o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

A verdadeira ferida (navegando pela 2a vez no self-harm)

Algo fez com que você se formasse dentro de mim. Há muitos anos. Muitos mesmo. Talvez no surgimento da consciência da dor. Talvez quando notei que não tinha jeito. Mesmo.


hqdefault.jpgFoi com certeza na infância. Foi numa ocasião em que algo se abriu em mim, como uma porta. Algo no qual muito iria entrar. E que iria gerar pústulas, a corroer o corpo por dentro. E mais ainda: o espírito. Minha alma.

Uma incisão nessa porta: o medo. Um medo a partir de explosões. De gritos. E do medo do medo. Do medo de ver. Do medo de ouvir. Da alegria de não ter tido medo ao ver um cano de ferro. Uma arma. Essa incisão ficaria dormente por muitos e muitos anos. Mas algo parecia advir dela: o choro. Saía choro a rodo. E não se sabia realmente por quê. Fácil qualificar. Fácil dizer que por falta de tônus, de força, de hombridade.

A vida seguia e as imagens que aparecia reduziam-se a cinzas. Parecia que o medo transmutava tudo em sépia. Como as cores dos selos que colecionava. Os recortes ficaram. E as imagens, esmaecidas, sumiam da vista.

Parecia que você já causava o seu efeito. Parecia que a incisão aumentava sem deixar marcas visíveis – enquanto a criança crescia e se metia em livros que lhe traziam histórias de prazer – e terror. Poe, o primeiro mestre. O mestre da ferida da alma.

“O corpo já enfraquecia, e era estranho, isso. Você havia nascido tão saudável, tão gordinho. Algo parecia minar sua energia. Difícil que fosse algo não tratável”. Irônica, você. Parecia esconder-se, você, em meio a minhas carnes, e a presença delas já parecia notá-lo.

Havia uma fraqueza ali, e você já crescia enquanto os anos passavam. Eu lutava, dedicando-me a atividades frenéticas de criança que não parecia ter medo de nada. Mas até nelas você estava, pois parecia ditar o tom. A arma, a dor, a escuridão, a destruição.

Mas eram pirraltices de um moleque CDF na escola e imprevisível na rua. Você surgiu, que eu saiba, a primeira vez num aniversário, quando ninguém foi e você ficou até agora esperando. Você surgiu, ferida. Você veio à tona e começava a captar o efeito da alma na alma. Uma xerox milenar que iria atrás das irmãs.

A vida andou e com ela você foi, esperando a sua deixa. Que apareceu para valer no segundo emprego, num restaurante quando surgiste escondida sob o poema “Medo”, para sempre perdido. Numa mesa de quatro, num prato de segunda, na companhia de ninguém. Foste batizada, ferida. Pois enganas quando dizes ser só de agora.

Os espectros de gente já se afastavam e você vislumbrava a vida do sujeito que no sonho queria voar altaneiro. Sem o conseguir. Com o corpo em polvorosa, sem saber o que era, nem o que foi. Havia caminhos, todos inseguros, sem nada a cobrir a estrada de terra. Ele tropeçava o tempo todo. E nunca teve violão a carregar para cantar um mísero blues. De que já gostava.

Mas aí ele morreu. De morte matada – na intenção. Ele morreu junto e carregou o espectro por 10 anos. Foi o que quis. E não ganhou nada com isso. Já você, esperta, só ficava esperando o momento certo para tomar conta. E foi quando ele errou de vez que você entrou. E nunca mais – até há pouco – saiu.

Foi uma virada radical que transformou o mundo em dois e no qual ele escolheu o Darth. Havia algo estranho agora em seu olhar e você aproveitou a energia para crescer. Tomar conta do órgão vital e impedir que algo de bom entrasse – seja lá o que fosse. Você fechou os seus olhos àquilo que havia de luz no mundo – e nele só entrava sombra.

Ele optara, sim, mas sem convicção. A história lhe deixara marcas de vingança e esta não era cega. Nunca chegou a considerar a opção pelo fim do mundo. Sabia que as coisas tinham processo e ele só se protegera a partir de. Mas agora sua ira era radical. E ele não parava de cantar hinos que lhe tiravam a voz enquanto um olhar doce tentava domá-lo.

Mas o mal não se doma, se derruba. E isso acontece por fora ou por dentro. E quando acontece mata algo e alguém e todos também. Ela não conseguiu. E você, ferida maldita, curtia a vivência esperando sua vez de deixar um buraco tão fundo que de preencher seria inclusive impossível.

Outra apareceu e mostrou-lhe um caminho. Que ele adotou cego, sem saber o que fazia, tentando assumir um ar altaneiro de macho contido. Mas apagou-se logo a tentativa e ele afundou ainda mais, e com ele, você, ferida que já era chaga e dominava todo seu corpo, alma, espírito e esperança.

Vieram anos de bonança em que nada mudava e nada era o que parecia. Estava sendo gestado o fim enquanto a vida parecia caminhar – nada era combinado e tudo era sofrimento num momento em que a carne enrijecia, estragava e os sorrisos começavam a rarear. Você esperava lá, no coração, já dominando o presente e o futuro – sempre com o medo a tiracolo, critério esse a apagar o que restava, deixando nada como herança.

O fim chegou de surpresa – mentira – e o escorraçamento se deu sob sua égide, ferida. Nada ocupou o lugar dessa ilusão subentendida e restou-lhe a mesa de bar, ocupada por colegas que supõem existir ainda lugar para arte neste mundo sem sujeitos, só objetos.

Estava aberto o caminho para o seu domínio, que ocorreu aos poucos, estando ele embalado pelo fim do ego, pelo excesso da falta, pela destruição dos laços. Quando você, ferida, mostrou a ela que dominava, que nada te escapava, que a dor seguia os passos da dor.

Cansaço suficiente para minar o espírito de qualquer iludido – até o ponto de destruir qualquer identificação com o real – e sobrou o ideal, o desejo, a libido, a entrega, o fim e o começo. Tanto a destruir para abrir espaço à tábula rasa da morte. Caíram, ambos, e ele ainda mais – rumo enfim ao espaço que a ferida deixou no interior de si mesma.

Corria para atender o fone quando a mesa caída deixo um risto no antebraço esquerdo. Hoje ele olha a dita e até se admira. Sempre mais uma para me acompanhar, pensa. Sempre mais uma, antes provocada, agora só de si mesmo. A noite avança e ele não sabe mais – se ela deixará algo se levantar ou se seu destino é mesmo cair de quatro. Nunca se sabe.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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