o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Inanição e patrulhamento no teatro paulistano, 2015

Viva a morte.


unos-cuantos-piquetitos-22-01-10-64 (1).jpgExistem centenas (alguns sustentam que por volta de 800) grupos de teatro na Grande São Paulo. Nisso podem ser incluídos desde os grupos tradicionais (como Oficina – 57 anos –, Cemitério de Automóveis – 33 anos (do qual participo)) até grupos que, de tão pequenos e com atividades tão rudimentares, nem poderiam, formalmente, ser chamados de grupos. Eu mesmo tenho um destes.

Gravitando ao redor desses grupos, milhares de artistas, desde atores, atrizes, diretores, produtores, encenadores, iluminadores, responsáveis pelo som do espetáculo, etc. Cerimônias como o Prêmio Shell servem, dentre outras coisas, para mostrar quem são tais artistas, que vez ou outra encontramos no centro, em ambientes frequentados por gente da classe, restaurantes costumeiramente citados nos espetáculos, etc.

Nos últimos anos, porém, e especialmente neste (2015), uma grande crise tem afetado toda essa trupe de (supostos) malfeitores dos costumes (em nome da arte). Essa crise vem fazendo os bares minguarem em número e fregueses. Os teatros parecem atrair cada vez menos público. As atrações são quase sempre as de praxe. Os grupos, os mesmos. As tramas, conservadoras. As conquistas, mínimas. Os debates, uma raridade.

Um sintoma concreto dessa crise é a diminuição do número de espetáculos (em número, variedade e permanência em temporada). Dizia-se que antes os espetáculos iam de 5as a domingos, com extensão a 3as e 4as. Hoje, isso não mais ocorre (sem exceções): quando muito, peças bem frequentadas vão de 6ª a domingo, sem chance de se estenderem além disso. Os ingressos populares são carcomidos por meias-entradas. Os convites (para os amigos durangos) multiplicam-se. Críticos são arrebatados a peso de ouro (de amizade, a maior parte das vezes). E isso, sem garantia alguma de atrair novos espectadores.

Os pequenos teatros fecham e deixam (algumas) saudades. Antes disso acontecer, saudosistas dizem que “não pode”. Pode. Fecham e os notívagos se espalham. Enquanto isso, os arranha-céus residenciais erguem-se, potentes, ao lado, ou mesmo no mesmo lugar. Ligam-se as tevês, e as pessoas saem para ir aos cultos. Os que cultua(vam) a bebida ficam sem ter onde ir. Surgem reclamações, que por simples ausência de massa perdem-se no vazio. O teatro passa a ser (novamente) identificado com comédias de costumes. Questões de casal. De pênis. De vaginas que falam. E assim vai.

Grupos perdem subsídios. Ficam à míngua. Diretores defendem suas (próprias) genialidades. Têm seus seguidores. As contas chegam, não são pagas, começa a reclamação. Pequenos (como eu) que só tinham esses lugares para existir, acanham-se. Ou continuam, ilegalmente até para si mesmos.

A lei do PSIU é um tiro na cabeça dos que resistem numa luta cultural já perdida. Gente menor não tá nem aí, e faz uso dela. Outros que não ligam para ninguém acham que perder a luta faz parte. Os olhares desanimados passam a aparecer aqui e acolá, pensam onde irão agora passar a noite, a noite secular dos que não precisam de templos de coleta de dízimos. Os postos de gasolina podem virar último refúgio. Sempre foi assim. A sociedade platônica sempre insistiu em negar espaço dos cínicos antigos.

Mas os notívagos, os morcegos, não desistem. Cavam matérias tentando comover uma sociedade com títulos (patrimônios imateriais, prêmios de crítica, coisas assim) uma sociedade diversionista inculta que nunca estará nem aí. Aplaudem-se mutuamente procurando mais alguém na plateia – que não existe (e nunca existirá). Perguntam a profissionais das Oropa onde está o dinheiro – e eles respondem que está lá. Pensam em política mas não têm a menor vontade de encarar a porrada.

Outros, encaram, e sobrevivem sorridentes em grupos que encontram quem os ampare. A maioria fica vendo o tempo passar, e grana escassear, a cerveja faltar até entre os amigos dos amigos, e vai para casa, descansar. Outros ficam em frente a telas, tentando dar sentido à bagaça – eu, um deles.

As pessoas então, os morcegos de sempre, voltam-se a eles mesmos, criam, escrevem, não desistem, bolam o inbolável, e um dia, anos passados, juntam-se, fazem barulho que incomoda as múmias (los momios chilenos), e algo muda, quem sabe. Voltam os sorrisos, reaparece a confiança, surgem morcegos que escrevem, tudo retoma algo que nunca aconteceu, até que passam alguns anos de porres indômitos e estamos aqui de volta outra vez. Assim é a vida. O teatro paulistano agoniza, os talentos percorrem as ruas em busca de pratos de comida, a inanição afeta as faces de quem sabe-se eterno e fica o quê, um patrulhamento de gente burra que não gosta de ouvir o que fala.


Contreraman

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