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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O mal

Uma das poucas vezes que fui a Buenos Aires, comprei uma enciclopédia rara, ao que parecia, sobre a cultura mapuche ou araucana.


InfoSurHoy1.jpgOs mapuches ou araucanos (nomes diferentes para a mesma coisa, pois um dos nomes é como os índios nomeiam a si mesmos – gente da terra – e a outra como os espanhóis os nomeavam) são os indígenas, encarados de forma genérica, que estavam no que hoje é o Chile antes da invasão e dominação espanhola.

Meu interesse era, na época, verificar o que eu havia mantido – se é que havia – daquilo que aprendera com minha antiga babá, de origem indígena, que foi quem me criou enquanto bebê e criança de colo (na verdade, até os 9 anos, quando saímos do Chile e viemos ao Brasil).

Folheando a enciclopédia, que tem alguns volumes de edição bem simples, reparei em uma explicação sobre como os indígenas do sul do Chile encaram o mal. Na verdade, não era uma explicação enciclopédica. Ela apenas dava uma ideia de um costume dos indígenas associado a essa ideia, do mal.

Um ponto que ainda me atrai a atenção é quando lá na enciclopédia consta que os indígenas se preocupam muito mais com aquele a quem um mal é cometido do que com quem originalmente o comete.

Segundo a enciclopédia, quando alguém sofre um mal os indígenas ficam de olho nele. Pois se sentem que ele quer se vingar de algo, de alguma forma o anulam – inclusive o matam. Ou seja, os indígenas, ao que parece, segundo esse costume, não buscam instaurar a justiça, revertendo o mal contra quem foi prejudicado. Mas buscam apenas evitar o pior. E para isso usariam da violência, até extrema.

Não sei se por causa disso, sempre que surge um conflito eu me preocupo com as pessoas envolvidas depois dele. E quando me meto em um conflito, tendo a me centrar naquilo que restou. Pois se restou animosidade eu me preocupo. Realmente me preocupo e fico intranquilo.

A sociedade ocidental – e não só ela – tende a tratar a ocorrência de crimes punindo o transgressor e afastando-o do convívio. Os índigenas lá do Chile não vão nessa direção. Não instauram punição e preocupam-se com o todo resultante. De forma a não inviabilizar o convívio dos opositores.

Talvez tudo aquilo – essa forma de ver a questão – tenha a ver com o fato de eles, os indígenas, não constituírem Estado, ou seja, um poder centralizado, e com o fato de eles saberem que terão de continuarão convivendo em suas terras.

Seja como for, sinto algo de leve e tosco nessa visão que eles aparentemente têm do cometimento do mal. Leve pois não encaram tudo enquanto crime e castigo; e tosco porque eles afinal dispõem-se a usar a força extrema contra o prejudicado por algum fato qualquer.

Mas há algo que sobressai nisso tudo. Uma espécie de noção de que a vida é igual para todos; que cada um tem os seus critérios para fazer algo a alguém, e que se os envolvidos não solucionarem a questão isso não é problema de ninguém.

Daí que matar o prejudicado seria aparentemente a única forma de todos se resguardarem de um problema alheio com possíveis repercussões para todos. A única intromissão do todo na vida de qualquer um. É interessante.


Contreraman

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