o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Neste mundo, nascer é questão de ego – e de acabar com ele

Vivemos em que mundo, hoje, afinal?


ego.gifA famosa Lou Andreas Salomé (1861-1937), grande desejada por Nietzsche, deixou, dentre um bom legado, dois livros muito especiais, um sobre Nietzsche (Friedrich Nietzsche em suas obras) e outro sobre si mesma, uma autobiografia (Minha Vida, Brasiliense).

Verdadeira filósofa, como poucos/as, Salomé começa sua biografia falando, claro, do seu nascimento. E, de roldão, do nascimento de todos. E do todo.

“A experiência Deus./ Nossa primeira experiência é, de modo notável, uma desaparição. Momentos antes éramos um todo indiviso, todo o ser estava inseparável de nós; então somos impelidos a nascer, tornamo-nos um pequeno fragmento que deverá esforçar-se, doravante, para não sofrer reduções cada vez maiores, para afirmar-se perante o mundo adverso extremamente amplo, no qual, por termos deixado nossa plenitude, caímos – agora despojados – como num vazio./ Assim, vivencia-se primeiramente como que algo já passado, uma rejeição do presente; a primeira “recordação” – assim a chamaríamos mais tare – é, ao mesmo tempo, um choque, uma decepção pela perda daquilo que não é mais, e alguma coisa de um saber que se vai desenvolvendo, de uma certeza de que ainda teria que ser”.

Muitas vezes pensei no todo ao qual voltarei quando morrer. E na sensação de retomar o contato com quem me separei. E que esse de quem me separei não estará diviso em relação a nenhum outro. Seremos um só. Como em Deus.

A novidade que Salomé me diz é que esse fragmento em que nos tornamos ao nascer deve, então, esforçar-se por não cair cada vez mais (reduzir-se), afirmando-se assim diante do mundo adverso e infinitamente amplo no qual caímos “como num vazio”. Pois que coisa, não é assim que eu sinto tudo isso: como se precisasse me afirmar para não ser reduzido a algo que irá me tornar um nada – e isto, inevitavelmente. Por que resistimos, então? Por que não nos deixamos vencer, afinal?

Salomé continua dizendo que a vivência se torna uma rejeição do presente – e com isso a lembrança maior, a primeira, é um choque e uma decepção pelo que já não é (e algo de um saber, uma certeza que teria que ser). Pois não é isso mesmo o que parece? Que sabemos profundamente de nossa queda e decepção –e ao mesmo tempo que algo ocupa o seu lugar, uma certeza inevitável, algo que teria que ser. O que seria isso?

Percebo que quanto mais a vida passa mais percebemos que escolhemos, no passado e no presente, e que isso afetará nosso futuro. Não que necessariamente estejamos com medo do que nos espera. É, mais claramente, a sensação de que experienciamos o fruto do que fizemos e do que fazemos. E que portanto há quem tenha feito algo e que tenha sofrido o seu efeito. Para o bem ou para o mal. A escolha, que antes parecia cega, quem sabe para muitos, com o tempo cobra o seu preço. Esse fruto, o efeito das escolhas, parece ser algo que teria que ser. Não sei se tudo, se todo esse algo, mas ao menos parte dele.

Nessa escolha, então, parece haver algo, uma tentação ou um vício, ou algo sem nome, quiçá, que define a boa ou má escolha. O espiritismo diz, segundo Kardec, que esse vício seria o egoísmo (913, Parte Terceira, Capítulo XII, Da Perfeição Moral, de O Livro dos Espíritos).

Já o Dhammapada, livro de ensinamento budista, parece, ao menos nos primeiros capítulos, não buscar esse princípio. Diz, por frases muito claras, que quem opta pelo mau caminho tem maus frutos; e o inverso comprova o contrário. Claro, há sempre o controle, o bem e a sensatez a fazerem a diferença. Mas não parece haver UM princípio. Mas há uma mensagem clara: a função e poder da escolha. E o fruto, o efeito, seria derivado dessa boa ou má escolha. Algo que teria que ser. Bastante belo, tudo isso. Muitas questões tornam-se rasteiras se postas à luz da clareza do que o livro budista diz. E noto que não só isso. Que no caso do livro espírita parece ocorrer o mesmo.

A verdade parece tão clara, assim vendo tudo. E a mensagem a cada um também não deixa margem a dúvidas: a escolha e o fruto são de cada um. Não há como se aplicar uma desculpa a nada. Você é o responsável.

Mas é curioso como parece difícil aplicar o que se diz, ao menos àquele que não ousou pensar direito. “Seja qual for dano que possa causar entre dois inimigos, uma mente mal dirigida inflige a si mesma um dano ainda maior”, diz o Dhammapada. Fácil de dizer. Mas quem é que consegue bem se dirigir diante de situações-limite, em que egos e interesses, e dores e mágoas, estão em questão? O controle, sempre tão necessário, torna-se então quase um ideal inalcançável. “Aquele que faz o bem rejubila no presente e no futuro, é feliz em ambos os mundos. O pensamento “Eu fiz o bem”, encanta-o e deleita-se ainda mais quando renascer nos reinos de felicidade”, diz o livro.

A escolha parece, assim, descambar, como natural, no Bem contra o Mal. Na existência de ambos âmbitos (que muitos negam) e na inevitabilidade da escolha. Mas o que, em última instância, explicaria a opção de um pelo outro? O que, para aquele que decide, seria fundamental para decidir para todo o sempre (como se orientasse seu passado, presente e futuro)? O cristianismo diz que isso é Deus. E que Deus é amor (ou Amor, para não confundi-lo com o amor romântico).

Já discorri um pouco sobre como cheguei a essa conclusão de que o Amor é entrega. Essa foi uma conclusão a que cheguei pela pura prática. E que toda entrega, ao menos é o que me parece, exige um certo sofrimento – ou mesmo um grande –, e que nele há um esquecimento de si. Uma entrega ao outro. Algo que supõe o fim total do egoísmo. O fim supremo do ego. Mas não para subjugar-se ao ego do outro. Senão para na prática simplesmente ceder – por Amor. É curioso que, conectando o que digo àquilo que já disse, acabe concluindo que a escolha suprema pareça ser optar pela ausência de si. Ou seja, optar por, em última instância, não optar. Por ceder. Por não pensar. Simplesmente agir. É bonito, isso. Mas também tão radical. Tão difícil de dizer. De afirmar. Mas ainda assim tão difícil de negar...

Salomé recusou Nietzsche. Mas dedicou um livro a ele. E vemos como, em sua biografia, na edição brasileira, aparece o bigodudo, em uma foto bastante interessante, em companhia dela e de Paul Rée, quase fagueiro, quase sorrindo, em 1882, como um penetra numa foto que poderia não ter-lhe dito respeito. E quem é o bigodudo? O supremo defensor do Super-Homem, da afirmação da vontade para além dos valores. Curioso que assim seja. Um defensor do Ego.

“’Que os leigos e monges pensem que fui eu que fiz. Em toda a obra, grande e pequena, que eles me sigam’ – tal é a ambição do tolo; assim aumenta o seu desejo e orgulho” (Dhammapada).

"Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo – de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou um homem, sou dinamite” (Ecce Homo, Nietzsche).

Vivemos em que mundo, hoje, meus caros e caras, afinal?

* * *

Agradeço à minha amiga Priscila Vidal a indicação do Dhammapada e o apoio.


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