o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Reminiscências de Santiago de Chile

Nasci no Chile, em Santiago, no centro da cidade, mas morei quase toda minha infância no bairro de Las Condes, ou seja, na parte alta da cidade. Normalmente as partes altas das metrópoles correspondem aos bairros de classe alta, e é bem este o caso.


campamento-chile1.jpgNa época, o bairro estava sendo recém-ocupado, as ruas eram quase desertas, e as praças tinham árvores ainda pequenas. O bairro era majoritariamente ocupado por militares, e além de meus pais e meus irmãos alguns de meus tios e primos também moravam por lá.

Hoje, o bairro é conhecido pela beleza e sofisticação. As casas não são mais como eram – casas comuns e padronizadas, a maioria. Hoje as casas são amplas, os carros luxuosos ou quase, o verde domina toda a paisagem, seja para que lado você olhe. No caso, lembro-me da Avenida Cristóbal Colón, que segue em direção à Cordilheira, e que hoje é de beleza simples mas por isso mesmo deslumbrante. Uma via ao sopé da liberdade.

Mas na época não era assim. Só havia um supermercado na região, lá nos idos dos 60, e para fazer qualquer coisa diferenciada – como visitar o comércio ou ver filmes – era preciso pegar o carro e avançar para o centro da cidade. Lembro-me do meu pai pegando a Citroneta (um 2 CV) e descendo a avenida em direção ao centro. Eu fiquei na cidade até os 9 anos.

Quando teve o golpe contra o Allende, em 1973, nossa família viu tudo de camarote. Para quem quer saber a verdade, basta assistir “A Batalha do Chile”, de Guzmán. Nesse filme podem ser vistos os caças Hawker Hunter jogando as bombas no Palácio de La Moneda, onde ficava Allende. Já eu me lembro de ter visto pequenos A-37 jogando bombas perto da Praça Tomás Moro, onde ficava a casa do presidente eleito.

De Las Condes ao centro da cidade não é assim tão longe. Mas a paisagem mostra-se bem diferente. A Avenida Bernardo O’Higgins, o libertador do país, que é a principal artéria da cidade, é um bom exemplo de como uma cidade pode ser variada. Quando sai dos bairros a avenida é bastante arborizada. Já quando passa a chegar mais perto do centro, a avenida mostra prédios cinza dominando a vista, e após um interregno que ainda me confunde – parece que a avenida fica solta, sem imagem –, eis que a avenida chega à Rodoviária.

Da última vez que fui a Santiago, lembro-me da descoberta que foi chegar, pela Bernardo O’Higgins, à Rodoviária da cidade. E por que isso? Bom, lhes digo que, tendo nascido no centro e morado em Las Condes, eu sempre fui acostumado a ver pessoas brancas ao meu redor (eu mesmo sou descendente de espanhóis e escoceses). Ocorre que esse não é o biotipo chileno, que se compõe de boa parte de descendentes de indígenas e outras classes desfavorecidas.

Foi quando desci a O’Higgins chegando à Rodoviária que percebi a enganação. Inadvertida, quem sabe, mas enganação. Fiquei uma noite num hotel no quarteirão próximo à Rodoviária. Pode confirmar minhas impressões. O Chile parece tão miscigenado quanto os outros países do continente. Mas por alguma razão ele escapa da pecha. Finge ser uma espécie de trama da Europa do lado esquerdo da América do Sul. O que é bobagem.

Recentemente elevada à condição de melhor destino turístico do continente, Santiago repete assim a clivagem social que há séculos divide esse país entre a sociedade “normal” e os povos nativos. Note-se: os “mapuches” ou “araucanos” são, etimológica e historicamente, os “povos da terra”, “do lugar”, enquanto os outros são os invasores, aqueles que chegaram tomando conta. Quando passei em Santiago a última vez, sediado no tradicional Hotel City, bem no coração da metrópole, acompanhei parte de manifestação de estudantes apoiando a luta dos mapuches. Os batalhões de choque preparavam-se como para uma guerra e o pau, claro, comeu solto. A história continua.

A tal ponto ocorre essa clivagem nessa sociedade europeizada – e que tão bem aufere créditos a partir disso – que existem palavras autorizadas e não-autorizadas no vocabulário culto. Eu fora criado por uma babá de origem indígena (Justina Paidil). Eu fora acostumado a palavras que fizeram meu imaginário. Eu procurara essas palavras em dicionários. E não as encontrara. Era como se minha infância tivesse sido desautorizada. Procure “mamarracho” (mal vestido). Procure “hallulla” (pão tradicional de inspiração indígena). Comprara hallullas e não podia encontrá-las onde mais esperava.

Foi nessa última visita que fui a pé, acompanhado de meu primo Pancho, às instalações da rede de tv do Piñera, na época ainda pré-candidato à Presidência da República (algo que ele já foi e deixou de ser – o mandato está de novo com a Bachelet). Prédio anódino como qualquer iniciativa sem cara mas com interesses definidos, estúdios de grande porte e facilmente montáveis e desmontáveis a depender do pacote a ser negociado, equipamentos de geração recente orientados à satisfação do imaginário popular. Pancho parecia um garoto enquanto me conduzia ao coração da babaquice média chilena. Não reclamei.

O prédio de Piñera ficava às margens do Rio Mapocho, triste, dentre outras coisas, por ter abrigado a romaria de cadáveres, deitados e inchados, que compôs o panorama do imediato pós-golpe. Cadáveres de partidários da UP (Unidad Popular) numa sociedade clivada como a brasileira está, em muito menor grau, se tornando. Com olhares miúdos e agudos de gente com carteiras mais municiadas em contraposição a cidadãos eternamente conduzidos à margem do que eles mesmo nem queriam ser. Victor Jara e Violeta Parra hoje fazem o imaginário do eterno esquerdista. Mas quem não estava lá não conseguiria sentir o cheiro do sangue.

Nesse sentido, o bairro de Ñuñoa expressa uma energia bem interessante. É onde ficam até hoje meus parentes (tios, sobrinhos e tal) de origem paterna. Parentes que saíram do norte do país, onde compuseram a tradição “pituca” (fresca) de descendentes de imigrantes de origem europeia que preferem falar em língua estrangeira a se rebaixarem a ser do local. Minhas tias estavam bem. Com a estranheza daqueles que sentem algo ter a ouvir ou a dizer.

Muito embora Pinochet, cuja casa ficava por ali, não fizesse parte dessa tradição ou vontade. Há quem prefira ficar descansando em edições únicas roubadas do patrimônio local a responder, enquanto representatividade, às demandas de quem o coloca lá – ou que permite suas tomadas de força. Pois o escudo do país diz: “Por la razón o la fuerza” (Pela razão ou pela força).

Pois era realmente estranho – embora gostoso para um garoto de 7 ou 8 anos – ter de cantar o hino nacional com a mão em riste toda segunda-feira na escola estadual a que tinha sido relegado por falta de grana. Ou fazer trabalhos e desenhos sobre batalhas em que o espanhol era escorraçado e o indígena, literalmente massacrado.

Como poderia imaginar esse garoto – que era eu, é claro – o custo de se manter o país unido, também à base de massacres mais conhecidos fora do que no interior dessa mesma trupe de parentes? Unido em termos, é claro. Como compreender que para chegar mais próximo à verdade teria sido necessário imigrar e trabalhar numa revista cujos integrantes mostraram àquele ex-garoto as composições de “Santa Maria de Iquique”? Em que consiste esse episódio? Na matança, por militares, da totalidade dos operários mineiros que certa vez se levantaram pedindo melhores salários e condições de vida. Onde? Em Iquique. Juntaram eles numa escola e metralharam todos. Ninguém se salvou. Meu pai nasceu lá. Passou a infância indo do deserto à cidade para acabar desembarcando em Santiago e montando a família de que passei a fazer parte.

A clivagem da sociedade chilena fica clara para todo aquele que desce o país. Basta ir além do rio Bío-bío, a fronteira imaginária entre o mundo de origem hispânica e o mundo dos da terra. Essas fronteiras, claro, nada têm de imaginárias, no fundo. São concretas. Tão concretas quanto a incomunicação existente entre os pedintes de um Equador de Guayasamín aos estrangeiros ou aos pertencentes ao mundo real. Quem procura percebe o caráter de desespero além-morte das personagens das telas de Guayasamín. Tenho uma reprodução, em meu quarto, de “Lágrimas de Sangue”, que o pintor fez em 1973, após saber do golpe do Chile.

Mas voltando à clivagem. Poucos podem saber, mas de fato a primeira imagem que eu tive dos indígenas era de empalamento, fazer o prisioneiro se sentar num tronco afiado até aquilo chegar à sua cabeça. É essa, por exemplo, a imagem do índio Caupolicán. E é essa a realidade dos mapuches que ainda lutam por suas terras no sul do território, onde grandes grupos fazem suas sedes de madeireiras com interesses globais. A toda hora surgem notícias a respeito, notícias essas sempre repletas de ações de força.

Vocês podem também perceber a simbologia dessa clivagem em minha vida no fato de eu ter sido a última pessoa a ver minha antiga babá com vida, já doente, presa a sua cama, numa “callampa” (favela) em Santiago. Justi, como a chamávamos, foi realmente quem me cuidou quando criança, e quem de fato passou os valores que aprendi a cultivar – e pelos quais ainda venho lutando. Não se iludam. O fato de ela ser de origem indígena não é secundário. Quem sabe por isso, aliás, eu sempre me sinta afastado do mundo tradicional, esse mundo europeizante e arcaizante. Os indígenas, sabem, nada têm de arcaico. Sua conexão é com a natureza.

Mas voltemos a Santiago. Não se comenta muito isso, mas a cidade é ótima – também – em vida cultural, por exemplo, na base de teatros de arquitetura interessante bastante bem localizados e com espetáculos de relevância local e até mesmo latino-americana. Lembro-me por exemplo de espetáculos em locais próximos aos grandes centros da cidade que lembram, em muito, os do Sesc, seja no repertório ou na expertise cênica. Claro que, como todo Sesc, sempre tendo como foco uma classe média relativamente culta.

Os grandes atrativos turísticos envolvem também o clássico Palácio de La Moneda, onde Pinochet construiu um bunker – todo ditador adora se esconder –, parte do qual virou um espaço para mostras culturais. Quando eu fui pela última vez à cidade, pude ver que apenas parte do bunker havia sido tornado pública. Outra parte permanecia escondida, sei lá para quê. Fora nessa ocasião que eu comprei discos do Victor Jara e da Violeta Parra, tão fundamentais para o discurso de resistência no continente quanto um descrente Atahualpa Yupanqui ou um já mais europeizante Alfredo Zitarrosa.

Curioso também é que desde criança eu fui “ensinado” a achar que Santiago não tinha bairros pobres. Pode parecer engraçado ler isso, mas é verdade. Eu sabia da existência das chamadas “callampas”, mas de alguma forma era convencido de que elas não eram sobremaneira importante. Isso se mostrou completa ilusão ao ver filmes e ao estudar, brevemente, a história do golpe. Bairros pobres ou favelas existiam, sim, mas me eram excluídas do imaginário como uma forma higienizante de lidar com a vida e a história.

Claro, a maioria das “callampas” não tem o aspecto das favelas brasileiras, sendo mais pequenas casas simples mal decoradas em vizinhança com bastantes problemas de estrutura. Mas elas existiam. Curioso também é como a classe da qual eu fazia parte – média alta – tratava os pobres: como “rascas” ou “rotos”, formas pejorativas de falar de gente sem grana.

Roto era o Caszely, jogador de futebol que cuspia bastante e que, vim saber depois, usava de sua imagem para se opor ao regime predominante, no caso, a ditadura. Oposição que eu, por outro lado, nem via nem queria. Eu gostava mesmo era dos F-5 metendo medo na população quebrando a barreira do som bem perto da Cordilheira. Vai entender.


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