o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Otavalo, Equador

A feira de Otavalo, no Equador, é a maior feira indígena do continente. Foi isso que motivou a mim e a minha então esposa a visitar a cidade. Eu já havia gostado bastante de Quito, a capital, e para ir a essa pequena cidade bastaria um ônibus.


OtavaloMarket-BeanPickers.jpgA cidade é pequena mesmo e a feira, ainda menor. Ocupa um quarteirão quadrado bem no centro da cidade e conta com centenas de quiosques. Lá eles vendem pulôveres, ponchos e uma infinidade de peças de tecidos diversos. Quem frequenta a feira é normalmente o turista curioso, e na época era comum aceitarem dólares.

Ficamos num hotel bem próximo à praça central e esperamos a noite passar para ver o que faríamos. A feira é, se não me engano, aos domingos, e começa bem cedinho. Lembro-me que tão logo a vi, vi tudo, e por isso não me animei muito a procurar artigos legais. Como é foda esse negócio de turismo assemelhar-se tanto a fazer da viagem uma visita a um shopping. Mesmo se naquele caso fossem quiosques ao ar livre, numa cidadezinha bem tranquila.

Eu estava na época fissurado em conseguir reproduzir o som rasgado dos charangos que ouvia em algumas músicas do Inti Illimani, grupo famoso chileno. Por isso queria comprar um charango, e a possibilidade de levar a carapaça de um tatu (usado muitas vezes para o instrumento) me atraía bastante. Mas fiquei sabendo que a carapaça do animal continua crescendo mesmo com ele morto e estragando o instrumento. Daí optei por madeira mesmo.

Achei uma lojinha na praça central da cidade e conheci o dono, José Panamá, charanguista, líder de um grupo local e além de tudo empresário. Conversamos e levei um exemplar. Fiz a cabeça dele com respeito ao Brasil e tudo, mas isso conto daqui a pouco. Importa é que eu não tinha saído de mãos abanando, pelo menos, ao visitar aqueles rincões do pequeno país. As lojas musicais em Quito eram muito caras e não tinham aquele toque que eu esperava. Algo local. Eram lojas para estrangeiros de grana.

Os lojistas dos quiosques tentavam nos enganar. Queriam nos passar notas falsas. Percebi isso mais de uma vez. Eu havia sido avisado por alguém. Não dava mesmo para confiar. Já as peças de roupa não pareciam, muitas vezes, tudo aquilo. Essas impressões iriam ficar indeléveis, apenas, se ao almoçarmos a atendente do hotel não ficasse conversando conosco. Ela ficou quase nossa amiga, em empatia aparentemente imediata. Um dia explicarei falando sobre mim, na época. Ela nos convidou a visitar sua casa, sua mãe, em suma, sua família.

Ficava a meio caminho a lugar nenhum de ônibus. Fomos. Chegamos num acostamento na rodovia de mão única para cada lado. Subimos um trecho de terra a pé. Não parecia viver alguém por ali. Andamos um pouco, num descampado paupérrimo e chegamos numa casa simples. Chão de terra até lá. Piso de terra batida na residência. Entramos. Moscas. A mãe estava lá – não me lembro se trabalhava. Num tear de madeira tão rústico que deixava no chinelo qualquer demonstração de arte pré-colombiana. Não imaginei que aquilo funcionasse. E ela vivia disso.

O lugar cheirava mal. As moscas dominavam. Ela, a menina, queria tirar fotos conosco. Queria que lhe déssemos as fotos impressas. Não pediu nada. Parecia mesmo orgulhosa do feito. Levar estrangeiros para conhecer sua família. Tiramos as fotos. Eu estava ficando horrorosamente incomodado. Queria chorar. Não conseguia. Não iria chorar. Tiramos as fotos. Ficamos uns 15 minutos, quando muito. Ela, a garota, estranhou. Mas minha esposa foi muito simpática e eu fingia que estava gostando, que estava bem.

Não sei como não chorei no ônibus de volta.

A garota não nos esqueceu. Ligou de Otavalo para mim diversas vezes. Eu tentei atender, mas não sabia mais o que falar. Eu ainda devo ter as fotografias e gostaria sinceramente de lhe dar o que prometemos. Mas fiquei tão desolado diante do que vi que mal consigo ainda hoje aguentar. É assim que vive aquele povo. É assim que concorrem, com peças de extremo bom gosto e feitas sem maquinário, ou seja, sem oleosidade, contra outros indígenas que transformaram essa expertise num negócio para gringo levar para seu país. Pois existem roupas com cheiro estranho. Essas são feitas com máquinas, ou seja, envolvem óleo, que contamina a roupa com um odor característico.

Passaram-se 7 ou 8 anos desde que tudo aconteceu. Só consegui contar agora.

A situação envolveu-me numa revolta tão sub-reptícia que somente às vezes sinto o cheiro da morte – em mim.

Podem se perguntar como tudo reapareceu em minha alma, agora. Foi ao ver a foto de uma garota aliás muito bonita amiga do José Panamá, que é meu amigo no facebook. Cara que merece uma outra história.


Contreraman

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