o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Um breve adeus

Por Rossiley Ponzilacqua


mulheres-conversando-opiniao-discussao-1386267807644_615x300.jpgTudo começa com uma discussão:

- Até enfim chegou. O que você pensa da vida? Acha que sempre terá sorte em tudo? Não quero você mais em minha casa. Diz sem convicção.

- O que é que fiz?

- O que você fez? O que você fez? Pelo visto nem sabe que dia é hoje...me diz, que dia é hoje?

- Como?

Sem paciência, nossa personagem grita:

- Hoje faz 3 anos que você me conheceu. E nem se lembra...

A outra perdendo a paciência:

- Porra! Você quer o que de mim? Não me lembrei? O que você acha que estava fazendo? Você que me cobra, o que eu estava fazendo? Não nasci na maciota, não, meu grande amor... Se não trabalhar tô fudida. E você me cobra! Vou embora numa boa. Não te aguento também não, burguesinha de salão. Tô de saco cheio de você. Só me cobra, cobra e não me dá nada! Nem mulher você é.

A outra, surpresa, chorando e quase pedindo perdão:

- Como é? quando nos conhecemos você estava por aí de bar em bar tísica e sem casa. Eu te recolhi na minha casa, te dei o meu tempo, te dei carinho, meu corpo e você o que preferiu. Ficar de bar em bar. Vacilante, diz:

- Vá embora! Não te quero mais aqui. Por você rasguei meu colo, minha posição, meu corpo, te dei um porto seguro...

- Merda! tu não entendeu até agora. Minha vida tem sido você. Nunca fui tão fiel em toda a minha vida. Nunca alguém me prendeu tanto. Nunca me dei tanto a alguém. Só que até hoje você não entendeu...e pelo visto não entenderá: Não tenho pai, não tenho mãe, não tenho avós e muito menos sou desta cidade. Por mais que me esforce não tenho nenhum reconhecimento por nada aqui nesta casa. Ironicamente:

- Copo de água... copo de vinho... talher de frango... faca de prata... Vá te fuder!! Sou da rua, sim! Mas por gostar de você quis me adaptar. Mas chega! Tu não entende minha vida! E minha vida é maior que você, muito maior que a tua etiqueta. Sou uma cantora da noite, sim! E você não tem o direito de me podar. Você me quer mas não me aceita. Você me abre suas pernas mas fecha tua cabeça. Você acha que estou feliz? E você é feliz me cobrando uma coisa que nem você sabe o que é? Você pensa que estarei mal na rua? Engano seu: eu sou a rua! E foi por isto que te conquistei, foi por isto que me quis presa em uma redoma como qualquer bicho do zoológico, apenas para satisfazer a seus caprichos...

Opa! vou interferir. Sim, eu, a narradora desta história. Vou fazer um aparte: por mais perigos que se passa nesta vida apenas um é distração: O CONVIVER. Digo por estar a par desta história, aliás eu a criei: Há três anos uma pessoa resolvida FINANCEIRAMENTE e que não precisava de mais nada - e, quando não se precisa de mais nada é quando a carência grita: grita e incomoda. Aliás, segurança financeira é igual à emocional? Entrou em um bar: bebidas daqui, bebidas dali, e eis que surge aquela figura: aventura à vista! Mas dinheiro compra de tudo?

Como na história de Eros e Psiquê, houve um erro de percurso, nosso Eros em questão se acidentou com as próprias flechas: se apaixonou. De que adianta finanças quando a carência se entrega? Primeiro encontro, segundo, terceiro, e isto acontecendo durante dois anos e meio: o sufocar da garganta quando não se vê, o sentir ciúme estando longe. Saudade. O queimar de rosto quando se olha o brilho do olhar, enfim durante dois anos e meio assim aconteceu. Nossa Eros determina à sua Psiquê seu destino: sua casa.

No absurdo deste enredo houve uma inversão do que se acostumou a chamar de "traições" do destino. Nossa Eros poderosa passou a ser, também, a Psiquê incrédula. Erro fatal: cenas de ciúme, cobranças. E a outra, a que deveria ser a Psiquê da história, completamente perdida. Como um pato fora da lagoa não entendendo o que se passa. Resumindo: o sol suporta o brilho da lua? As diferenças sociais desaparecem no "grande amor"? E o poder de compra na cabeça de quem pensa poder comprar? NossaEros/Psiquê em questão sente ciúme ou sente perder o controle da corda de seu fantoche? O conviver é um labirinto... e esta história tem que ter um final:

- Nunca deveria ter vindo morar com você. Tô exausta de alma e coração. É um alívio cair fora daqui.

Entra no quarto procura sua mochila velha e começa a arrumar suas coisas. Apenas o que lhe pertencia a seis meses atrás.

Nossa Eros/psique não entende, desespera-se:

- Por favor fique! balbucia entra lágrimas e espanto. Não faça isto comigo. Eu...te amo!

Ajoelha-se em uma cena patética aos olhos da outra.

- Tudo o que fiz foi por amor a você. Fique. Por favor. Fique! Entre lágrimas solta um grito agudo e sincero: - Eu te amo!!!

- O que você precisa é de tratamento. Não sou a pessoa indicada. Realmente. É triste ver você assim. Mas meu limite acabou.

Rompe-se pelo apartamento, coração apertado. Abre e fecha a porta decidida. Um adeus verdadeiro. Novamente a liberdade da rua. Antes de chegar ao térreo acende mais um cigarro e não olha para trás. Nossa Eros/Psiquê, estendida ao chão, não entende como uma pessoa pode recusar conforto, grana, mordomia e voltar à rua:

- Como? E, eu?

Confusão em sua cabeça. Mas percebe: Pessoas pagas servem para um breve adeus.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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