o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Declaração de escritor

Tô cagando. Tô me lixando se me dizem para ler mais, para confirmar uma coisa ou outra – não escrevo como jornalista, caramba –, que eu devia ou não devia escrever tal coisa. O negócio da imagem. Ok.


JP-ROTH-1-superJumbo.jpgEscrevo agora sobre pelos, tufos, cheiros e sabores. Mas não preciso ler Bataille para isso, não. Não preciso lembrar que ele escrevia sobre peido ou outros quejandos. Não preciso. Eu quero escrever sobre pelos porque deles me lembro, deles sinto falta, porque sempre tive problemas com eles, com cheiros e com sabores. E com cara melecada de tudo isso. Coisa que não tenho mais.

A escrita é, sempre foi e sempre será, a última trincheira. Onde os espíritos se avolumam, aflitos, querendo, implorando por jogar na expressão – essa maldição, para o Cioran – algo que possa tirar o coitado atrás da tela dessa situação patética. Uma situação patética qualquer. Porque há os escritores com temas. E há os temas com escritores a tiracolo. Estes, morrem quase sempre meio loucos.

Não sei se é esse meu destino. Sei apenas que tenho aqui, em fila, mais de 7 textos novos, que todos eles versam, em última instância, sobre a mesma aflição – embora haja os textos profissionais, que escrevo para me dar alguma chance por aí –, e sobre o mesmo momento: o presente, essa dor que não morre. Não interessa por quê.

“Amor e outros sentimentos cruéis” é o título do novo livro do Marião (Mário Bortolotto). Bem isso. Meu problema hoje é esse. Para amanhã ser outra coisa, ou outra pessoa, ou a mesma, ou o fim de tudo. Sei lá, o escritor parece criar problemas onde não existem. Será?

Isso me lembra da época em que eu penava para viver, meio que esmolando traduções, antes de conhecer minha mulher. Eu ouvia muito blues, à época. Mas sei lá o que aconteceu. Deixei de penar, talvez devesse ter continuado, aí passei a ouvir outras coisas, me prender em outras influências, tudo desandou, enfim, eu me perdi. Mesmo que tenha sido um jornalista pretensamente importante em alguns lugares, eu simplesmente me perdi.

Claro, o que há em comum nessa trajetória? Uma coisa bem específica. Antes, eu era uma pessoa com índole, com jeito de ser, com crenças e valores. Conheci minha mulher. Tornei-me outro cara, preso àquilo que costumeiramente chamamos de valores correntes. Daí perdi minha mulher, fui desandando, cheguei novamente ao blues – digamos que há um mês –, e, também por amor – desta vez não correspondido – me perdi novamente.

(Um momento. Nos últimos anos, eu tive, sim, a possibilidade de me postar finalmente no centro de São Paulo. Foi quando pude pela primeira vez comprar um imóvel. Ocorre que eu tenho excessivos livros e não queria mofar num apartamento fechado e úmido com livros mal arrumados e em que eu não pudesse estudar, que é o que eu mais queria – na época. Daí que preferi um apartamento grande num outro município, onde fiquei isolado e de onde acabei saindo praticamente todo dia para encontrar amigos e influências. Essa possibilidade – de ficar no centro – aproximava-me do blues de outrora – mas eu recusei, já com outra cabeça. Hoje mudei novamente)

E por que tudo isso? Creio que é porque realmente em um determinado ponto da vida eu desandei. Dei a acreditar naquilo que não existia, passei a ter um pensamento medíocre corrente, e tudo o mais. Isso passa às pessoas. Tentei como um louco voltar a ter integridade de pensamento, e quando a achei vi que não adiantava – nem antes, nem durante, nem depois. Eu havia desandado o tempo todo. Tinha perdido o rumo.

Daí que agora, perdido como só eu posso estar – acreditem, a história é muito foda –, chego à conclusão de que só mesmo com a escrita quem sabe eu possa me salvar. E olha que tentei tanto, mas tanto, que dá até pena de contar. Refiro-me ao “relacionamento” que nunca foi. Muito bem, a vida prega dessas peças, claro. E a nós, que vemos o tempo passar, só nos resta sofrer e ver tudo, a vida inteira, essa, desde o começo até o nosso fim, de camarote. Tentando achar uma razão de viver. Como por exemplo isto mesmo: escrever.

Pois quando não há mais sentido é esse afinal o sentido. Ou não é?

(talvez a completar ainda mais - muito a dizer, ainda)


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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