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E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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Um almoço nu, em Killer Joe

“Killer Joe” foi a primeira peça do hoje badalado Tracy Letts. Ela narra o contrato de Joe Cooper pelo filho mais velho de uma família desfeita para matar a própria mãe e ficar com o seguro. O ex-marido da mãe, a nova mulher dele e a filha mais nova, Dotty, concordam com a iniciativa. Dotty é virgem e é usada por Joe Cooper como “sinal” antes de receber sua parte da grana, o que não acontece. Ao final, há uma cena dantesca de assassinato e uma revelação.


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Já comentei em outro artigo (“Realismo e hiper-realismo: lições a partir de “Patrimônio”, de Lucas Mayor, e “Killer Joe”, de Tracy Letts, ambas dirigidas por Mário Bortolotto”) que “Killer Joe” faz uso de um hiper-realismo determinado para ambientar uma trama de amoralismo rasteiro e atomismo social.

Isso assim se dá porque cada um dos personagens parece viver em seu próprio e restrito mundo, só participando do que acontece porque, em suas limitadas expectativas de vida, nada o convence do contrário. Por que não?, parece ser o mote que rege suas ações ou inações. Ou seja, ninguém parece sentir que fazer o oposto de participar seja algo conveniente.

Acompanhei boa parte dos ensaios. O texto de Letts, traduzido por Maurício Arruda Mendonça, recebeu apenas algumas pequenas adaptações para o palco, restritas a um ou outro termo e à supressão de uma ou outra expressão. Um aspecto bastante relevante nas marcações do texto é a indicação expressa de que qualquer fala terminada em travessão deveria vir encavalada da seguinte. Isso está expressamente indicado pelo autor no texto original da peça e foi religiosamente seguido pelo diretor, Mário Bortolotto. Essa indicação em especial ajuda a que as falas soem especialmente convincentes.

Alguns textos que é possível encontrar na internet ressaltam a centralidade do personagem de Dotty na peça. Defendida por Ana Hilgert e Gabriella Spaciari em rodízio, Dotty expressa uma pureza que escapa parcialmente da perdição a que os personagens parecem sujeitos, e isso até o desfecho violento. A curiosidade de Dotty pela vida de Joe, a história de sua quase morte pela mãe, a história inverossímil de seu namoro com um rapaz gordo – com o qual nem conversava –, supondo a pureza de um amor, os momentos iniciais de contato sexual com Cooper, a relação doentia com o irmão e o desfecho (que quase beira uma tomada de poder) salientam claramente que o personagem de Dotty tem algo mais a dizer.

O cenário montado pelo Cemitério de Automóveis para a peça destoa do tratamento que o Marião normalmente dá a esse tipo de coisa. A intenção da produção foi claramente a de reproduzir, nos mínimos detalhes, o interior de um trailer, para o que ajudam os recursos de som (principalmente) e luz, que criam um interior claustrofóbico apesar de suas dimensões aumentadas. Tudo acontece no trailer.

O respeito ao realismo do autor se dá ao ponto de as torneiras pingarem água, a televisão funcionar e o prato de atum ser real (assim como o frango frito do KFC, explicitamente usado numa chocante cena de ação).

O Mário fez com que cada personagem tivesse sua cara especial. Joe Cooper é duro e determinado. O irmão que contrata o matador (Gabriel Pinheiro) é pusilânime, covarde e claramente manipulável (apesar de dar origem à trama). O pai (Fernão Lacerda) é fraco em todos os sentidos, o que atrai grande simpatia na plateia. Sua mulher (Aline Abovsky) é falsa, oportunista e agitada.

Dotty é quase etérea em sua placidez, até o momento final em que parece finalmente acordar. O Marião, bem me lembro, fez questão de ressaltar algumas passagens físicas de relações entre os personagens para explicitamente realçar essas características dos personagens. Esse “dar vida” ajuda a manter a atenção e a dar uma leitura enriquecida a essa trama que poderia simplesmente causar um resultado pífio, porque simplesmente realista.

O fato é que já assisti outras montagens de peças do Letts. E o resultado, apesar de diversas qualidades e efeitos montados, foi bem esse: um realismo chapado, repleto de cores reais mas sem as cores imaginárias que o hiper-realismo do autor exige. Como por exemplo em “Bug” (Bichado), que vi faz tempo. Também uma peça filmada, Bug conta a história de um sujeito que, numa situação específica, vê surgirem “bichos” que podem originar-se de sua cabeça transtornada – ou “implantados” por um poder superior.

Bug, nesse sentido, pode tornar-se facilmente – e torna-se – um repositório de momentos aparentemente intensos que deixam um “algo estranho” no ar. E não, como creio ser devido, uma visão da demência entre corpo e alma – com implicações políticas e existenciais. Como fazer isso? Aí é que a porca torce o rabo.

Eu já havia comentado (no texto “Realismo e hiper-realismo”) que “Killer Joe” cumpre a que veio. Pois, venhamos e convenhamos, não é muito comum que um resenhista – mesmo amigo da trupe – assista todos ou quase todos os ensaios de uma peça e que depois, quando encenado, seja surpreendido por ela. Pois eu sabia tudo quase de cor. E ao final algo me capturou. Algo me fez quase perder o controle (no caso, chorar). Algo acontecera. Simplesmente efeito do choque da cena final? Não apenas.

Todos sabemos que para chegar a algum lugar qualquer coisa tem de ser tramada desde o começo, com cuidado, sensibilidade e alguma rudeza. Creio que tenha sido isso o que aconteceu. “Killer Joe”, dirigida pelo Mário, cativa pelo respeito àquilo que é determinado e pelo arrojo em apostar numa sensibilidade amarrotada que leva aonde leva. É diferente a simplesmente apostar num realismo contido. A acreditar que hoje o espectador pode levar a sério, em sua sensibilidade, montagens simplesmente “corretas” em que recursos de flashback ou de câmera parada escolhidos para ressaltar emoções diversas. Invadido por imagens agressivas e mesmo sutis até a medula, hoje o espectador está totalmente vacinado, não parecendo se surpreender por nada.

O que fazer se nem a crueza de um Francis Bacon, o pintor, parece fazer qualquer um pensar qualquer coisa? Nesse sentido, mantenho-me cético diante do realismo puro e simples – e nisso recaio em concordar com um César Ribeiro. Parece nada mais haver a ser dito pelo real, puro e simples. Surgem bocejos e tentativas patéticas de dizer algo que não causa o menor risco ao habitante da rua ou do planeta Terra. Pois hoje qualquer conversa descompromissada parece poder levar tão longe...

A superprodução que é “Killer Joe”, no contexto do trabalho do grupo Cemitério, deu uma enorme alavancagem à visibilidade do grupo, sempre underground e sem pejas de insistir numa visão de mundo para alguns anacrônica ou purista demais. Antes, outro “blockbuster” do grupo havia sido a montagem de “Mulheres”, do Bukovski, outro preferido. Houve também as últimas peças escritas pelo Mário: “Borrasca” e “A Pior das Intenções”. Houve alguns repetecos de clássicos do repertório desse bando de amigos.

Houve também reprises de clássicos de grupos associados, como “Dias e Noites”, da Cia La Plongée, da qual participei. Mas é com “Killer Joe”, aposta especialmente do Carcarah, sócio do Mário, que a ponte entre o universo mais atualizado do noir norte-americano e o mal-ajambrado noir brasileiro parece ser efetivamente construída. Uma ponte que os espectadores parecem perceber ao mesmo tempo em que estranham algumas referências já clássicas desses que fizeram seu universo sentimental a partir dos anos 80. Pois o saudosismo tem limites. E há muitos que ficaram pelo meio do caminho. É preciso viver, em suma. Longa vida a “Killer Joe”.


Contreraman

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