o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Ollas x Panelas: Chile, 1973 x Brasil, 2015

Perdoe-os, Senhor, porque eles não sabem o que fazem. Não viram as bombas. Não dividiram suas vidas ao meio. Não têm medo do medo.


michelangelo13pe_as_1_1_1_1_1.jpgNasci sob a égide do bater de panelas (ollas, em castelhano). Quem as batia era minha mãe. Era o começo do que iria se tornar o 11 de setembro de 1973, a deposição de Salvador Allende, presidente eleito do Chile. Vivíamos em Las Condes, bairro de classe média. Faltava comida. Havia um clima de radicalismo que dominava vozes e mentes.

O resultado foi claro. Bombardeios. Mortes. Violência. Fuga de capitais. Desemprego. Meus pais seguraram a barra alguns anos. Mudamo-nos para o Brasil. Retomamos a vida. Abandonamos o passado. Meus tios, primos e sobrinhos permaneceram lá. Quase iguais a outrora. Visitei-os duas vezes. Vi como o mundo não avança a quem pára.

27 + 15 anos (42 anos) depois, passado um outro 11 de setembro (o de 2001), chegamos ao Brasil dividido de hoje. Eleição agressiva, vantagem mínima, classes sociais em atrito, atitudes rasteiras de parte a parte, gente gritando o pior, outros questionando esse pior, alguns clamando por paz, outros cansados de ignorância, todos à espera do próximo dia 13 e, principalmente, do dia 15.

A economia engatinha, o desemprego grassa, o desânimo permanece, sem quaisquer perspectivas alvissareiras. E os ânimos se acirram. Ontem Dilma foi à Feicon. Vaiada. As redes sociais parecem murais de acusações, fundadas ou nem tanto. Bobagens sendo ditas a torto e a direito. E alguém se importa?

O golpe do Chile em 1973 dividiu minha vida em dois. Pelo fato de sair do Chile. Pelo fato de sair por um golpe de força. Pelo fato de entender que a política poderia dar nisso. Por quem sabe supor que às vezes isso pode ser inevitável. Por entender que às vezes as pessoas realmente não se entendem. E que, se não querem, não conseguirão mesmo se entender.

Minha família no Chile ainda hoje está dividida por 1973. Meus parentes paternos são ainda hoje de direita ou democratas-cristãos empedernidos – esses DCs que abriram espaço para o golpe, como um Lacerda queria fazê-lo contra Getúlio. Meus parentes maternos, de classe social menos privilegiada, passaram a história a roldão dos acontecimentos. Alguns deles também eram DCs. Mas nenhum – que eu saiba – era UP (Unidad Popular, a frente do Allende). Eles não se falam. Claro, até se encontram. Mas não se batem. São diferentes. Mundos distantes.

Os governos do PT cindiram o Brasil. As políticas assistencialistas e a economia (aparentemente) mal-conduzida (apesar da sorte de Lula e de Dilma, esta ainda em seu primeiro mandato) chatearam o andar de cima (principalmente). Passou a vigorar uma recusa radical a tudo o que cheirasse petismo. Os argumentos passaram a dar vez aos preconceitos. Como no Chile, em que a classe média dizia abertamente odiar “los rotos” (palavra que junta uma suposta má-educação, marginalidade, pobreza, sujeira e tudo o mais de alguém de classe social inferior).

Sim, os momentos são diferentes. A história não é, a meu ver, como em Marx, que diz que quem não a conhece pode revivê-la como farsa. Mas há uma vertigem similar em tudo o que acontece. Todo dia parece levantar novas sombras, novos medos, e a esperança parece cada vez mais distante. Quem se levanta para clamar por entendimento parece vestir máscara de palhaço, e isso cada vez mais. As pessoas parecem ser levadas a optar por um lado – mesmo que não o assumam. Os amigos se estranham. Os semblantes nublam-se. Não parece haver meio-termo. É preciso assumir o seu lugar.

Apesar disso, adoro fazer política. Sei bem que para conduzir reuniões, em qualquer âmbito, é preciso ter estômago. Engolir sapos – não necessariamente barbudos. Admitir imperfeições - próprias e alheias. Saber que nunca se aprende o suficiente. Ouvir besteiras sem conta. Falar outras. Ousar tomar pulso firme – para em seguida ser derrotado por alguém mais hábil com as palavras ou com gestos aparentemente inexpressivos. Mas isso funciona, sempre, até o momento em que há margem de manobra – e de diálogo. Mas quando as lições de Carl Schmitt começam a valer, a pauleira começa – e não dá para prever qualquer resultado.

Schmitt, sempre condenado por ter sido um pensador amigado ao nazismo, dizia que em política é preciso alertar que nem todos são nossos amigos. Que quando nos associamos, associamo-nos a quem consideramos amigos. E que portanto os outros são dispostos a um lado, como não-amigos. Há convivência entre ambos? Sim, mas até certo ponto. Quando começa o simples jogo de forças. Que pode levar a qualquer lugar – mesmo.

Dia 13 os amigos do PT irão se encontrar. Dia 15, os inimigos do PT. Em questão, um mandato – o de Dilma. Dizem alguns que é bobagem. Dizem outros que pode ser sério. Há quem, aqui, n o Brasil, hoje, permaneça parado – o poder da força, o militar.

No Chile, em 1973, tudo parecia seguir o mesmo itinerário. Até o momento em que a luz vermelha acendeu. Os militares moderados perderam terreno. Os radicais – até então escondidos – deram as caras. Pinochet, o maior deles.

A direita radical já clamou, aqui, agora, pela intervenção. Não foi levada a sério (nem dava para ser). Mas hoje o clima parece ser outro. Quando o conflito ocorrer de fato, algo terá de ser feito. Quem o fará? Muitos torcem pelo pior – até porque alguns (mídia) parece ter muito a perder. Outros parecem brincar com o radicalismo.


Contreraman

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