quase impossível de comentar. Porque não convém. A vida é singela. Deixemo-la correr sem controle. Deixemo-la correr, louca, “maluca”.

Pois então. Capucho então narra a história de sua palavra. Uma palavra que pode ser paixão, e que passa (elas, as paixões, ou passaram ou passam), mas que deixa canções (que ficam). Sinto o fedor santo (diria Sartre) da história pregressa de um Genet quando leio (e ouço) que os poemas respiram nas prisões. Sim, porque a palavra como que cria uma nova dimensão, algo que respira por si só, e que de certa forma nega embora afirme a vida.

A palavra ousa persistir enquanto a vida escorre pelo ralo. Ou vira um enxerto. E o fim está aqui sempre presente, como no fato de que, ao ler um verso e ao escutar o coração falar, isso só pode acontecer até a pulsação parar. A morte, sempre à espreita. Esperando a tecla final. Pois para ele é com uma máquina que o coração escreve no papel da solidão (linda imagem). A conexão com os tempos também fica clara – Capucho nasceu antes de nascer, como todo escritor, que entra na lide percorrendo a mesma corrida contra o tempo atrás dos amigos que o precederam. Por isso (quem sabe) Capucho era (digo, seu coração) antes de ser – embora aqui haja a palavra emoção – e por emoção pode-se dizer quase qualquer coisa.

Capucho contudo não se rende e precisa transformar em algo concreto – um objeto (letras e sons, brinquedos e (pasmem) diversões) – aquilo que ele sente tão bem – ou tão mal, que precisa escrever a respeito. Capucho não é saudosista, e por isso pede que as paixão se vão, mas que as canções ficam. O artista como criador que busca uma eternidade passageira – mas que pode até durar (quem sabe). Capucho contudo finge não se iludir – ele diz que escreve ilusões: e quem sou eu para negá-lo? Ilusões, contudo, nas quais ele gostaria que você entrasse. O poeta. Que busca o contato (e que divide a lide com Mathilda Kóvak). Pode entrar, a casa é sua.

O coração é seu.

Então.

Quem é que hoje dispensa tanto tempo e esforço para comentar – e nem filosófica ou jornalisticamente – um CD, mídia em franca decadência, se não desaparecimento? Tem que se levar a sério demais. Ou considerar que o que se resenha é algo realmente merecedor de tamanho sortilégio. Será? Ocorre, e aqui me justifico, que no caso do Luís, que conheci há alguns anos e cujas características idiossincráticas aprendi a catalogar, quando não a tornar referência, sinto esse afã louco de me embrenhar numa mera (mera porque absurdamente anacrônica) subjetividade.

Sim, há outros amigos e artistas conhecidos que passam uma grande – talvez até maior – dimensão de estranheza e até mesmo grandeza. Mas o caso do Luís, dentre os que conheço, parece-me único. Ele parece não COMETER nada ao acaso. Ele parece guiar-se pela vida como se ela já tivesse acabado (e de certa forma acabou, na medida da Aids e do coma por que passou). Há nele, e noto isso a cada instante, um frescor do instante que eu, como artista, jornalista e filósofo, considero essencial derivar e espalhar, se não como exemplo, como um mundo possível a ser vivido em nosso interior.

O que fiz aqui, se não embrenhar-me num embate (positivo) entre subjetividades? O que fiz se não viajar em meio a ilações, algumas completamente ao acaso (Obra do Acaso Total), tentando descobrir aquele “it” que caracteriza tudo aquilo que é maior que a própria vida enquanto soma dos instantes? Pois eu já disse aqui neste Obvious: como dedutivo, catalogo tudo. Neste caso, porém, meto-me a viajar. Quem sabe para libertar-me dos fenômenos, dos casos, dos momentos, dos instantes, da dor pontual de quem vive. Apenas vive.

1 Uma narrativa sobre minha descoberta de Capucho, que não foi me apresentado, nem pela vida, nem pela obra, por ninguém, de nossos contatos e encontro e de algumas características marcantes que sua mera presença provoca está em http://www.academia.edu/10040069/O_homem_sem_subtexto_Lu%C3%ADs_Capucho_.

Irei fazer algo mais, outra narrativa, entrando mais em detalhes sobre algumas coisas que percebi na hora do nosso primeiro encontro e sobre ele e seu namorado, Pedro. Além disso, falarei em outro momento do lançamento, para o qual pretendo ir com uma amiga e um amigo, num carro alugado ou mesmo de ônibus, numa ocasião que desde já considero que vá ser marcante, por uma série de fatores que irei explicar naquele momento (começo desta frase).


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
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