o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Lábios

Uma das pinturas mais célebres de todos os tempos, “A origem do mundo”, de Gustave Courbet, mostra a todos o óbvio: saímos de uma mulher, e de sua vulva. À época de sua apresentação, a pintura deveria ter a intenção, não propriamente de chocar, mas de parar com essa hipocrisia idiota com o nu.


3947427_orig.jpgMas a tal ponto vivemos numa república quase fundamentalista que o mero fato de mencionar o evento é, para muitos, quase uma heresia – hipócrita, como sempre.

Ocorre que se saímos dela, saímos também por entre lábios. Como que somos expulsos por eles. Eles ficam, mas nós somos expulsos. Não voltamos a eles. Muitos autores remetem-se a essa vontade, por parte de muitos, de voltarem ao útero materno. Por meio de lábios. Que não os aceitam mais. Até um autor é citado (Romain Gary), no filme “Minhas tardes com Margueritte”, sugerindo que todo homem no fundo é apenas, em sua vida, um animal uivando pelo amor materno, que expressa tudo e que nunca mais é preenchido por ninguém.

Deixando um pouco de lado o caráter patético da proposta do retorno, o fato é que qualquer volta seria por entre eles, os lábios. E que ela não acontece. Nem poderia.

Mas a descoberta do outro, ou da outra, no caso de um homem, se dá também por lábios. Quando uma alma toca – ou deveria tocar – a outra.

E essa descoberta, esse encontro, possui por isso o caráter de retorno. Como se ao encontrarmos alguém, e o/a beijarmos, estivéssemos tentando preencher esse vazio infinito. Ou seja, encontrar, por meio de algo que apalpamos com os nossos – lábios –, uma intensidade que não podemos jamais descobrir de outra forma. Não buscamos entrar nela, na pessoa que beijamos, mas sabemos que é por meio desse encontro de iguais – dos lábios – que muito provavelmente entramos no que há de mais precioso e preciso no outro/a.

E quando o sexo ocorre, quando a conjunção carnal se torna real, surgem ainda outros – lábios. Os originais, claro. Os da vulva. Aqueles de que todos saímos. Quando vemos se conseguimos criar o enlace. O contato com o prazer do outro, no caso, da outra. E daí é que outros lábios se tocam: os nossos com os dela, mas não os da boca, os de baixo. É outro contato, esse. Um contato que mistura os âmbitos. Que cobra o de cima e o de baixo. Como ela mesma também faz, ao nos dar prazer de outra forma, com os seus lábios de cima e nosso pênis de baixo.

Não, não me interessa o caráter escatológico de nada, queiram saber. Simplesmente o que aqui eu faço? Conduzo a linha seguindo a direção dos lábios. Que não páram. E que, quando o amor cessa, também páram. A ausência do amor supõe que os lábios não mais se toquem. Sugere.

Lábios por lábios, porém, todos são diferentes. Claro, os corpos todos também são diferentes. Mas a gente bem sabe o peso negativo que é saber-se ruim de beijo, ruim de transa, ruim de oral, ruim de usar os lábios. O peso dos lábios, para qualquer um envolvido numa relação, seja ela de que tipo for, é forte, muito forte.

Envolve a masculinidade, é certo, no caso do homem, mas também envolve a habilidade, e mais ainda, a entrega, a ausência de pudor, a vontade de dar e receber prazer. Para eles, elas precisam ser boas nisso; para elas, eles precisam.

Muito já se falou e ainda se fala da importância simbólica, para a civilização, do... falo. Do pênis, da força envolvida em sua dimensão carnal e em sua função reprodutora da espécie e do poder. Mas da vagina pouco, comparativamente, se fala. E ainda menos dos lábios. Pois estes parecem compartilhar de uma naturalidade aparentemente óbvia que nada teria de relevante a dizer.

Devo, porém, opor-me à tendência natural e dizer que... não. Algo há aqui. Algo que escapa do simplesmente fático, e que resvala na hagiografia do túnel no qual haveria ainda esperança. E a porta é... o lábio.

Os lábios.

Esses que buscam, que encontram e que abrem as portas ao mundo.

Como na pintura.

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Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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