o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Todo um mundo distante

Escrevo às quatro e trinta e cinco da manhã, do bar de um teatro underground que fecha só para os que estão para fora, saca? Isso que faço, eu sei, é estranho, mas me deu vontade. Vontade de comentar uma coisa que me ocorreu ao fazer o meu último artigo, sobre o bluesman Atahualpa Yupanqui. Essa coisa remete às minhas viagens pela América Latina hispânica, nos idos dos 2000. Fiz essas viagens sozinho e acompanhado de minha então esposa.


imagen 168.jpgO ambiente em que estou é, para muitos, algo senão proibitivo, quase inimaginável. Uma espécie de “antro” no qual as pessoas se encontram, normalmente amigos ou conhecidos, bebem até cair (alguns) e dançam a noite toda, até o dia realmente raiar ou até mais do que isso. Esses ambientes são para alguns desaconselháveis, como se aqui fôssemos encontrar pessoas de má influência ou coisa e tal.

Sei que não é assim. Mas isso me lembra minha vontade – à época – de misturar música andina – na época influenciada em mim por um Inti Illimani, grupo chileno de elevada virtuosidade técnica – com instrumentos elétricos. Não sei por que vinha isso em mim. Sei apenas que quando visitei Otavalo, cidade do interior do Equador, mais conhecida por sediar a maior feira indígena do continente, eu queria aproveitar os baixos preços para comprar um charango e eletriza-lo. Comprei o charango e até convenci o dono da venda a visitar o Brasil. Mas a eletrificação não veio, embora tenha vindo alguns anos depois a compra de um baixo Fender mexicano, no qual coloquei umas cordas lisas à la Steve Harris (Iron Maiden).

Quero comentar que, ao visitar a feira da cidade, e dizer aos caras por lá de minha intenção, eles torceram o nariz. Fiquei sabendo que lá, nesses ambientes, a mera menção ao rock desenhava em suas mentes algo relativo a maldade ou a más influências. Disseram-me que o rock era coisa do diabo – eu jamais imaginaria ouvir isso, ao menos naqueles anos – e que a música andina ficaria deturpada se fosse misturada a esse tipo de influência. Achei bobo, mas não questionei. Ainda tenho certa vontade de avançar nesses caminhos.

Mas é interessante como em determinados ambientes a música divide caminhos e mundos. Realmente, o pessoal daquela região da América Latina está, desde a Conquista, entranhadamente acostumada com violências, deturpações e estratégias deslavadas de retirar do povo suas manifestações culturais naturais. Isso deve fazer com que esses povos encarem as influências estrangeiras predominantes como algo evidentemente ruim. Não deixo de lhes dar razão, afinal, realmente, para quem sofre na pele a destruição de seu mundo cultural brincar de assimilar as formas de dominação em seus mundos deve parecer quase uma capitulação.

Vejamos por exemplo, no caso do Brasil, determinados ambientes – como o do samba – realmente escapam ilesos desses tipos de influências. Por que não deveria se dar o mesmo no mundo destes latinoamericanos bem mais pobres e desguarnecidos de proteção? Pois é.

Por outro lado, nós, que vivemos em cidades grandes, praticamente não percebemos a radicalidade desse tipo de realidade. Abrimos as portas às influências e praticamente não sacamos o quanto elas – as influências estrangeiras – fazem com que fiquemos praticamente à mercê do que vem de fora.

Claro que muito o que vem é bom, mas também muito é ruim. Pois noto, não de agora, como, de alguma forma, tendemos com o tempo a considerar que o que nós mesmos produzimos parece pior do que o que consumimos – e como nossas referências nos impedem, de forma sub-reptícia, de desenvolvermos visões próprias de mundo – pois não sentimos, muitas vezes, que elas são realmente merecedoras de alguma coisa.

Claro que não dá para generalizar. Existem aqueles para quem tanto faz de onde venha a influência, pois conseguem transformar em algo bom para si próprios. Mas são poucos, esses. E nós, que vivemos neste mundo subdesenvolvido submetido à regra do jogo do dinheiro e da ideologia deslavada escondida atrás de clichês ou de mensagens de aparentes novidades, sem educação a nos dar a devida guarida cultural, tendemos facilmente a ceder a modismos ou a gostos impingidos que nos escondem riquezas imperscrutáveis que muitas vezes cruzam as ruas conosco.

No caso do teatro em que estou, não vicejam apenas influências estrangeiras, não. Mas, linha geral, não posso negar que a língua aqui, ao menos cantada, parece ser mesmo o inglês. É constrangedor ver como muitos aqui tentam cantar as letras das músicas, que adoram, e só não o conseguem simplesmente porque nem sabem o que cantam – muito menos como pronunciar as letras. Sei porém que muito provavelmente em bairros distantes o português continua como língua dominante – cantada.

Regra geral, essa que vejo? Não sei. Sei apenas que começo a refletir mais fortemente sobre o assunto. Quem sabe para que vire uma peça, um conto, um desabafo, sei lá. Boa noite.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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