o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Amor

Mais passa o tempo e mais o experimento – em suas variadas formas –, o amor torna-se para mim mais e mais impossível de expressar. De definir. Quanto mais de explicar.


hero_EB20130109REVIEWS130109977AR.jpgHá o amor pela humanidade – o ágape. Há o amor entre parentes. Há o amor romântico. Há o amor que permanece, como que em hibernação. Há o amor que subsiste ao amor 1. Há o amor. Entendam: falo de um amor superior: o amor por si só, não o propriamente romântico.

Sou um dedutivo, e como tal (por enquanto), vejo os fatos isoladamente e tento atribuir-lhes sentido. Desconfio de grandes teorias. Mas, em termos de amor, que algo há, sempre há. Algo que escapa ao fator isolado. Algo que subsiste por debaixo da linha d’água.

Talvez seja isso mesmo, meu caráter propriamente dedutivo, que me faz querer insistir em tentar entender o que é o amor, de forma indutiva, antes de nele me perder enquanto sensação e enquanto realidade. Mas digo isso de forma um tanto inconsequente, pois no amor eu já me perdi, e bastante, ultimamente. Ocorre que quase virei um zumbi, e isso não quero mesmo virar.

A compreensão que o amor subentende é algo que beira o super-humano. É algo tão doce que consegue sempre superar a indignação 2. É algo que se expressa em abaixar o olhar diante do sofrimento contido da pessoa amada – e mesmo que esta não te ame. Algo que supõe um “sim”. O amor só diz sim. (Parece. Eu já disse: quanto mais sei, menos sei. E nem sei se em termos de amor a gente tenha que realmente SABER alguma coisa. Não sei mesmo nem isso).

Já comentei em outro texto esse paradoxo mortal que é desejar pular na frente do caminhão para salvar o ente querido. É irracional, isso. Matar a si mesmo para salvar o outro, qualquer outro. Mas quem já amou sabe do que falo. O amor parece uma energia superior a nossa própria vontade. Mas é nossa vontade. Nossa suprema vontade. Porra, mas não estamos vivos justamente para sobreviver? Pois é: o amor parece acabar até com isso.

Eu pensava haver passado por todas as fases do amor e de sua ausência. Mas quanto mais o tempo passa melhor percebo como me engano. As fases do amor não cessam. Não conseguiria lhes explicar em minúcias. O amor parece uma sede de viver. Com amor, tudo é novo, mesmo sendo EXATAMENTE o mesmo.

Leio aqui e acolá sobre amor e acho tudo tão descuidado (desculpem). Nunca é BEM isso. Eu sei, eu caio de cabeça, sempre. E nisto não faço diferente. Mas o que posso fazer se o que me dizem não faz mesmo sentido? Pego frases aqui e acolá de gente incensada como sábia e encaro o que leio com tanto ceticismo... Parece que elas não sabem realmente nada de nada. Parecem profissionais do que não sentiram. Posso estar sendo injusto, eu até deveria ser mais específico, mas não quero polemizar, necessariamente. Simplesmente não fico satisfeito com o que leio.

Por exemplo: como vocês entenderiam que, com amor, o outro está sempre certo? Parece bobagem, não é? Pronto, irão entender com isso que eu estou “cego” pelo amor. Não, a mensagem é mais sutil. O outro está sempre certo porque ele tem amor em sua certeza (afinal, somos NÓS que o ouvimos, e ouvimos muitas vezes o que queremos ouvir. E o que é amor? Não sabemos!). O amor traz certezas. Nunca dúvidas. 3

Que amor é esse, contudo? A que amor me refiro? Será isso importante? Pois se você, absurdamente tocado e desafiado pelo conselho do outro, mas impelido a correr em direção contrária, simplesmente DESISTE e realmente OUVE, abrindo uma porta que inexistia em seu interior, pois então, meu caro, eu digo: você ama.

Sim, isso é dúbio e duvidoso. Como assim, vocês diriam, se eu abrir meu coração e ouvir o conselho do outro eu o amo? É o que eu estou dizendo. Pois, não sei por que cargas d’água, eu tenho visto isso vezes sem conta, ultimamente. Converso com alguém difícil. Essa pessoa insiste em uma forma de ser que me constrange e me dói até. Aproximo-me e estabeleço um contato real entre seres. Essa pessoa, se for tocada por isso, acaba desabando por dentro, e você até vê. Depois de longa conversa, essa pessoa torna-se diferente. Há amor entre nós. É maravilhoso, a coisa mais maravilhosa que já me aconteceu.

Hoje sei que nada substitui o amor. Que nada o engana. Que nada o supera. E que para ele desaparecer basta o maior nada do mundo: o desamor, a falsidade. O amor aparece de graça, e de graça some de nossas vistas. Disse recentemente: se eu morresse hoje já morreria feliz. É verdade. Quem conhecesse os detalhes que me permitem dizer isso talvez estranhasse. Mas acreditem: é verdade.

Quem não é humilde dificilmente consegue amar. Essa verdade impôs-se recentemente em minha vida. A humildade exige uma força tão grande – e ao mesmo ela é tão fácil de assumir para si mesmo – que abre, como um fórceps gigante, uma via imperturbável ao amor. É quando a luz entra e a vida começa a engrenar. Não importa a vida concreta. O amor é tudo.

Por isso (creio) há quem desista de tudo pelo ser amado. Não me refiro a posse ou a paixão, que são coisas bem diferentes – e inferiores. Refiro-me a desistir de tudo o que se quer e de tudo o que se é para amar. Amar de verdade. Hoje percebo também que a conexão entre sexo e amor é tão interessante e estranha que nenhuma frase que me dizem consegue fazer algum sentido no que já sei. Pelo menos até agora.

Tenho tentando estabelecer alguns liames nesse sentido por meio de letras de música, que nem sei compor, mas que me atrevo a escrever. Algo nelas permanece de real. Parecem-me boas o suficiente para esclarecer algo, embora não pelas vias da prosa.

Outra verdade que tenho descoberto é que o amor dá uma alegria, uma paz e um cansaço seculares. Tudo é mais intenso quando se ama. Deve ser o impulso vital de Freud (o que ele diz sobre amor? Não sei). Ou a pulsão da morte. Não sei. Comecei a refletir sobre amor, sem o saber, quando falei de pessoas que se ferem continuadamente.

E o interessante, sabem, é que sei que não sei nada. Realmente nada. Que só tenho mesmo dúvidas e que minhas certezas no fundo são apenas isso mesmo: dúvidas. Mas é tão lindo, isso. Vocês nem imaginam. Espero que imaginem. Espero.

Notas (eu sei que elas serão excessivas e chatas, mas fazer o quê, pensar também é isso)

1 Podem-se perguntar: mas o amor que subsiste ao amor não é o mesmo que o amor que permanece, como que em hibernação? Sugiro que não. Pois o amor que subsiste ao amor entrega à realidade algo, enquanto o amor que permanece nada entrega à realidade. É interessante. Experimento ambos, de forma alternada.

2 Podem dizer que há coisas que fazem o amor acabar. Deve haver. Mas enquanto há amor o amante parece que tudo realmente suporta. Pois, com respeito à indignação, pude experimentar várias vezes – e trocar ideias com quem já passou pelo mesmo (ou ainda passa): quando há amor, nem conseguimos, no final das contas, ficar realmente indignados. Esquecemos e acordamos como se nada tivesse acontecido. Mesmo que esse acordar tenha se dado poucos minutos depois de uma acalorada discussão.

3 Vejamos. Sou questionado quanto a isso de “O outro está sempre certo porque ele tem amor em sua certeza (afinal, somos NÓS que o ouvimos, e ouvimos muitas vezes o que queremos ouvir. E o que é amor? Não sabemos!)”. Os questionamentos que me foram passados: “Como dizer que o outro tem amor em sua certeza? O que sabemos sobre o amor e a certeza do outro?” e “O outro pode ter amor em sua certeza, mas haveria essa certeza sempre, necessariamente sempre?”

Respondo assim.

Primeiro: a que me refiro? Explico: refiro-me a alguém que ama que ouve algo dito pelo ser amado (e só me refiro a isso). Nesse caso, aquele que ama considera, segundo o que penso, que o outro está sempre certo. E por que isso? Porque, tirando os argumentos usados pelo ser amado, ele está certo porque, PARA O SER QUE AMA, o ser amado TEM AMOR (ou seja, inclui amor, seja amando ou acreditando ser amado e por isso considerando) EM SUA CERTEZA (ou seja, a razão do amor está não na razão propriamente dita, mas na certeza daquele que ama diante do ser amado). Ou seja, a certeza do que o ser amado diz deriva de um amor que tem (ou deixado nele por aquele que ama ou que o ser amado sente). Mas surgem muitas questões.

“O outro está sempre certo”. Agora precisamos falar abstratamente – não apenas quanto àquilo que o ser amado diz. Portanto: o outro está sempre certo. Dá para afirmar isso do outro? Não. O outro está certo ou errado, ou parcialmente ambos. Mas AQUI ele está sempre certo. Por quê? “porque ele tem amor em sua certeza”. Ou seja, OU sua certeza se baseia no amor que ele tem, OU sua certeza, ao ser dita, torna-se realmente certa PARA O OUTRO porque o outro nota, nisso tudo, nessa atitude de dizê-la, um amor (como eu já disse).

Claro que ambas as coisas podem acontecer – o amor do outro (do ser amado) e o amor visto por quem recebe a certeza (e que ele pode ter inculcado em si mesmo sem o saber). Mas em seguida, digo: “afinal, somos NÓS que o ouvimos, e ouvimos, e ouvimos muitas vezes o que queremos ouvir”. Pois então, aqui eu digo que justamente é o outro (nós) que ouve a certeza, e ele muitas vezes ouve o que quer ouvir. Nesse sentido, a certeza pode estar em dois lugares: OU em o ser que ama ouvir o que quer (o amor inclusive) OU em identificar a certeza naquilo que ouve, por algum amor envolvido (mesmo que ela, a certeza, ou o amor não existam), ACREDITANDO haver algo aí. Mas eu continuo: “E o que é o amor? Não sabemos!”. Então, aí tudo fica realmente indefinido. Se não sei o que é amor, por que é que dou valor maior àquilo que ouço? Vejo ou não vejo? Ouço ou não ouço? Não sabemos. Neste caso, específico, digo que não sei o que é amor. Mas o fato é que hoje sei: esse amor é entrega. Mas esse amor que hoje conheço não é o amor romântico, que fique claro. Refiro-me somente ao amor amplo, que inclui todos os outros.

Esclarecimento: por detrás destas indefinições está o bispo Berkeley, com seu “ser é ser percebido”. Ou seja, se eu percebo algo em outro esse algo existe, e mesmo o outro existe. Se eu não o percebo, ele não existe. Neste caso, seguindo essa lógica, o amor seria o mote para esse outro existir, e o mote para o que ele diz também, para o que é dito ser ouvido, e entendido, ou mesmo mal entendido (afinal, quem diz que o outro, aquele que se diz estar amando em sua certeza (ou seja, não necessariamente amando, mas amando nessa certeza), está mesmo dizendo o que o outro entende? Pois é).

Mas isso não soluciona tudo. Pois temos: “O que sabemos sobre o amor e a certeza do outro?” e “O outro pode ter amor em sua certeza, mas haveria essa certeza sempre, necessariamente sempre?”

O que sabemos sobre o amor e a certeza do outro (do ser amado)? Nada. O outro (o ser que ama) sente o amor no outro. Ou finge sentir (até para si mesmo). Ou sabe algo que outro não sente. Ou sabe algo que o outro não sabe. Mas sabe sobre o amor do outro? Não. Pois saber é ter comprovação. Claro, certas coisas nós sabemos dos outros com base em nosso saber empírico e sensações. E sabemos mesmo. Tanto que agimos com base nisso. Mas saber científico aqui não há. Nada que possa ser sujeito a experiência, e à reprodução de experimentos. Até porque as pessoas mudam. E sobre a certeza? Também não. Pois tudo aqui se baseia na confiança. O outro deposita confiança no amor e na certeza do outro. Chutaria que boa parte dos problemas entre pessoas, relacionados a amor, deve estar aqui. Sei lá.

Já em “o outro pode ter amor em sua certeza, mas haveria essa certeza sempre, necessariamente sempre?”. A que estamos nos referindo? À certeza do amor de quem pode ter amor? Ou à certeza de quem pode ter amor? Quanto à primeira, não se pode afirmar nada.

Já, por outro lado, imaginando que o outro tenha amor em sua certeza (“pode”), a certeza para quem ouve baseia-se aqui exclusivamente no amor, e não nos argumentos de certeza que sustentam essa certeza (eu já disse isso). Claro que o outro, que afirma suas certezas, não fala qualquer coisa, ou seja, tem argumentos com começo, meio e fim ou verossimilhança. Claro.

Mas, aqui, a certeza tem como base o amor, pois é com base nele, real ou não, que aquele que ouve presta atenção e age – ou tenta agir. Mas há outra forma de entender a dúvida: a certeza de quem “pode ter amor” haveria sempre, ou seja, sempre se sustentaria? Vai depender de muita coisa. Do amor que aquele que diz a certeza sempre – e que pode variar com o tempo, os instantes, os humores, etc.

Além do que não dissemos a que amor estamos nos referindo. Outra coisa: se aquele que pode ter amor sustentar certezas sem que o outro sinta o amor, ou que ele exista, como fica? Tudo fica nos argumentos, exclusivamente. Nesse sentido, ficando exclusivamente nos argumentos, em que se sustentaria essa certeza? Não no amor, é certo. Por outro lado, sob o ponto de vista de quem “pode” ter amor, essa certeza sempre se sustentaria? Acredito que sim. Pois a certeza, para quem é amado, sempre se sustenta na medida em que vem de quem tem (ou neste caso pode) ter amor).

Há questões adicionais.

Estão aqui. “Um espancador de velhinhas teria amor em sua certeza, ao se explicar quando descoberto? Tipo: ‘a vontade de maltratá-la foi mais forte que eu’? Por mais que uma pessoa ame, não se pode dar crédito a uma ‘certeza’ assim”.

Aqui falo de coisas diferentes. Primeiro que eu me referia apenas ao fato de o ser amado ter, para o ser que ama, sempre razão por uma certeza em seu (do ser amado) amor. E isso enquanto essa razão ser dita. Neste caso acima, o espancador teria amor em sua certeza? Não tem nada a ver. O espancador pode até espancar por amor (ele pode achar isso, não que eu concorde), mas isso não lhe dá certeza alguma em amor algum.

Outra (referente a outro ponto do texto). “’Se eu percebo algo em outro esse algo existe, e mesmo o outro existe. Se eu não o percebo, ele não existe’. Ok, mas as situações fazem (aquele) que ama perceber coisas no outro que podem mudar tudo, como nos exemplos citados. A indignação sempre pode superar o amor”.

Aqui de novo refiro-me a outra coisa. Refiro-me a que, quando alguém ama (por exemplo), percebe algo no outro e esse algo passa a tornar o outro e esse algo existentes. Claro, se esse ser que ama perceber algo no outro que não o motiva a amar, pode deixar de amar. Mas estou me referindo ao amor, não à descoberta de que não se ama mais. De qualquer forma, a lógica de Berkeley está predominante.

Quanto a “a indignação sempre pode superar o amor”, isso diz respeito a situações em que o ser que ama, por indignação, pode resolver não amar mais ou pode simplesmente não amar mais (sem se resolver a isso). Aqui há vontade em resolver e vontade em não sentir mais (não amar). Mas aqui pensamos como se a indignação fosse um valor maior que pode motivar não amar mais. Pode ser? Acho que pode.

Mas refiro-me, novamente, ao amor por si só, o amor maior. Quando não amamos mais outra pessoa, pode ser por atitudes dela ou mesmo valores que ela esposa. Mas ela pode superar o amor? Até pode. Mas sempre? Por que sempre? De onde veio isso? Que pode, pode – até porque isso é de critério de cada um. Mas sempre? Em qualquer situação? Bom, se houvesse situação em que isso não possa ocorrer, isso devia ser especificado. Dessa forma, o sempre poderia se aplicar. Mas tenho minhas relutâncias a respeito.

Mais (referente a outra parte do texto). “Atitudes podem transformar o olhar que o amante tem sobre o ser amado, sendo que o que se ama (é) parte do que se vê. Uma atitude faz o olhar do outro mudar e com isso o amor também está sempre sujeito a alterar-se”. Bom, isso é um acréscimo. Sim, concordo, na medida em que o amor pode florescer e fenecer.

Mas eu me refiro especificamente a como se sente o ser que ama diante do ser amado. E considero que a entrega é pedra fundamental. As afirmações/complementos deste parágrafo supõem que o amante já ama o ser amado. Mas eu suponho que os seres podem, e normalmente é o que fazem, amar o amado a partir de certo momento, e não necessariamente à primeira vista. E por que isso acontece? Porque com o tempo os seres se conhecem melhor. Há, porém, creio, um momento em que o ser que ama realmente se pega amando. E aí tudo começa e pode mudar – claro.

Mais uma (referente a outra parte do texto). “’Outra verdade que tenho descoberto é que o amor dá uma alegria, uma paz e um cansaço seculares’ e depois afirma que não sabe realmente nada. Mas antes escreve que tem descoberto VERDADES... descobrir verdades é não saber nada?”. Sim, aqui a observação é razoável. Erro ao dizer que descubro verdades. Deveria dizer é que sinto que. Pois embora o que se sente seja, até certo ponto, verdade para quem sente, não é verdade comprovável para todos, nem muito menos para si mesmo. É sensação, sensibilidade, em suma.

Por último, uma longa observação – que se aplica a este texto – referente ao momento em que eu falo de humildade e amor, mas aplicada a um texto sobre humildade e arrogância, publicado recentemente: “A humildade assim posta é um valor reduzido a uma mera mentira...

Então assim escreve o autor do texto: "A humildade, por ser a qualidade daquele que não se ergue (humildade vem do Latim humus, “terra”, remete àquele que “fica no chão"), é considerada um valor nobre porque condiz com o velho preceito da covardia”. Só um minuto... oi? O conceito diz que humildade é a qualidade daquele que não se ergue. Não se erguer NÃO SIGNIFICA abaixar-se ou se rebaixar. Pode significar, no mínimo, permanecer no patamar em que se está. Também não significa não reagir, o que não tem qualquer relação com falta de coragem. Qual a base lógica que vincula uma coisa a outra? Nenhuma... não esbarremos em falácias. Mas indo ao tema, o que significa não se erguer? Muito mais sensato é entender que significa não se perder em ilusões de superioridade (porque qualquer sentimento de superioridade é sempre ilusão), o que nos afasta da realidade. Tal afastamento traz como ônus o desequilíbrio e a perda do bom senso, como também a perda ou redução da oportunidade de aprender, porque somente no reconhecimento dos próprios defeitos é que se pode abrir os olhos para o trabalho de combatê-los, que é em que consiste a vida. A humildade é uma espécie de antídoto para o orgulho, que é um veneno que limita a vida. A humildade não se limita à condição de preceito moral ou religioso; é um recurso utilitário para o bem viver, um elemento de sabedoria para os que começam a sair das trevas da pequenez de espírito onde se alojam picuinhas diversas, disputas e comparações inúteis, ambições ególatras que não levam a nada e toda uma sorte de lixo promovido por orgulho desmedido, vaidades e outros fatores que fomentam (por que não dizer fermentam?) a imaturidade humana. A humildade é uma forma de limpeza, ou, em outras palavras, um jeito de caminhar por cima dos lixos da ignorância e nem por isso sentir-se melhor que alguém, porque ninguém deve precisar se sentir melhor que alguém. Penso que estar no nível de sentir tal necessidade é que é estar por baixo”.

A observação aqui que me diz respeito é: “Vc replica um texto que afirma que humildade é o mesmo que arrogância (dando a entender com isso que não defende a humildade como um valor)”. Bom, aqui para responder é preciso falar um pouco de Nietzsche.

O alemão, como todos sabem, é pedra luminar no pensamento contemporâneo. Neste caso em especial, o autor do texto que foi comentado acima dissertou algo sobre o posicionamento de Nietzsche com respeito à prática e ao conceito de humildade pelo Cristianismo, um de seus inimigos.

Nietzsche ressalta, nesse caso, que a suposta superioridade da humildade radicaria, em última instância, na incapacidade que o humilde teria de sentir a solidão da super-humanidade, de sentir o peso da superioridade diante de todos os valores mundanos, etc. Nesse caso, segundo Nietzsche, a superioridade da humildade seria na verdade uma inferioridade travestida do domínio dos fracos sobre os fortes. Não irei aqui me posicionar sobre o assunto, que é complexo. Mas irei comentar o comentário do artigo.

Nesse comentário, colocado no parágrafo anterior, é ressaltada a oposição à comparação entre humildade e covardia. Mas não nos esqueçamos que este comentário não pretende ser um comentário do comentário, mas um comentário desse comentário no que diz respeito ao assunto deste artigo, qual seja, o amor. O comentarista retruca o artigo dizendo que não erguer-se (para restringirmo-nos à suposta etimologia da palavra) não seria abaixar-se ou rebaixar-se, mas permanecer, no mínimo, no patamar em que se está. Também não significaria não reagir.

Poderíamos ficar restritos à argumentação, mas aqui eu gostaria de saltar, porque, no que diz respeito ao assunto do amor, é a isso mesmo (ou seja, abaixar-se, rebaixar-se ou não reagir) que eu quero me dedicar. Pois, sim, quando digo – no meu artigo, antes das notas – que a humildade parece ser – ou é – uma via aberta ao amor (“Quem não é humilde dificilmente consegue amar.

Essa verdade impôs-se recentemente em minha vida. A humildade exige uma força tão grande – e ao mesmo ela é tão fácil de assumir para si mesmo – que abre, como um fórceps gigante, uma via imperturbável ao amor. É quando a luz entra e a vida começa a engrenar”), refiro-me claramente a que esta humildade (e não a retrucada no comentário ao artigo do outro autor) abriria as portas a ele, ao amor. Por que isso? Porque creio, ao menos com os dados sensíveis que tenho em mãos, que é justamente ao abaixar-se, no sentido (talvez) mais cristão da palavra, que a pessoa abriria espaço à entrega incondicional, e que isso abriria portas que antes estavam fechadas, restritas a algo que por enquanto eu não consigo definir muito bem (cálculo, interesses, arbitrariedade, diversão, etc.).

Pois sinto que ao abrir espaço à humildade sob esse ponto de vista o sujeito cria, realmente, espaço, DENTRO DE SI, ao outro, um espaço verdadeiro, que não é simplesmente o espaço da outridade, mas o espaço da aceitação incondicional e não necessariamente racional. Um espaço de compaixão no sentido mais aberto do termo, de abertura a um “irmão” de jornada. Uma igualdade assumida no interior de si mesmo, sem qualquer estigma de julgamento ou mesmo de avaliação.

Claro, essa questão é complexa, porque aceitar o outro em sua integralidade pode levar a paroxismos, afinal o outro pode fazer ou pensar coisas que nos desagradam ou mesmo que são erradas, até moralmente falando. O que fazer nesse caso, então? Creio que aqui há um espaço justamente ao não-julgamento por opção, até determinado momento em que o relacionamento de amizade e amor começa. Pois eu estou limitando-me por enquanto a esse momento específico. Mas o comentarista continua, com respeito ao artigo sobre humildade de acordo com Nietzsche: resumindo, ele diria que não erguer-se seria, mais bem, não perder-se em ilusões de superioridade, o que acarretaria “o desequilíbrio e a perda do bom senso, como também a perda ou redução da oportunidade de aprender”.

Nesse sentido, não erguer-se seria poder reconhecer os próprios defeitos, até para combatê-los, “que é (aquilo) em que consiste a vida. A humildade é uma espécie de antídoto para o orgulho, que é um veneno que limita a vida”. Aqui, porém, uma observação, relativa ao aspecto da humidade com o amor. Não afirmo, apesar de concordar com a assunção da humildade como abaixamento, ao menos na questão específica do amor, que ser humilde seria necessariamente, nesse aspecto, não ter orgulho. Muito ao contrário.

Na verdade, embora eu não tenha me estendido sobre o assunto, creio que ao ser humilde o ser que ama é aquele ainda mais orgulhoso, até mesmo pelo simples fato de amar. Pois concebo que aquele que engole em seco tem o orgulho de fazê-lo por amor, pura e simplesmente, e que com isso, sim, torna-se superior até mesmo em relação ao ser amado. Pois o amor promove, ao que parece, uma relativamente sutil sensação de superioridade, de ultrapassar os meios do outro. Como se o outro (o ser amado) não pudesse realmente fazer alguma coisa (como superar a si mesmo ou às suas paixões), e o ser que ama, sabendo disso, e aceitando-o, o superaria, ultrapassando-o, pelo simples sentimento e razoabilidade de amar.

Foi, em última instância, o que recentemente eu pude sentir (e que no fundo não vem ao caso, que é problema pessoal). Bom, em seguida o comentarista continua: “A humildade não se limita à condição de preceito moral ou religioso; é um recurso utilitário para o bem viver, um elemento de sabedoria para os que começam a sair das trevas da pequenez de espírito onde se alojam picuinhas diversas, disputas e comparações inúteis, ambições ególatras que não levam a nada e toda uma sorte de lixo promovido por orgulho desmedido, vaidades e outros fatores que fomentam (por que não dizer fermentam?) a imaturidade humana”. Aqui o comentarista tenta desvincular a humildade da questão religiosa, que é o que o próprio Nietzsche faz.

Ocorre que, voltando a Nietzsche, é justamente a isso que ele se refere, ou seja, ao fato de que, ao o forte “comparar”, “ambicionar”, “ter vaidade” e tudo o mais, ele não estaria sendo pior ou mesmo imaturo, mas que ele com isso ambicionaria algo mais, qual seja, a superação. Nesse sentido, embora o comentarista esteja aqui tentando se afastar da religião, ele no fundo estaria aproximando-se dela, ao menos sob o ponto de vista nietzschiano.

Voltando ao tema do amor, eu não vejo qualquer problema em uma ou outra posição. Não vejo problema se ao comentar a humildade, religiosamente ou não, eu esteja, ao dissertar sobre o amor, aproximando-me ou não a qualquer religião. Eu já disse, humilde parece-me ser realmente, ao menos com respeito ao amor, quem se abaixa ou rebaixa, e por outro lado não vejo nisso um ato de não-orgulho, mas justamente o contrário.

Claro, se aquele que se abaixa perde o orgulho aí estaria em grande parte o problema do falso amor, contrário ao amor de si ou ao amor próprio. Quem se abaixa ao amor, ou quem se submete a ele, não me parece necessariamente perder em amor próprio. Por último, nas observações do comentarista, ele afirma “A humildade é uma forma de limpeza, ou, em outras palavras, um jeito de caminhar por cima dos lixos da ignorância e nem por isso sentir-se melhor (do) que alguém, porque ninguém deve precisar se sentir melhor (do) que alguém. Penso que estar no nível de sentir tal necessidade é que é estar por baixo”. Aqui há um ponto interessante.

O ser que ama realmente não parece, em seu gesto de humildade, querer sentir-se ou sentir-se propriamente melhor do que ninguém (até porque concordo que ninguém deve precisar disso). Mas há a meu ver aqui um problema. O ser que ama é, pelo que noto, tão orgulhoso que realmente se sente melhor do que os outros.

Pois o ser que ama ACREDITA que seu amor pode tudo, e que contra ele não adianta nada, da parte dos outros. Haverá com isso uma certa irracionalidade ou mesmo arrogância no ser que ama? Pode ser. Pode ser que esta até ultrapasse o próprio conceito nietzschiano de não-humildade, por que não? Claro, em última instância não seria legal admitir isso, ou seja, que o ser que ama é orgulhoso a tal ponto. Mas é o que me parece acontecer.

E o engraçado é que essa pretensa arrogância parece ser JUSTAMENTE o que Nietzsche quer indicar e combater. Com tudo isto, tento rebater, de alguma forma, todas as observações relativas a meu texto inicial sobre o amor. Logo pretendo comentar o amor romântico, ou dissertar ainda mais sobre o que eu vejo do amor, no sentido mais amplo do termo.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/recortes// //Contreraman
Site Meter