o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Idiotas

Este texto explica mortes que ocorrem antes do tempo.


hqdefault.jpgNo filme “Fogo contra Fogo” (Heat, 1992, de Michael Mann) tem um personagem que de tão lamentável eu quase nem consigo ver, sempre que pego a fita. É um ex-con que mesmo apoiado pela mulher ou namorada que o ama embarca numa furada e morre no caminho. Ninguém lamenta sua morte.

Não sei o nome dele, nem tenho paciência de procurar saber. Ele é interpretado por um ator jovem negro e bastante forte com um olhar de certa tristeza. Sua história na trama é lateral. Ele aparece com a mulher ou namorada num carro, sendo consolado de alguma forma, prestes a tentar um emprego. Aqui: https://www.youtube.com/watch?v=b4HItiAYTV0, em 40:48. Depois ele aparece aceitando o emprego de chapeiro numa lanchonete. Em 41:14. E engolindo em seco a humilhação de ter de submeter às condições de sua condicional (on parole).

Depois o sujeito aparece trabalhando na lanchonete e, por uma rama do destino, sendo convidado por McNeil (De Niro) para dirigir o carro do roubo que Danny Trejo foi impedido de guiar. Ele aceita, no mesmo vídeo, em 1:40:51. Nota-se claramente em poucos segundos como ele decide. Sem pensar em nada. A mulher dele não existe. Ele aceita, dirige o carro e morre no roubo, que na última hora a polícia acaba, se não impedindo, ao menos dificultando (dois dos assaltantes morrem, um deles o negro).

A cena, no filme, que sempre mais me chocou foi o anúncio de sua (dele) morte na TV e a cara da namorada que não tinha mais ouvido falar dele. Sua desolação (dela) é aparentemente imensa, impossível de mensurar. Está no mesmo vídeo, a partir de 1:54:18. Essa dor conquistou-me de cara quando vi o filme e sempre que o revejo. Mas torna-se extremamente difícil para mim rever essa cena em especial. Daí que normalmente pego as sequências de ação.

A questão que gostaria de abordar aqui é a existência malograda de certos seres que, em um determinado momento da vida, parecem a ponto de serem salvos por alguém e que – por algum motivo que eles parecem não entender (mas, como irem mostrar, não lhes é estranho) – nada parecem compreender. Não quero entrar aqui em lances biográficos, mas fato é que, durante minha vida, notei esse tipo de situação em pessoas bastante próximas. E também em personagens de cinema e da literatura mais variada.

Por exemplo, o personagem Manny, de “Expresso para o inferno”, de Andrei Konchalovsky, interpretado por Jon Voight. O filme completo está em ) . Condenado à prisão perpétua, e perseguido pelo diretor do presídio de segurança máxima, Manny tem um amigo verdadeiro interpretado por Edward Bunker (que foi coroteirista da trama, baseada em roteiro de Akira Kurosawa). Percebe-se que a ligação entre Manny e o amigo é de cumplicidade extrema. Eles parecem saber do que falam: de como a fuga de si mesmos é impossível. Mas Manny está sendo pressionado pelo diretor e sabe que na cadeia ele é um homem morto – embora de certa forma um exemplo de persistência para os companheiros. Só lhe resta fugir.

No final do filme, ele destroça a si mesmo no trem desgovernado. Mas, o que mais importa aqui, ele não se salva NO outro. Para ele, é como se o outro realmente não existisse. Só existe ele mesmo. Vejam, a trama não é assim tão simples e rasteira. Manny está no trem com um ex-con que ele não queria do seu lado. Obrigado o colega a tentar parar o trem – e, não conseguindo, o colega é humilhado.

Aparece uma garota, funcionária que ficou dormindo no trem e foi pega pela situação. Manny não parece ter compaixão de ninguém. Ele só quer escapar e sente que a situação está fugindo do controle. Manny consegue ir até a frente do trem e prende num cano o diretor da cadeia que aparece para pegá-lo. Estão os dois. Manny diz que já é livre. Vai ao final do vagão, desengata o vagão com o colega e a garota, sobe no teto da máquina e some à espera da batida. Mas o que me importa aqui é outra coisa. Manny não tem ninguém ao seu lado. Não quer ter ninguém. Mesmo sua atitude de salvar o colega e a garota não é essencialmente de compaixão. Ele se fecha nele mesmo e avança para a morte.

É difícil sentir compaixão desse tipo de pessoa. Pois, embora ele exemplifique de certa forma o ser humano em geral, e o desejo de liberdade total, ele, enquanto pessoa, não expressa qualquer conexão com o outro. Ele nasce, vive e morre sozinho. Claro, no filme ele, Manny, até que expressa certa sabedoria, quando por exemplo diz ao colega o que ele deveria fazer se saísse rumo à sociedade, num trecho que para mim é clássico. Mas Manny está sempre só.

Já XXXX, em “Liberdade Condicional” (On Parole), interpretado por Dustin Hoffman, e baseado num livro do já citado Bunker, parece sofrer do mesmo destino. Personagem retirado de um dos primeiros livros de Bunker, XXXX vive um desespero fundamental. Ele quer sair da vida que ele assumiu para si, a vida de um bandido, assaltante de bancos, mas parece também não conseguir. No filme, conhece uma garota, que até gosta dele, mas ele não consegue encarar a situação. Numa cena clássica, o ex-con interpreta a abordagem do agente da condicional como se estivesse sendo achacado – o que é até certo ponto verdade.

Mas ele, o tempo todo, parece não reparar no preço que precisa pagar por ter assumido a vida que escolheu – qual seja, desistir radicalmente de tudo, seja qual for o preço a pagar. É como se ele quisesse sair dessa permanecendo o mesmo, ou quase o mesmo. Mas não consegue. Daí que ele prefere continuar fugindo. Vejam, o livro de Bunker, que li, traz uma percepção bastante interessante da situação.

Qual seja, que para um ex-con a possibilidade de ele escapar do seu destino é praticamente inviável, dado que ele é a todo momento achacado pelas perspectivas da sociedade constituída. É como se a sociedade não pudesse admitir deixa-lo ser como ele é. E é isso mesmo. Contudo, o que noto aqui é que é essa exata situação que impede o sujeito, o ex-con, de perceber que ele precisa realmente mudar.

Aqueles que dizem compreender a sina desse tipo de personagem podem entender que ele foi obrigado a isso, ou seja, a continuar fugindo – e de certa forma ele realm ente foi (vêem como digo sempre “de certa forma” ou “até certo ponto”?). Mas também não é verdade. Ele, como qualquer ser humano, sempre pode optar. E ele opta – que é o que aqui me interessa – por manter-se sozinho, à margem, sem contato com o outro, que neste caso é uma garota que parece oferecer-lhe uma saída, uma família, quem sabe.

Sob esse ponto de vista, Joe Cooper, o Killer Joe da peça do mesmo nome (“Killer Joe”, de tracy Letts), encenada pelo Teatro Cemitério de Automóveis, com direção do Mário Bortolotto, é quase um exemplo acabado do inverso. Pois ele, ao engravidar Dottie, a irmã mais nova de Chris, que combina o assassinato da própria mãe por Cooper, e ao se surpreender e entrever uma nova vida bem ao final da trama, parece com isso realmente ver uma nova vida, que ele próprio sabe que escolheu.

Uma nova vida com alguém, no caso Dottie. E olha que tudo se dá com esta matando Chris e ameaçando o próprio Joe, a madrasta, o pai e a si mesma com a arma do assassinato de Chris, recém-cometido. Joe é quase um romântico, agora. Joe, um ser bastante irrisório, parece com isso ver uma luz no fim do túnel, uma vida com alguém, afinal. E logo ele, que tanto usou Dottie, como sinal.

Mas não quero falar deste tipo de personagem, que se salva. Quero falar por exemplo de McNeil, o personagem de De Niro no filme que principia este miniensaio. McNeil leva aquele negro ex-con do começo do ensaio à perdição. Mas ele também está perdido. Enquanto coordena e comete os crimes que fazem a alegria do espectador, McNeil envolve-se com uma garota, designer de capas de CD (isso ainda existe?). Mas ele não desiste da própria vida. E ao final, PODENDO OPTAR entre uma vida calma com ela, fugindo afinal da consequência de seus atos, prefere resolver as contas com Waingro – um assassino serial que atrapalhou um dos assaltos da gangue – e perder com isso a última via que possuía.

McNeil mata Waingro, mas não consegue retomar a fuga com a garota e tenta fugir pelo aeroporto. Morre ao final. Ninguém lamenta sua morte, também, nas mãos do detetive da homicídios interpretado por Al Pacino. Pois esses personagens optam pela solidão fundamental que assumem ao final de tudo. Eles sabem disso, e não conseguimos lamentar seu destino. Mesmo que queiramos. Eles são personagens lamentáveis, mesmo que expressem, como expressam, algo de fundamental no destino de certos seres humanos. Eles não querem o contato. Não querem ser salvos. Preferem seus destinos lastimáveis. Por isso, quem sabe por isso (assumo uma perspectiva pessoal, quando na verdade todos sabemos que a resposta é técnica), a sociedade ainda dispense a eles certo cuidado, dando-lhes a oportunidade da regeneração. Quem sabe por isso algumas religiões se prestem a lhes dar alguma saída. Mas em muitos casos sabemos que eles não têm saída. São condenados de antemão.

Toco aqui um aspecto que merece alguma atenção. Há mais de 15 anos, eu trabalhava como repórter de geral em Guarulhos e visitei as instalações de uma espécie de clínica religiosa de recuperação de criminosos pesados. Lá haviam vários sujeitos estranhos, alguns bastante machucados de confrontos recentes. Mas eles estavam sob pressão. Alguns repetiam continuamente frases com a figura de Jesus. Agradeciam por tudo. Eram observados com muita atenção e até raiva por superiores que pareciam obriga-los a fazer aquilo, a cometerem essas expiações aparentemente permanentes. E não reclamavam. Era como se soubessem que se não fizessem aquilo, se não se submetessem radicalmente, não poderiam escapar de seus destinos aparentemente inelutáveis. Lá eles ficavam meio que sofrendo nesses processos permanentes de expiação.

Voltando aos personagens dos filmes, que se referem a personagens bastante realistas, há diversos pontos aqui que merecem um certo destaque.

Ponto 1. Apenas imaginamos o que esses caras, esses resíduos de resíduos, passaram. Apenas imaginamos os dilemas a que foram submetidos, e a que certos livros – como “Educação de um bandido” e “O Menino”, de Bunker, por exemplo – tentam dar conta. Sabemos que esses dramas muitas vezes não conseguem por eles sequer ser verbalizados. E que são mais complexos do que simples abusos. Mas sabemos também, até pela falta de interesse que eles nos promovem, pelo menos a quem segue a via correta, que esses dramas no fundo não contam para nada na decisão que eles podem vir a tomar. Sabemos que o que em última instância importa não é mais o que eles sofreram ou sofrem. Mas sua (deles) decisão de regeneração. E que de certa forma nem conta também o sentimento que eles podem dedicar para essa ou aquela pessoa, que pode vir a ajuda-los. Pois tudo nesses casos parece tão extremo que não parece ter quase mais base real. É tudo ou nada. E sabemos que muitas vezes personagens desses optam pelo nada. Vai saber. É o contrário, por exemplo, de condenados à morte – cujas histórias, algumas, até viram filmes – que conhecem alguém, normalmente alguma pessoa ligada a uma religião, e antes de morrerem pelas suas próprias penas, encontram alguma paz. Ou seja, que encontram alguém, o outro. Neste caso, nestes personagens em que eu me foco, não se encontra nada nem ninguém.

Ponto 2. Gostaria aqui de adentrar na mente desse ser que decide sozinho só por si mesmo. Digo aqui que ele sabe (melhor, ele sente) que qualquer decisão que venha a tomar já tá decidida de antemão – dado que embora ele possa decidir qualquer coisa, parece que ele não pode mais, dado já ter decidido tanto e tantas vezes antes que parece estar condenado a se repetir. Pois ele sabe que pode, mas que lá no fundo precisa realmente querer – o que sabe ele, não quer. Pois no fundo ele sabe que já desistiu de tudo e que portanto nem dá mais importância ao simples querer. E sabe mais algo: que esse seu querer está na menor decisão que já possa vir a tomar. Pois um bêbado sabe que se olhar a bebida ele já estará decidindo. O ladrão sabe que se ele simplesmente pensar em algo que diga a isso respeito – e esse algo é sempre tão pequeno que escapa a qualquer outra pessoa - ele também estará decidindo. Não é que eles sejam fracos. Eles não são fracos. Eles simplesmente sabem que as decisões são por eles, assim como por qualquer pessoa, tomadas no que há de mais mínimo na vida de cada um. Eles sabem que podem resistir. Mas também sabem que no fundo não querem mais. Não acreditam. Não vêem algo fora de si. E tanto eles sabem que quando afinal decidem pelo nada é porque eles no fundo já haviam decidido muito antes. Não importa nesse caso todo o esforço que eles dedicam a sofrer, a tolerar, a não reagir e a nada mais – em certas ocasiões, por exemplo, ao ser maltratado pelo chefe da lanchonete. Eles sabem que isso, esse esforço de humilhação, é de certa forma tão pequeno que já nem os toca mais (embora eles pareçam sofrer nesse tipo de situação). Eles sabem que por detrás de tudo isso há uma decisão de fundo que eles já tomaram, embora que não os tenha ainda condenado – e que quando se perceberem na roda da vida perceberão o que sempre souberam. Daí a dificuldade, para esse tipo de gente, de realmente escolher a via certa. Que não é para eles no fundo via nenhuma. Porque eles simplesmente não conseguem mais achar que podem escolher. Quando podem, e sabem muito bem disso. Por isso é que muitas dessas decisões no fundo saem do coração e são tomadas pela razão. É o coração que lhes diz, e a razão que os impele. Por isso é que muitas vezes caras como esses precisam ser salvos por alguém. Porque a razão já não lhes mostra mais saída, e eles no fundo se sentem até bem sendo do jeito que são.

Ponto 3. Mas tem mais outro ponto, e ainda mais radical. Pois, como esses sujeitos ultrapassaram a linha, e sabem que depois dela não há mais nada, a não ser o retorno – que eles relutam em fazer –, eles sabem a si mesmos desmerecedores de qualquer coisa. E sabem que aquela que fica do lado deles, a não ser que eles a ela revelem tudo, sabe, de chofre, ainda menos do que eles realmente são. E eles sabem por isso que eles não a merecem, mas sabem tanto mais que, como sabem tanto de um certo tipo de vida desprezível, sabem algo que os outros, e quase ninguém mais, sabe. Por isso, existe neles uma sensação de inferioridade superior, ou seja, de se saberem tão pouco, e tão menos, mas ao mesmo tempo tanto, que sentem-se menores diante do mundo e mesmo diante deles mesmos. Por isso têm tanta dificuldade em decidir. Porque sabem que sabem e que não sabem, e que nada merecem. Esses sujeitos, eu noto, muitas vezes são místicos que passaram a linha, ultrapassaram-na mesmo, e que assumiram para si o preço de tornarem a si mesmos uma espécie de cruz, uma espécie de exemplo, para eventualmente, ao salvarem os outros, salvarem a si mesmos – algo no que eles no fundo não acreditam, pois se sentem numa divisão tão radical que conseguiria, se não fossem tão fortes, destruí-los por completo. Por isso esses caras sabem também o quão importante é o valor do exemplo e como se nota, tão claramente, no outro que está em processo de perdição, em que medida ele começa a tomar essa via.

Ponto 4. Mas esses caras chamam, apesar de tudo, de toda sua irrelevância, de todos os seus erros e sua patente indecisão decidida a respeito de tudo o que envolve o mundo, alguma atenção. Mas chamam a quem? Em linhas gerais, a dois tipos de pessoas. Primeiro, àqueles que se assemelham a eles. Pois eles, em sua perdição e em sua escolha pela via mais difícil, se é que nisso que eles fazem realmente existe alguma via, parecem perder a possibilidade de se deixarem atrair por aqueles que seguem vidas normais. Nesse sentido, esses caras sentem que somente aqueles afeitos a vidas tortuosas e sentimentos tortuosos e dores encalacradas podem, de alguma forma, senti-los. Pois eles sentem que os outros parecem distantes. E nesse sentido não parece haver nada de estranho que seres limítrofes como Suzane von Kristoffen ou ex-ativistas anti-gays se aproximem de seres tão ou mais estranhos. Mas há outros seres que os atraem e se deixam atrair por estes homens e mulheres no limite do limite. Esses seres são seres com um tipo de pureza latente. Pois estes seres sentem, por alguma razão, uma pureza última naqueles seres no final dos finais. E estes, quando ainda não estão realmente perdidos, ainda esperam esse sinal de pureza e vêem nesses seres de pureza especial uma saída, envolvida ou não em algum sentimento de amor, muitas vezes difuso. É como se por um lado os seres perdidos se deixassem envolver pela confiança depositada pelos seres com pureza, e por outro estes vissem e confiassem na recuperação última daqueles seres perdidos. Mas há um problema, aqui. Pois como os seres perdidos parecem não mais dispor de decisão em suas opções, dado que sentem a maior parte do tempo como se estivessem usufruindo do peso das escolhas tomadas outrora, eles também não se sentem, pela maior parte do tempo, decidindo na opção de ficarem com esses seres mais puros, ou totalmente puros. Nesse sentido, embora não finjam, pois não optam pelos seres puros simplesmente por não terem outra opção, simplesmente, também não são totalmente sinceros, pois não sabem realmente tão bem o que fazem. Nesse sentido, estão sempre numa corda bamba, prestes a caírem.

Mas eu aqui irei fazer duas viradas. Primeira, lembrando do clássico Wild Bunch (“Meu ódio será sua herança”), do saudoso (obrigado por me lembrar dos saudosos, Mário) Peckinpah. E por outro – depois, para quem tiver o saco de ler – da Filosofia que ainda me puxa. Porque isto aqui é, sim, generalizável em conceito e em destino geral, pelo menos eu acho e SINTO.

Em “Meu ódio”, a trupe de inúteis do filme termina cometendo uma chacina. Já não podem mais salvar quem eles NO FUNDO nem querem mais salvar – salvar para quê, de quê – e decidem então pegar o mais pesado que sequer se consegue imaginar e matar e morrer e tudo o mais. Ok, são as cenas de violência ultraexplícita que restam e fazem a cabeça e os olhos de quem vem. Mas gostaria de me centrar no momento em que eles escolhem, digo, a trupe.

No caso de “Meu ódio”, cuja história é a de um assalto malogrado e o final em que a trupe decide matar e morrer com a desculpa de salvar um dos membros que foi pego por uma gangue de Estado para ser torturado como exemplo, a trupe guiada por William Holden tinha aparentemente algo a que se aferrar. Ou seja, a vingança ou a tentativa de salvar o que já não era mais possível (lembre-se que eles explodem com tudo após o chefe da gangue matar o torturado). Já no caso dos idiotas de que falo desde o começo deste artigo eles não têm sequer a si mesmo a salvar. E decidem o quê? A violência, matar e morrerem com isso. Eles escolhem não serem salvos.

Como escolhe não ser salvo quem opta pela via inviável com a intenção de ser descartado. Como escolhe não ser salvo quem se considera idiota demais para aceitar a voz do bom senso.

O idiota de “Heat”, o negro ex-co, não tem bom senso, ou opta por querer não tê-lo. Embarca numa canoa furada sabendo que tem o que quer ao seu lado. Pois finge acreditar que o que quer é o dinheiro fácil que muito provavelmente levou-o atrás das grades. Como se fosse esse dinheiro que ela, a garota ao seu lado, quisesse. Quando ele sabe, ele sente, que ela o aceita como ele é.

Como é também idiota McNeil, quando opta por resolver a parada com Waingro achando que precisa ainda cumprir os valores do lugar de onde ele saiu e onde ele não quer mais voltar. Pois ele não vê a garota ao seu lado, nas cenas em que ele, no carro arranjado pelo colega especialmente para ele fugir, percorre Los Angeles que eu conheci rumo ao aeroporto. Pois ele não repara e vê a beleza da cena, ele percorrendo as pontes e sentindo que finalmente saiu ileso, que o fogo no rabo (heat) finalmente não irá pegá-lo. Mas ele não vê. Ele só vê a si mesmo e a sua raiva, e sua intenção de queimar as pontes à sua frente, porque afinal ele é um idiota. Como fez o negão do filme do De Niro, o próprio De Niro fazendo McNeil, o próprio pai quando preferiu se matar a encarar a idiotice, achando que era algo mais do que simplesmente era – e era muito! -, etc. E que homens todos eles eram. Mas como eram idiotas, também. Ocorre que existem também outros tipos de idiotas. Como, por exemplo, o personagem () de “Miami Vice”, que bem ao começo da fita (fita?) se mata jogando-se na frente de um caminhão por ter sido desmascarada sua “deduragem” ao serviço dos “heróis”. O personagem citado é um membro de quadrilha que mantém uma forte relação com os policiais – tanto que possui uma foto emoldurada na própria casa, com eles. Bom, esse cara se mata por não aguentar a possibilidade – que no caso é patente – de ter sua família morta pela situação. Por que ele seria um idiota?

Afinal, ele montou família. Afinal, ele se mata por ter sua família morta. Afinal, ele aparentemente se mata por não aceitar uma vida vazia, sem a família. Mas peraí, rapaz. Como é que você tem família nessa situação em particular? Como é que você joga seus entes mais queridos nessa situação que, como é claro para qualquer cara envolvido em crime, mesmo que em níveis elevados, claramente vai redundar em morte generalizada? Afinal de contas, até McNeil, no filme do mesmo Mann, visa somente ter uma vida com alguém na medida exata em que ele saia da vida de crimes! Já esse cara, o que é, então? Um otário? Não, claramente. Afinal, ele sabe a vida que está levando. Mas é um idiota.

Pois arriscar uma vida com outras pessoas, que muito provavelmente nada têm a ver com sua forma de ganhar dinheiro, é simplesmente inaceitável. Mas a impressão que passa no filme é que o cara realmente pensa nos outros. Claro, até pensa. Mas não atina com a situação. Não vemos comumente casais de criminosos sendo apanhados? Pois normalmente eles dividem essa atividade, sabendo os riscos que ambos correm. Neste caso – neste filme, cujo argumento para mim é bastante falho em diversos pontos –, aparentemente não.

Mas agora irei fazer a segunda virada, que é a filosófica. Pode parecer estranho fazer isto, agora. Pois, afinal de contas, estamos aparentemente restritos ao âmbito eminentemente pessoal e biográfico de certas decisões de âmbito moral que atingem os envolvidos diretamente – os criminosos, a maioria – e indiretamente – seus entes queridos. Ocorre que estava lendo o pequeno opúsculo (redundância, certo?) de Peter Sloterdijk, “Regras para o parque humano”, quando me defronto com a seguinte situação. Sloterdijk fez o livrinho em 1999, em resposta à “Carta sobre o Humanismo”, de Heidegger. A conferência que originou o livrinho fez um bafafá grande lá na Europa naquela época, algo que inclusive desgostou bastante o Sloterdijk pela aparente barafunda de bobagens ou mal-entendidos ditos na ocasião.

Seja como for. Existem diversos textos que fundaram, de certa forma, a filosofia contemporânea pós-Segunda Guerra. Alguns dizem respeito a posturas que deixaram bastantes seguidores – como a “Dialética do Esclarecimento”, de Adorno e Horkheimer, que fundaram o legado da Escola de Frankfurt, e por oposição geraram uns Habermas da vida. Por outro lado, o existencialismo se faz valer de textos de Sartre – “O que é o Humanismo?” – e este, já citado, de Heidegger. A questão é a mesma, em linhas gerais: o que dá para dizer do ser humano após essa catástrofe que originou o Holocausto? Quais as possíveis bases para o entendimento entre os povos e as linhas políticas? O que realmente manda para que o mundo seja como é? E por aí vai.

(incompleto)


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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