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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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Transgressionismos e norma culta

Há algumas semanas, comentei num texto que também utilizou o neologismo “transgressionismo” algumas ações transgressoras de alguns então desconhecidos que iriam se tornar grandes luminares da literatura no século XX – principalmente. Comentei Gertrude Stein, Samuel Beckett e outros. Minha intenção manifesta era entender para que servem essas transgressões hoje, se é que servem para alguma coisa.


willer3.jpgAgora comento outra coisa. Tenho discutido bastante a relação da norma culta com o uso efetivo da língua portuguesa – e outras línguas, como o Espanhol (nasci no Chile). A descoberta principal tem sido os meus erros – se não tantos, nem tão poucos – com respeito ao uso da norma culta em textos, algo que me surpreende, sim, mas que por outro lado tem me motivado a corrigir-me com maior assiduidade. É algo doloroso sentir que erramos tanto.

Ocorre que trabalho com arte, digo, teatro (só isso, por enquanto), e lido portanto com materiais, textos, que muitas vezes corrompem as normas, quando não tentam reinventá-las ou têm seu peso em subtextos que algumas vezes precisam do apoio de textos transgressivos. Assim sendo, em nome da arte, preciso me contentar em aceitar o que me é apresentado, e deixar passar alguns erros – não os crassos, mas alguns que possuem um valor expressivo que sumiria se a regra fosse seguida ipsis litteris.

Pergunto-me contudo até que ponto isso deve ir. Até que ponto devemos assumir que a transgressão em relação à norma culta pode ser aceitável em nome da arte. Claro, devem existir muitos textos acadêmicos a respeito, e muitos tradutores e editores e revisores devem já ter pensado bastante, além do que agido a partir de textos concretos.

Mas mesmo assim me pergunto, e principalmente porque venho tendo acesso a textos inéditos de novos escritores que me colocam tais desafios.

Antes de mais nada, pegando um novo texto – refiro-me a textos, por enquanto –, deve haver mesmo um limite? Ou seja, uma transgressão deve necessariamente obedecer um limite quando se refere a uma peça artística? Ou a própria ideia de enquadrar o que se propõe inenquadrável é um paradoxo?

Note-se, primeiro, que os critérios para algumas transgressões que eu já citei não são do âmbito dos critérios que embasam a norma. Por exemplo, a recusa dos pontos de exclamação e interrogação por alguns escritores. Qual o critério para essa recusa? Aparentemente, esse critério é estético: os pontos de exclamação e interrogação não seriam belos. Depois, eles não seriam úteis. Depois, eles não explicam nada. Há algo estranho nesses critérios, e nada que se coadune com os critérios para seu uso pela norma culta – um dogma.

A própria ideia, em Beckett, de separar, num título, nomes próprios de literatos por um, dois e três pontos, não em sequência, muito ao contrário, é mais gráfica e conteudística que gramatical. Na verdade, ela nada tem de gramatical. A ideia, nesse caso, é quase a separação por tempo, espaço e conteúdo, ao mesmo tempo. Como se quiséssemos qualificar os autores em sua própria relação. Mas essa transgressão desconsidera a norma culta? Discordo.

A mesma coisa quanto àqueles autores que querem seus nomes escritos somente em minúsculas. Esses autores desrespeitam a norma culta? Não necessariamente. Eles simplesmente assumem para si a propriedade do significado e significante de seus próprios nomes, e insistem em serem chamados de forma tal. Como o antigo Prince queria ser chamado por um signo – muito feio, por sinal (sinal...).

Mas olhemos mais ao rés do chão. Se uma escritora, sem muita fama (notem que quando eu citei os transgressores mores eu me referi a escritores em começo de carreira), começa uma frase com “Se” está necessariamente errado? Gramaticalmente, sim. Mas o texto tem qual função? Digamos que seja um texto em prosa para ser dito, ou seja, para ser apresentado em leitura ou encenado. Haveria algo errado? O caso é concreto.

No limite, digo no limite, todos dirão que depende do caso. Tudo bem, nesse caso pode ser que o “se” no começo da frase não se justifique em conteúdo, ou seja, que ele possa ser simplesmente substituindo pelo verbo com “-se”. Ocorre que no caso de um texto lido ou encenado a questão da contraposição entre o uso oral e a norma culta se coloca de forma dramática. Sabem quando aquele texto não pega bem? Como em músicas, por exemplo?

Mas não quero necessariamente ganhar a discussão. Simplesmente gostaria de salientar que, em todos os casos citados, inclusive neste em questão, os critérios para se recusar, em casos pontuais, a norma culta estão fora dos critérios que a norma culta usa para seu vigor. E se não estiverem? Ou seja, se esses critérios não justificarem o desrespeito à norma – ou seja, se a mensagem pudesse, em 100% do conteúdo e do estilo, ser dita da mesma forma seguindo a norma culta? O escritor e/ou o encenador têm o direito de romper a norma?

É curioso dizer isso, hoje. Pois há casos incontáveis em que esse desrespeito virou estilo. Mas há também casos incontáveis em que isso não precisou acontecer. Tirando o fato de que muitos casos de desrespeito visam atingir determinados públicos – ou seja, têm como base a demanda por um determinado mercado –, pergunto se o sujeito pode escolher, mesmo. Se ele pode sair fora da norma simplesmente por sair. Dado que os transgressionismos acima não têm nada com isso. É uma questão. Não sei a resposta.


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