o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Transgressionismos

O modernismo em literatura trouxe-nos, dentre muitas coisas, uma certa queda à transgressão que um dia pareceu não obedecer qualquer limite.
Lembro-me da leitura de Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade, e da ousadia de terminar uma frase em preposição. Algo que hoje pode não causar espanto, mas a muitos ainda causa certa estranheza. Como se fosse frescura.


timthumb.jpgPresto atenção em um e.e.cummings, e sua insistência em grafar assim, com minúsculas e desse jeito, seu próprio nome. Pouco conheço do autor, confesso, mas isso já adianta modismo ou posição que outros iriam seguir.

Reparo também na antipatia de uma Gertrude Stein face as maiúsculas em geral e os sinais de interrogação e exclamação em particular. Algo que bem longe está de caracterizar seu pioneirismo ou excentricidade, que ainda hoje provocam sinais como esses, sem poderem contudo sequer ser expressos... (nem os três pontos...)

O último dos modernistas, seguindo o biógrafo Cronin, também era pródigo em invenções transgressionais, uma delas o uso de um, dois e três pontos, sequer em sequência, no próprio título de um ensaio em começo de carreira. Falo de Beckett, claro, que não iria parar por aí, se é que algum dia parou com alguma coisa. Ler Como é, por exemplo, é para muitos equivalente a adentrar a mente da loucura corporificada em um singelo nome.

A transgressão nos sinais linguísticos iria, claro, invadir os escritos e as obras de gente que nem queria tanto assim expressar-se por meio de palavras. Como John Cage, que em “De Segunda a um Ano” (Cobogó), faz verdadeiros poemas gráficos para discutir a arte em termos científicos e artísticos, em simultâneo.

Mas não é necessário ir tão longe para chegar ainda mais distante. Como no poema em prosa “Galáxias”, de Haroldo de Campos, em que os trejeitos característicos do grande divulgador brasileiro da literatura universal serviram de enquadramento para algo que supera a dislexia potencial de qualquer palavra, isolada ou combinada.

Aquela que é chamada de “Grande Literatura”, porém, parece de certa forma escapar ilesa de tantas transgressões e/ou modismos. Até mesmo Joyce, que expandindo o seu inglês a ponto de causar enjôo no próprio Beckett, ainda obedecia os padrões gráficos e a maioria das normas de conduta entre as palavras e as letras, mesmo entre idiomas. Até mesmo Pound, em seus insuperáveis Cantos, mostra-se até certo ponto recatado em chutar o pau da barraca desfigurando a própria leitura.

Quem, porém, conseguiria imaginar um russo, antigo, clássico ou atual, levando a sério bombardeios seguidos à forma e à estrutura da frase, da palavra, da letra, do sinal? Chega ser temerário propor o mesmo a um colega que, num Starbucks da vida, se esmerava em corrigir, em grau infinitesimal, a forma de uma fonte que parecia haver recém-inventado? Acaso um dia gostaríamos de escrever em Klingon (povo alienígena malvado de Jornada nas Estrelas)?

Ninguém poderá jamais sequer imaginar ser levado a sério na disputa de um Pulitzer por simplesmente ousar peitar uma convenção qualquer em nome de alguma pretensa originalidade ou outra excentricidade supostamente embasada. Coisa de moleque, dirão todos. Falta de seriedade, dirão outros (no mínimo). Mesmo que por detrás de tudo haja uma integridade patente, posta inclusive a toda classe de prova.

Outras artes há em que o espaço para experimentalismos supera em muito a transgressão de quebrar em pontos a própria forma das letras. Nessas artes, como no cinema ou no teatro, por exemplo, tudo pode parecer mais fluido e mais aberto a leituras de complexidade universalizável. Incrivelmente ou não, por mais que nessas artes as rupturas pareçam nos provocar a ponto de chocar, pura e simplesmente, a mim parecem relativamente tímidas diante da provocação de acabar com o sinal de interrogação.

Afinal, se em Joyce podemos não entender nada, ao menos sabemos que algo há ali onde nada entendemos. Já nos outros parece haver até a dúvida de algo existir.

De que outra forma então poderia eu terminar aqui.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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