o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Ir até o fim

Estes dias fui ao Teatro Cemitério e ouvi várias das músicas do Renato Fernandes, recém-falecido. O Renato era considerado por muitos o maior bluesman do Brasil. Não conhecia o trabalho dele e aproveitei na hora para assistir trechos de um documentário sobre ele. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ROIsUH-esVE


10868158_10206217466894447_6240662084145389183_n.jpg Também fui para decidir algumas coisas. Não consegui decidir todas. Saí meio cedo do bar e fui para casa. Cheguei molhado de chuva.

Conversei com o Nosferatu. Falei merda – como sempre –, mas ele, educado e sagaz – também como sempre –, deu apenas uma ironizada - de leve.

Fiquei sozinho a maior parte do tempo, ouvindo as músicas – trabalhando, Marião! – e refletindo na vida – atual, passada e possivelmente futura.

O Brum dá depoimentos no documentário. O Brum impõe respeito, sempre. Ele foi a Campo Grande, a terra do Renato, e deve ter voltado a São Paulo.

O Marião também fala sobre o Renato. As falas do Marião vão à medula do tema – blues.

Uma vez conheci uma garota. Disse (eu, idiota) que era íntegro. Ela provou que não. Disse que integridade é algo assim raro demais para alguém simplesmente ter.

Houve uma época em que gostei de blues. Aí me afastei. Fiz minhas cagadas e voltei.

É fácil fingir que se é “do blues”. Aos imbecis, basta aparência. Os ingênuos também entram nessa. Até que se fOdem.

Como todo mundo, o bluesman é desconfiado. Mas ele é mais.

Vive-se só uma vez. Morre-se também só uma vez. O exemplo é o que conta.

Venho buscando trilhar um caminho que me convença. Reparei que algo houve ontem à noite no bar que eu sempre gostei de ver. E que um dia joguei para trás.

Mas a ausência de algo sempre me incomodou.

Fui comprar umas linguiças para meu almoço agora há pouco. A atendente de olhar triste me mostrou que estavam meio passadas. Achei íntegro da parte dela. Ela não sorri. Ela parece blues.

Se a chefe dela soubesse o que fez, talvez não gostasse e ela iria levar uma paulada.

Os olhares tristes me comovem, sempre. Mas quero viver dias alegres. Os últimos dois dias vi muita coisa linda. Sobre a qual me comovo e tenho dificuldade de escrever. Algo que é blues.

Muito que vivemos tem que ficar conosco. Ainda bem. Mas eu queria tanto agradar quem eu amo. O bluesman sabe que a trilha é solitária. Mais ou menos. O bluesman tem seus amigos. Tem a bebida. Tem os bares. Tem a vida. Só ela.

O Renato parecia ter um jeito esperto e ao mesmo tempo doce de falar. Ele disse que o sofá em que compôs uma música era todo fodido. Mais que esse em que ele falava? Engraçado.

Não existe – creio – esse negócio de blues em teoria. Para o bluesman, tudo é prática. A pessoa em teoria pode ser legal. Mas se na prática não é, então não é.

Bluesman não quer agradar. Ele agrada ou não. Ele simplesmente é.

No documentário, a ex-mulher do Renato comenta um momento em que Renato, mulherengo, encara um motociclista dizendo que ela é sua namorada.

Ela conta o caso com um sorriso singelo e eu me emociono. O cara era um emotivo. Eu também.

Ontem levei uma cacetada, aparentemente inadvertida, de uma garota que amo e fiquei sentado num ponto de ônibus. Umas pombas ficaram me olhando.

Não quero bancar nada que eu realmente não seja. Mas deu-me vontade na hora de jogar uns versos – o que não fiz. Acho que blues é desalento. Perceber que não dá mais. E que mesmo assim continuamos.

Não me lembro de outro momento na vida em que senti isso. Nem mesmo quando me convenci de coisas por intermédio do Beckett ou do Bacon. E olha que não tá sendo nada fácil.

Sei lá, parece que algo acontece quando a gente percebe que não adianta mais lutar contra a corrente. Quando a gente sente que não adianta mais responder. Quando a saída é meio que desistir – sem desistir.

Coisa engraçada, ontem mesmo fiz uns versos sacanas. Mostrei a três pessoas – duas mulheres e um homem. Não vejo coisas assim por aí, mas eles não ficaram nem um pouco surpresos. Mas o Luís Capucho gostou. Disse que eram lindos, os versos.

Essa minha opção pelo “sacana” rompeu uma barreira em mim que eu não sabia existir. Ou de cuja relevância, se eu sabia, não tinha experimentado na prática. É interessante perceber-se limitado por si mesmo. É libertador.

Mas noto sempre haver uma desconfiança atroz. Não é possível que eu, do jeito que sou, com os valores que pareço esposar, seja realmente um cara adepto a um estilo de vida tão pesado, tão forte, tão agressivo e ao mesmo tempo tão doce. Será?

Este meu artigo não é, contudo, sobre mim. Nem sobre minhas escolhas. É sobre uma via que num certo dia aprendi a distinguir e que não delimitei no conhecimento como algo ultrapassado.

Pois nós só temos, para nós, nossas próprias vidas. Com nossas escolhas e nossos medos. Nossas carências e nossas dores. Nossas alegrias passageiras e nossas crenças tão fáceis de abalar.

E o bluesman parece ser aquele cara que vai na frente. Que joga a cara a tapa. Que não tem medo de cara feia – nem de TER cara feia. Que abre os olhos a todo instante e que se decepciona continuamente. Para seguir andando.

O Marião terminou um texto hoje no face dizendo “Repito: só me interessam as pessoas que vão até o fim”.

(incompleto, para sempre) (e corrigido - obrigado!)


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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