o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

A verdadeira dimensão das coisas

Pois o encontro está na busca.


N49-is-a-supernova-remnant-that-spans-about-30-ly-in-the-LMC.-A-newly-born-magnetar-a-highly-magnetized-spinning-neutron-star-is-left-over-in-the-ancient-stellar-explosion-which-created-supernova-remnant-N49.jpgO senso comum nos diz que ao vermos um casal de mãos dadas está tudo bem. E pode ser verdade.

Mas, não sei por quê, vejo tanta ou mais verdade, hoje, em outras situações.

“Nessa cidade”, de Vanguart (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=O27WdvqaM-c), filmado em Milão, mostra um casal em atropelos.

Quase no fim, aparece uma cena em que um deles desce uma escada. Que conduziu-me a Machu-Pichu. Que remeteu-me a uma vida passada. Que me trouxe olhares que não se encontram.

Havia – na ocasião – um olhar em minha direção. E eu não via nada. Havia movimentos, e medos, e atropelos. Mas eu não estava lá. Não havia conflito. Havia um. Eu não havia.

Sempre tive inveja de casais se amando. Mas eu via apenas o que queria invejar. Passaram-se os anos e entendi que o que havia, havia também quando tudo pareceria ruir.

Embora neste caso também poderia não mais haver nada. Pois reparei em como tudo parece instável. E ao mesmo tempo, em dadas situações, com olhares especiais, definitivo.

Pois o estranho que, ao longe, vê casal se atropelando, sente um mundo insondável. Pois tudo o que envolve dois assim é: insondável. Não adianta trazer à razão. Não existe razão quando o jogo é existir. E ninguém existe fora de si.

O estranho, então, sente a verdadeira inveja. Uma pontada de orgulho ferido – por não sofrer no lugar de um, no lugar de outro. Por não... sofrer. Por não experimentar... perder-se. Tentando... achar-se.

Pois todos sabemos que a melhor busca é aquela que não supõe encontrar. Aquela que vislumbra o fruto onde ele ainda terá de ser maturado – por nós. Ver a planta crescer. Regarmos o que vemos.

Sim, a felicidade parece algo invejável. E talvez seja. Mas o que posso EU fazer se hoje vejo existência também na transmutação da certeza em dor inexprimível? Pois os espíritos buscam. Sempre. E o encontro supõe uma paz. Que dura pouco. E que percebo, hoje... ainda bem.

Afinal, cada destino é insondável. E quando algo existe, os espíritos sempre vagueiam. Pois lutam contra si, e algo os impele ao outro. E contra o outro, buscando algo, fugindo de outra coisa. Navegam. O prazer do encontro é a dor do encontro. Com o outro. Consigo.

Difícil hoje acreditar que um conceito (amor romântico, por exemplo) consiga resumir um estado que não se encontra, ao menos enquanto em vida: a paz do cemitério. Da ausência de busca. Da certeza num mundo em gestação.

Agrada ter certeza do que o outro quer ou pensa. Mas toda certeza acalma, e algo em nós busca a agonia, enquanto sofre se não encontra a paz.

Pois tendemos a transformar em sentimento agradável o que poderia se tornar desgosto. Não queremos desistir, de forma alguma. Algo nos atrai na dúvida.

Difícil atribuir maldade à dubiedade de manter o que persiste. Simplesmente não queremos ter de optar. E muitos nem sabem o que querem.

Clamamos pelo outro. Ele surge e nos espantamos. Entramos em acordo. Se tranquilizados – o que quase nunca acontece – transferimos então ao outro a agonia de outrora – que era nossa.

Há quando os espíritos pareçam se afastar. Mas é ilusão. Porque tudo retorna. Surgem sinais. E novos olhares. Há quem ouse parar no tempo. E é possível. Mas a busca continua. E não tem fim.

O que fazer se o mundo parece andar em outra direção, imprevisível, inexpugnável...

Sempre há estranhos em torno (a câmera, na música do Vanguart). E eles olham, de longe, e vêm forças. Dentro e fora. Dores que induzem movimentos. Movimentos que causam dores. Nada previsto, reproduzido ou satisfeito.

Acordos firmados, os corpos os rompem. Olhares agora vazios atraem carências. Carências revelam afetos. Os olhares enxugam as lágrimas.

Tudo então recomeça. Em meio a gestos bruscos. Olhares perdidos. Quem estou, aqui?

Nada parece terminar. E o fim não existe. Pois os espíritos continuarão sua busca. E é lá, no conflito, que algo parece ser disputado. Algo que não é de ninguém. Um cabo de guerra sem nada na ponta.

As cenas que ficam, no vídeo ou no real, sempre dispensam recados, comentários, explicações. E tudo é rotundo ao estranho. E um espelho a quem persiste. Quando persiste. Pois só a dúvida sugere motivo a quem ainda busca.

A mítica tradicional põe demasiada ênfase no momento do contato, do encontro. Que existe, e determina, sim, muita coisa. Mas quem sabe, sabe, quanto de busca está no encontro do dedo correto a pegar com a mão. E o quanto de perda em pegar a mão do outro na hora errada.

Quem sabe, sabe, também, o quanto nosso olhar vê aquele que, ao olhar, engana. E o quanto nos enganamos com o que nos vê. Imploramos por certeza, sempre, contudo. Pois sabemos: a busca continua. Em nós. Algo que quase nos abomina.

Preferiríamos ter de desistir a insistir em deixar-nos agasalhar por segurança que não sentimos. Mas somos valentes, e continuamos percorrendo os caminhos à nossa volta. Sem saber o que procuramos.

Bauman, em Amor Líquido, começa atribuindo ausência de vínculos ao meu amado Ulrich, que simplesmente não tinha particularidades (O Homem sem Qualidades, de Musil). Quando seu maior vínculo era com Agatha, sua irmã. Ó, que sacrilégio!

... um homem do século das guerras com ausência de contato em si identificando a ligação no outro interditado – a irmã, por um tabu primevo... Bauman ainda acredita na possibilidade do imutável. Quando imutável mesmo é o que não parece possível: buscar, AINDA HOJE.

Obviedade bovina seria, a partir de Musil, afirmar que o maior vínculo do ser precisa ser consigo mesmo. Rousseau falou bastante a esse respeito. Questão é que hoje os vínculos não satisfazem. E (que) a busca de estabilidade algo tem de romântico – que nos irrita. Fazer o quê...

Olhamos o outro e notamos vínculos outros, que mudam – como a física moderna nos diz – com nossa própria presença. E sentimos o mesmo em nós. Gostamos. E queremos brincar. Quase um experimento de física aplicada.

Brincar de coisa séria. De existir e inexistir para conosco e em presença do outro. Chamá-lo de possível apaixonado, sentindo que o mesmo PODERIA ocorrer em nós (embora não ocorra – ou nos convençamos disso). Negando tudo para afirmá-lo em noites de solidão (que hoje mal devem ocorrer por aí).

Tantos os recursos para dispensar o inevitável! Como para provocar uma autoeutanásia!

Blunt chama de linda (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=oofSnsGkops) aquela que não aparece. VNV Nation agradece (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=TI4b4eT5jaI) a quem o ajudou a encontrar forças na busca.

Os mesmos do VNV Nation amam tanto (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=cJvXtdFwh4g) o que mais parecem ter perdido. Pois não cessaram a busca.

E os belos desenhos confirmam. Algo parece ficar naquilo que poderia a um desavisado ter-se perdido para sempre (será o chamado Amor?) Mas não existe SEMPRE. E há cansaço quando não parece haver mais nada a buscar. A morte é detalhe.

Será essa outra forma de entender o inconformismo de quem parece buscar tempo e lugar para aquilo que já se foi? Como nos breguíssimos Scorpions? (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Cx3LItSUr78).

Será que o que se busca, mesmo, É certeza? Acaso hoje alguém acredita em passar novamente pelo mesmo rio? Se nem Heráclito (“Nenhum homem entra o mesmo no mesmo rio”) encarava essa...

Disse certa vez que a indecisão, o caráter difuso, da vida parece ser mais atraente – e com certeza sofrido – que a certeza indubitável do que não precisa mais ser buscado.

Noto, porém, COM TODA CERTEZA, que a tranquilidade do fim sempre aparente prenuncia, SEMPRE, naquele que BUSCA, movimentos que dispensam as mesmas buscas e que ACALENTAM novas – cujo fim é sempre uma incógnita.

Não me refiro a ninguém. Nem a mim mesmo. Ainda bem.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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