o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Enganos e desconcertos

“Havia terminado meus estudos e, para enganar meus pais, mas sobretudo para enganar a mim mesmo, fingi trabalhar numa tese. Devo confessar que o jargão filosófico agradava minha vaidade e me fazia desprezar quem quer que se comunicasse de outra forma. A tudo isto uma reviravolta interior veio colocar fim, arruinando imediatamente todos os meus projetos”. (Cioran, apresentação de Nos Cumes do Desespero)


wtc7_incendi3.jpgVenho me debruçando sem parar, mas meio sem querer, à ideia de que a gente se engana. Vejam aqui o trecho de Cioran, comentando seu primeiro livro. Ele queria enganar os pais e a si mesmo. Gostava de filosofia para fingir superioridade. E depois foi enganado por si mesmo, por uma reviravolta interior.

Contrariamente ao gosto de meus amigos, eu acho que também engano e me engano o tempo todo. Gostaria que isso não acontecesse, mas é assim que as coisas são. Isso é falta de vivência, claro. Mas é também algo que escapa, uma espécie de escorregadela da vida que acabo cometendo sem parar. Até me fOder – e diversas vezes.

Enganei-me na faculdade diversas vezes. Enganei-me depois, ao arranjar emprego e tentar provar uma qualidade que eu não tinha. Enganei-me com a família, ao atrair desconfiança e – pior – ao dar provas dela. Enganei-me nos parcos relacionamentos que mantive. Enganei-me ao optar por empregos que se provaram duvidosos. Enganei-me especialmente no trato com as pessoas – profissionais ou não.

Ocorre que há muitos anos eu, lá no fundo de minhas convicções, já havia desistido. Havia optado pelo lado escuro do blues. Duvidava de qualquer solução. Duvidava da felicidade – embora a buscasse. Não acreditava na música “para cima” ou no saber musical. Simplesmente queria curtir a fossa. Mas eu não conseguia nem isso. Ia aos shows e ninguém comparecia. Os shows eram cancelados e eu ficava chateado. Passei a tomar muitos cafés, pois tinha medo da bebida.

Frequentei ambientes mal-afamados, mas nunca me senti à vontade neles. Aprendi? Não sei. Ainda hoje não sei. Quando optei por uma vida normal, corriqueira, eu o fiz meio a contragosto. Não acreditava. Me enganava.

Caras, envelheci. Não sou mais um garoto. Não mesmo. Mas se por um lado algo ainda me leva a acreditar – ou a me enganar –, por outro nada substitui a sensação dispersiva de perder a vontade de querer. Por incrível que possa parecer, contudo, é também isso mesmo que me leva a alcançar coisas importantes, ao menos no âmbito eminentemente pessoal. Sensações, vivências, convivências. É como se, ao não querer, ou ao não acreditar piamente, a gente se aproximasse de algo – que não é necessariamente nosso fim.

O problema é que minha formação, minhas leituras, minhas preferências estilísticas, muitas vezes ainda insistem em me enganar. Pois não me sinto tão bem diante de narrativas para baixo, pessimistas no sentido mais lato do termo. Pelo menos não tão bem como antes. Pois ainda finjo acreditar no potencial esclarecedor de certas narrativas. Ainda acredito que, por detrás da arrogância de gente que disse viver para fazer algo que prestasse, existia realmente algo de valor. Uma bosta, mas é assim. Embora duvide de tudo, ainda perco meu tempo lendo e supondo existir algo atrás do que sequer vejo.

Cioran continua, dizendo “O fenômeno capital, o desastre por excelência é a véspera ininterrupta, este nada sem fim.” Vêem só? Ele lamenta essa espera. Pois afinal a véspera o que é? Uma antecipação do nada. Se a gente pudesse realmente desistir, mas realmente, talvez o sofrimento fosse menor, ou um pouco menor. Mas não, a gente permanece nessa agonia. E eu ainda achando que há uma luz atrás desse mal-estar. Vejo esse mal-estar em alguns colegas de bar, quando permaneço tentando não fugir de minha cabeça. E esse mal-estar tão concreto me incomoda.

Dá vontade de sumir e ficar vagando por aí. Mas eu não consigo deixar de entrar em conexão com o nada – no caso, a web – e de ainda tentar algo, que eu não sei o que é. Lembro-me de quando eu observava a tela do meu 286 e via os pontinhos aproximando-se da tela, como se estivesse num filme tipo Guerra nas Estrelas. Olhava um nada que vinha para mim. Ficava apostando que o pontinho iria bater na tela. Que idiota.

Voltando aos enganos. Trabalhei durante 11 anos em duas revistas técnicas. Nesse ambiente, conheci bastante gente. Mas estou convicto hoje de que me enganei profundamente a respeito de tudo o que vi e que vivi. Não me refiro a que as pessoas não eram o que eu esperava. Refiro-me a algo mais.

Por exemplo. Tive um grande amigo uruguaio que era engenheiro e responsável pela fabricação de tanques de fibra de vidro numa empresa no interior do estado. Ele faleceu repentinamente. Antes, ele me chamou para falar e eu não fui. Eu achava que não iria aguentar. Pensando nele hoje, não sei bem em que consistia nossa amizade. Ele era meio descrente de tudo, mas também acreditava. Terá ele se enganado comigo? Será que eu esperava que a amizade salvasse alguma coisa nessa história triste? Ainda não sei.

Outro colega empresário que conheci – e que também faleceu – vivia em Minas. Fumante compulsivo, faleceu de câncer, também repentinamente. Ele era um cara orgulhoso, e ao fazer um texto em homenagem a ele na revista percebi que muito de sua história era bastante interessante. Mas em que sentido? Ele era um cara batalhador, humilde e competente. Muito bem. Mas será que eu me enganara ao acreditar em que seus valores eram realmente os meus? Ou será que no fundo pensávamos bastante parecido? Nunca vou saber. Ele deixou uma história bonita, mas em que consistia realmente sua história? Pois é.

Outro colega, também empresário, faleceu mais recentemente – e também de repente. Sujeito ensimesmado e irônico, esse cara era tratado pelos meus chefes com desconfiança. Diziam que era falso. Mas eu nunca senti isso. Ele gostava de conversar e ao mesmo tempo aproveitava o ensejo para se informar – e lutar pelos seus interesses. Ele nunca negou isso. Um dia visitei sua empresa e conheci seus filhos. Outro dia me convidou para pescar no barco dele, que não devia ser assim tão barco, entendem? Bom, ele faleceu e chegou ao ponto de doar o seu corpo para estudos na faculdade de medicina. Fiz um texto em sua homenagem, mas os filhos não quiseram publicá-lo. Talvez nem ele mesmo quisesse. Eu conhecera esse cara, realmente? Ou me enganara? Alguém se importa?

De novo, meu caríssimo Cioran: “Por que não podemos morar isolados em nós mesmos? Por que perseguimos a expressão e a forma, procurando esvaziar-nos de todo o conteúdo, por meio de um processo caótico e rebelde? Não seria mais fecundo abandonar-nos a essa fluidez interior, sem preocupação objetiva, limitando-nos a gozar de todas as nossas efervescências e agitações íntimas?”. Pois é.

Não é que tentamos – ou pelo menos EU tento – a toda hora sair de mim? Expressar-me? Atribuir valor a algo que pode não fazer – ou não faz realmente – a menor diferença? Por que tudo isso? Não é acaso esse mais um engano que cometemos conosco?


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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