o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

De braços abertos em busca de um abraço que não vem

Sempre acreditei na bondade do ser humano. Talvez por isso eu tenha sido por muitos e muitos anos um adepto completo e consumado de Rousseau, apesar de muitas evidências em contrário.


383_handCrucifixionGrunewaldC1515CROP.jpgHouve um momento, porém, em que, vendo uma reprodução de uma tela do pintor Francis Bacon num jornal de sábado (o finado Jornal do Brasil), passei de repente a acreditar em que a existência é má. Não que ela, a existência, seja mais ou menos má ou mesmo essencialmente má. Não, a existência mesma é má.

Não li qualquer existencialista ou pessimista para chegar a essa conclusão. Simplesmente cheguei a ela como um poeta chega a uma poesia. Pela constatação pura e simples de que é assim, e – mais ainda – de que nem preciso argumentar para defender essa posição. Isso é o que sinto.

Não comecei este texto pensando nisso, mas agora peguei-me refletindo sobre uma imagem que me acompanhou o dia inteiro, e que realmente tem tudo a ver com isso que acabo de lhes falar: as imagens daquela transexual que desfilou em São Paulo na 19ª Parada Gay. Uma moça chamada Viviane.

Acabo de ver uma dessas imagens da garota, que vem acompanhada da seguinte citação: "Sou responsável por tudo o que eu faço ou apresento e não pelo o que você entende." (Antonio Viana)

Eu não quero realmente discutir a imagem, os supostos desrespeitos que comete, as ofensas que recebeu a partir do ato, as mensagens de apoio, e tudo o mais. Queria apenas imaginar como ela deveria estar naquele momento se sentindo. E como isso compartilha minha impressão de que a existência é má.

Sinceramente, imagino que tudo isso – a parada, a exposição, e tudo o mais – deva ter correspondido a ela uma fantástica experiência catártica. Sou ator, embora bissexto, e sei o que isso significa para quem assume-se como objeto dos olhares alheios.

Imagino o momento em que ela se armou. Imagino sua impaciência ao subir à Cruz. Imagino seu medo de ser vaiada – por alguns. Imagino a alegria de ser assinalada por suas iguais. Imagino aquele momento em que ela, abandonada a si mesma, e até mesmo entediada de ficar lá pendurada, deva ter finalmente pensado: essa sou eu. Lembra-me aquela atriz, de cujo nome não lembro, que fez Joana D’Arc num filme clássico francês de que até o Artaud participou.

Tenho visto, pessoalmente, nos últimos dez anos, diversos confrontos entre transexuais, travestis, e outros tipos de homossexuais em bares na região da Augusta – que já é, por si só, uma região bastante liberal a respeito. Em quase todos esses confrontos, as transexuais reclamam apenas de não serem tratadas como seres humanos.

Todas elas jogam, naqueles exatos momentos, uma raiva que sempre me comove – e que sempre acaba em nada. Elas sabem de seus direitos, quase sempre, mas resolvem ir embora, aos gritos, do seu jeito.

Da última vez que vi uma cena dessas, estava com uma amiga num bar de esquina na Augusta. Fomos naqueles momentos abordados por vários travestis ou transexuais, cada um pedindo uma coisa. Eu, que tradicionalmente nunca fui muito simpático no trato, tratei todos eles com uma educação que, sem exceção, comoveu-os bastante. Um deles até disse, no começo da conversa: “puxa, vi o sr. e pensei que já fosse me dar uma dura, mas não, o sr. é carinhoso”. Confesso agora que quase chorei na hora.

Eu não teria coragem de viver conforme a lei que elas mesmas criaram para si mesmas: qual seja, a lei de serem o que são, custe o que isso custar. Deve ser massacrante, e deve ser por isso mesmo que na década de 90 eu ouvia histórias e mais histórias de homossexuais pobres caindo aos borbotões de prédios da região do Glicério, onde então eu trabalhava.

Diante de tudo isso, em que medida pode me afetar o gesto dessa transexual Viviane a não ser na sensação de que deve ter sido para ela um ato de suprema revelação e autorevelação, e de que qualquer outra convicção de qualquer um a respeito é absolutamente irrelevante (ao menos para ela)?

Eu venho tentando o tempo todo, desde que minha vida mudou completamente, colocar-me no lugar do outro. E isso, surpresa, tem se mostrado em geral bastante fácil – desde que eu me recuse a pensar por mim mesmo, a pensar segundo categorias quaisquer, e me proponha a ouvir, ver e sentir. Os frutos têm sido imensos.

Chego a sentir enjôos com os argumentos jogados de um lado e de outro contra ou a favor do gesto, de tudo o que ele envolve, e das consequências. Isso realmente não me interessa. É estupidificante colocar-se na arquibancada em momentos em que o ser humano em si é o que está em jogo, o ser humano particular e todo o peso de liberdade que sua existência supõe.

Porque, como já disse, a existência, para mim, é má. O homem pode até ser bom – e não sei se é. Mas basta existir que – parece – ele torna-se simplesmente mau. Consigo e com os outros. Não à toa, numa história da Filosofia da Idade Média, lida há muito, eu lera que havia uma corrente que dizia que Deus, sendo bom, ao criar o mundo, fê-lo por meio do seu inverso, o chamado Demiurgo, que seria uma espécie de Deus menor.

Não concordo com o que este texto conclui, mas ele fala algo a respeito disso: http://formacao.cancaonova.com/igreja/doutrina/o-que-e-o-gnosticismo/

Claro que não estou aqui pretendendo discutir doutrina nem nada similar. Simplesmente comecei dizendo quanto àquilo que eu pareço sentir em toda a minha vida, e que é o que eu já disse: o ser humano pode ser bom, mas a existência é má (o que não tem nada TÃO a ver, necessariamente, com a doutrina gnóstica, que leva a consequências).

Foi triste para mim reparar em tudo isso, caso queiram saber. E isso só aconteceu quando todos os meus sonhos capotaram e quando eu simplesmente devo ter começado a realmente enxergar o que se passava na minha frente. Bacon foi apenas um catalisador.

Lamento, claro, que isso seja assim. Lamento por vários motivos, mas especialmente porque eu mesmo existo e nesse sentido, se a própria existência é má, estou como todos em maus lençóis. Talvez não seja assim, é claro. Mas creio que, assim sendo, cumpre-me pelo menos recusar as consequências advindas de tamanha privação, e daí meter-me a tentar realmente ser bom e fazer o que posso nesse sentido.

No caso da transexual, gostaria tanto que a deixassem em paz. E que admirassem o que viram como uma demonstração, humana e portanto sempre patética, de tentar consertar o que jamais terá conserto. Qual seja: sempre haverá quem queira matar e destruir o que não entende. E não entende porque simplesmente se recusa a sentir. O resto é doutrina. Se boa ou ruim, a mim pouco importa. Simplesmente assim. 383_handCrucifixionGrunewaldC1515CROP1.jpg


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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