o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Fazer sentido

“O Estrangeiro”, de Camus, é um dos livros que melhor expressa, em minha opinião, o sentimento de parecer estar “de fora” do mundo, “como se” nada nos tocasse. Lembro-me em especial de uma passagem em que o protagonista narra sua resposta à morte da mãe. Como se apenas algo tivesse acontecido.


1f0e3dad99908345f7439f8ffabdffc4.jpgAs “ciências” humanas parecem, a esse respeito, chamar o tempo todo a atenção ao fato do “outro” e ao “sentido” das coisas na nossa vida. A fetichização das mercadorias, a alienação, a outridade, e mesmo a constatação freudiana de que fazemos coisas de que não nos damos conta – mas nos damos – estabelecem essa espécie de desconfiança diante do que fazemos. Na minha opinião, restringir esse cuidado a “ciências” como essas parece-me insuficiente – mas ao menos para isso elas parecem tentar realizar alguma coisa.

O mundo contemporâneo, que começou em seus traços gerais com isso que ficou na história como a Modernidade, remete a essa “disputa” entre aqueles que, por meio de religiões ou arrazoamentos diversos, insistem em atribuir um sentido externo às suas vidas (esses que irei chamar de fundamentalistas da vida), e os outros que parecem haver se rendido e sentem que a vida não tem sentido e nem pretendem mais apostar nisso. Num meio termo, existem esses, como eu (pois incluo-me nessa categoria de gente), que, se por um lado negam arrazoamentos os mais diversos (religiosos, filosóficos, etc.), por outro ainda tentam escapar de um sentido “anômico”, anêmico ou mesmo cínico de tudo aquilo que lhes acontece. Esses não recaem na crença, pura e simples, mas também não sucumbem à tentação de simplesmente deixarem-se levar à desrazão de uma vida mal-ajambrada – consequência do imediato oposto ao primeiro, a descrença.

Gostaria a este respeito indicar algo de que venho aos poucos me dando conta nos últimos anos (e que nas últimas semanas vem assumindo um caráter realmente relevante em minha vida), que é a distinção entre viver uma vida determinada, dominando suas variáveis mas sem nela efetivamente se envolver, e viver essa mesma vida atribuindo-lhe, em seu âmago, um sentido qualquer. Não digo um sentido especial ou transcendente, superior à mera vida, tal qual ela se dá. Digo um sentido efetivamente assumido.

O Estrangeiro

O que é possível perceber em “O Estrangeiro”, de Camus, que não seja necessariamente uma percepção que leve a discussões estéreis sobre influências ou eventuais “mensagens” no texto, ou que não recaia em psicologismos que naturalmente muitas vezes acabam levando a conceitos que o próprio Camus deve ter odiado, se fossem empregados a seu respeito.

Mersault, o protagonista, não parece sentir o que acontece. A mãe morre e para ele isso é um fato. Não que não seja um fato – claro que essa morte, como qualquer uma, é um fato. Mas para ele esse fato parece ser apenas isso, um fato. E sendo um fato pode ser ou pode não ser relevante. No caso desse fato, não é (ao menos para ele). Um detalhe: a mãe dele não é “sua” mãe, mas apenas “a” mãe. Por que não é um fato relevante?

Vejamos o trecho: “Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames". Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.” Vejam: o falecimento talvez tenha sido ontem. Se o asilo mandou o telegrama hoje, o enterro seria amanhã. Se mandou no dia, seria hoje – e ele teria perdido. O questionamento dele é quando foi o falecimento. Este perde importância. A frase-chave é “Isto não quer dizer nada”. Não importa o nada que isto parece não dizer. Importa que isto (o falecimento, o enterro, a frase, os pêsames, o telegrama, isto tudo) NÃO QUER DIZER: e isso que não diz é nada.

Um outro indício de que ele não sente ou tem dificuldades em sentir é o trecho a seguir: “Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele não me podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe "A culpa não é minha". Não respondeu. Pensei então que não devia ter dito estas palavras.” Tudo para ele parece externo. “Com um pretexto destes” tem um leve ar de troça. Ao se meter a dizer algo (“A culpa não é minha”), o que ele diz é absurdo e por outro lado ele “pensa” que não deveria ter dito as palavras.

Outra característica do personagem é que ele repara em muitos detalhes ao mesmo tempo em que consegue aferir rapidamente o que está acontecendo. “Dois besouros zumbiam, de encontro à vidraça.” “Viam-se apenas parafusos brilhantes, mal enterrados, destacando-se da madeira pintada de casca de noz.”. Os detalhes mostram que ele está atento, mas aparentemente àquilo que vem de fora. Parece que ele não sente acesso ao seu interior.

Outro detalhe final, para não me estender demais, é que ele, o protagonista, é sincero. “Dissera-me que era preciso enterrá-la depressa, porque na planície fazia muito calor, sobretudo nesta terra. Fora então que me confiara ser de Paris e que dificilmente o esquecia. Em Paris fica-se com o morto, às vezes três ou quatro dias. Aqui não há tempo, mal nos habituamos à idéia e temos logo que correr atrás do carro funerário. A mulher dele dissera-lhe então: "Cala-te, não são coisas que se digam ao senhor". O velho corara e desculpara-se. Eu interviera para dizer: "Não, não..." Achava o que ele estava dizendo verdadeiro e interessante.”

Mas é uma sinceridade interessante: nela pode aparentemente caber tudo. Tipo: “tive vontade de matá-lo. Matei o sujeito na frente de todos e me acalmei”. É uma sinceridade que estabelece uma tensão com base no desconhecido – a partir do conhecido. Pois (leve leitura) é uma sinceridade que supõe um comportamento “pressuposto”, o qual, por não ser cumprido, cria uma tensão com base no desconhecido.

Apenas com base nessas características, já dá para supor que o protagonista Mersault parece ter algum “problema” de ordem empático (ou seja, de empatia, em alemão einfühlen, que é, de forma muito genérica, sentir o outro em seu (próprio) lugar, ou sentir-se no lugar do outro). Mersault parece ter dificuldades em sentir a si mesmo e, claro, em sentir o outro em seu (do outro) próprio lugar. No limite, como muitos de nós sabem, essa ausência de empatia pode levar à psicopatia, que é a ausência absoluta de identificação com a outra pessoa, enquanto pessoa. O psicopata, sabem muitos de nós, não sente realmente nada, quando faz algo ruim ou bom, mas somente “sabe” o resultado.

Mas imaginemos que Mersault não tenha algum distúrbio de ordem psicológica. Imaginemos que ele seja uma pessoa normal que por motivos diversos tenha recaído nesse tipo de situação interna. Perguntaria a mim mesmo como é que ele se comportaria face situações comuns, e não diante, como no caso do romance, da necessidade de velar e enterrar a mãe.

Houve uma época em que eu entendia esse tipo de comportamento como “nominal”. Ou seja, a pessoa recebe uma informação e a entende tal qual ela aparece, como uma palavra que diz alguma coisa. A pessoa retira, para melhor compreender, todo o contexto envolvido, até mesmo o fato de essa informação dizer respeito a pessoas em particular, e reconhece a frase nominalmente, enquanto nome. Isso assim acontece aparentemente devido a alguma limitação congnoscitiva (de conhecimento) da própria pessoa. Como se a inclusão de outras variáveis, não nominais, confundisse a pessoa, e lhe mostrasse algo de que ele realmente não pudesse ter controle.

Percebo hoje que isso (considerar dessa forma) é muito limitante. Pois noto que o que realmente acontece é que, ao se defrontar com um fato, a pessoa é, em primeiro lugar, defrontada, claro, COM UM FATO. Não é que a pessoa não perceba o que acontece, em seu devido contexto, ou não perceba que pessoas outras estão envolvidas, nem que a pessoa RETIRE o contexto e as pessoas do meio da informação, mas o fato é que a pessoa está, sim, diante de um fato, em primeiro lugar.

No caso de Mersault, o fato é o anúncio da morte e do enterro da mãe. Por sua vez, quando ele diz “Isto não quer dizer nada”, ele simplesmente está traduzindo aqueles fatos em algo que ele possa manusear (reparem em “poder” e em “manusear”), e que para ele, como bem diz, não parece querer dizer nada (seja qual for o momento da frase escolhido, que pode ir desde o anúncio da morte, o anúncio do enterro, ou os pêsames – hipótese mais plausível).

Um excurso biográfico. Quando meu pai morreu, havia um clima estranho no ar, eu me lembro. Mas me lembro também que, seja lá o que fosse que estivesse acontecendo, era necessário fazer algo – tipo, ir à delegacia comunicar o falecimento, ligar ao IML, fazer algo com o colchão em que ele dormia, era necessário “fazer” algo.

Quando uma pessoa tá no limite, a ela muitas vezes só lhe resta mesmo isso: limitar aquilo que lhe é dado àquilo a respeito do que ela possa fazer alguma coisa. Não “perder tempo” com coisas pouco práticas. Claro, a situação não é bem assim. Um falecimento envolve emoção, quase sempre. Mas há aqueles que simplesmente sentem que não adiantaria, nem estão dispostos, caso não sintam nada, a fingirem que sentem. Ou não querem expressar o que realmente sentem (alívio, por exemplo).

Uma história que pelo que me contaram é verdadeira: uma doméstica, após ver seu filho cair e ser atropelado por um ônibus, continuou com sua vida inalterada, aparentemente sem se deixar afetar. Perguntada, teria dito que precisava continuar e que não podia enlouquecer. Não conto a história tentando passar uma mensagem. Simplesmente digo que eu determinadas situações certas pessoas podem considerar, pela própria sanidade, restringirem-se aos fatos ao invés de elocubrarem em sensações ou sentimentos, aos quais poderiam, quem sabe, sucumbir. Mas voltemos. Assumindo que o protagonista de O Estrangeiro não apresente distúrbio psicológico, podemos assumir que ele, ao pensar daquele jeito, possa ser considerado uma pessoa normal? Uma pessoa com sentimentos, com comportamento coadunado com alguém que viva em sociedade? Pode-se acaso assumir que pensando assim a pessoa possa não ser considerada um risco à sociedade? Afinal, ele não fez nada de errado, digo, o protagonista.

Lembro-me, nesse ponto, do livro e do filme “O Psicopata Americano”, em que, nas telas, um jovem Christian Bale representa um sujeito envolvido na década de 90 e em toda sua opulência que se mete a cometer crimes de diversos tipos pela simples satisfação de seu prazer egoísta. Esse sujeito, conforme o livro, é um psicopata, afinal. A ele, aparentemente, não poderia ser permitido compartilhar do mundo como a nós, seres humanos compassivos que sentimos uma ligação com nossos semelhantes – ou mesmo diversos, como com os animais. Mas não gostaria de ater-me a este livro, já bastante conhecido. Gostaria, ao invés disso, de comentar alguma coisa sobre a literatura sociológica, filosófica e psicológica/psiquiátrica que comenta o anomismo emocional (eu “bolei”, muito irresponsavelmente, este termo, referindo-me a uma espécie de emoção “sem lei” (a – nomia) que aparentemente conjuga vários desses estados psicológicos e situações de fato) que aparentemente rege esta nossa sociedade contemporânea. Claro que, cientificamente falando, estou sendo bastante irresponsável, em primeiro lugar por parecer querer abordar tudo sem a conceituação prévia que poderia me dizer algo já de cara sobre os diversos fenômenos envolvidos. Mas corro o risco.

Sociologia

Não quero ser superficial, parcial ou irresponsável. Mas, mesmo vindo do jornalismo (tido como um campo das ciências humanas, genericamente falando), não compartilho com o ponto de vista genérico da Sociologia ou Filosofia, de que tudo o que vem desses ambientes (mesmo os dados empíricos) pode ser considerado como embasado em metodologia científica. Levei muito tempo e uma certa autocrítica para chegar a este ponto. Pois creio saber diferenciar a intenção da concretização, e SE ciência é, como os clássicos do Iluminismo mostraram, um corpus teórico que se propõe experimental (baseado em experimentos e reproduzível a partir de então sob determinadas condições), muito do que vejo, que é defendido como sendo científico, para mim – independente dos seus méritos – não necessariamente científico. Confirmem-me, por favor, se a Psicanálise é ciência, por exemplo. Eu não considero. Ou que o estudo de caso é algo científico (independente da área em que ele seja utilizado). Eu não considero. Claro, olhando com menos rigor (ou com um rigor distanciado do rigor das ciências exatas, não necessariamente o único), esses exemplos podem ser considerados exemplos de conhecimento científico. Mas eu não me atrevo a dizê-lo. Posso até compartilhar preocupações ou mesmo (temporariamente) conclusões a partir de metodologias diversas adotadas, mas isso não equivale a dizer, ao menos para mim, que isso tudo é ciência.

Vou abordar, sem intenção de fazer um trabalho exaustivo, algumas vertentes do pensamento sociológico e filosófico (psicológico, não, necessariamente, embora toque en passant alguns temas) em vigor que levam as discussões para o campo do “entender o outro” ou “combater o estranhamento” (estas denominações são, é claro, inteiramente arbitrárias). Alguém pode achar que com isso estou começando a criticar a ênfase humanista das ciências humanas. E tenho de admitir: sim, estou criticando.

Muitos dos meus estudos em Filosofia na USP viram-se às voltas com a Escola de Frankfurt. Sobre ela eu já havia lido e aprendido, embora mal e porcamente, na ECA, onde fiz Jornalismo. Não tenho como resumi-la, nem é a intenção, mas um aspecto nessa escola que é preciso ressaltar é a questão da crítica à razão instrumental. Há diversos livros, dos fundadores da escola e de seguidores, que insistem em tocar nesse aspecto. Sendo muito superficial, diria que bastante da busca desses pensadores diz respeito à intenção de supor a existência de uma racionalidade que não se funde no Humanismo, necessariamente, mas que não coisifique o ser humano e aquilo que é eminentemente social. Outra mensagem importante dessa escola dizia e ainda diz respeito ao conceito de Indústria Cultural. Claro que boa parte do embasamento desses pensadores vem do marxismo e da noção de fetiche – o caráter fetichista da mercadoria.

Sendo bastante idiossincrático, diria que essas lições passadas na faculdade serviram para colocar em questão o papel da razão na sociedade moderna e contemporânea e a colocar em dúvida o próprio trabalho de informar numa indústria que também entretém e que tende a tratar a cultura como algo vilipendiável. Agora, criticando bem acidamente essa postura, eu diria: e daí? Não necessariamente discordo do fato de que, por ser indústria, a chamada indústria cultural trata bens de baixo e alto nível como produtos que obedecem a uma lógica externa ao mérito das criações. Nem discordo da ênfase num pensamento crítico a respeito. Mas, se por um lado reputo como no mínimo tendenciosa a postura eminentemente favorável a leituras desse calibre, por outro resumo o que me foi dito (restringindo-me a essas “mensagens”) a uma dúvida quanto ao potencial libertador da razão e a uma desconfiança em relação ao próprio mercado aonde eu iria trabalhar. Ocorre que eu nunca comprei inteiramente o pacote que me era dito e ensinado. Muito ao contrário.

Colocar a razão instrumental em questão e apostar ou desapostar de forma envergonhada em Humanismos defendidos por gente do calibre de um Heidegger ou Sartre significa, para um estudante disposto a aprender, deslocar a questão do aprendizado para uma busca da outridade, alteridade, etc. Não à toa, ao que parece, a discussão posterior de um Habermas foi na direção de uma teoria comunicativa. Só en passant, contudo, é bom notar que as grandes conquistas da Filosofia Política contemporânea não se deveram necessariamente a ele, mas a um interlocutor – John Rawls – que apostou na institucionalização de uma nova lógica de poder político a ser fundada na Justiça. Como ficaram os frankfurtianos? Reclamando do mesmo de sempre, sendo que a todo momento surgem novos autores – Agamben, por exemplo – que insistem na via crítica achando cabelo em casca de ovo (não que eu não os aprecie, só agora, passados muito tempo, sinto sua (deles) virtual irrelevância prática).

No âmbito do ser humano, contudo – que é o ponto que realmente me interessa –, em que direção levam essas leituras e abordagens? A razão instrumental, nesses contextos, torna-se passível de dúvida atroz, como se, ao fazermos ciência, ou ao manipularmos dados estivéssemos necessariamente contradizendo os interesses nobres de uma sociedade politicamente engajada, ou nos tornando reféns de nossos próprios empregos em prol de ideais que não nos foi dado criticar. Tornamo-nos críticos, na melhor das hipóteses, ou descrentes, numa pior. Insisto, eu nunca compartilhei de todo desse tipo de leitura da sociedade, pois, se por um lado os “esquemas” úteis não serviam para explicar ou proporcionar ferramentas tanto quando prometiam, essas leituras me deixavam preso a uma crítica que virava mero papo furado, quando mal desenvolvida – e tem muita gente que desenvolve muito mal esse tipo de pensamento, como a própria experiência de ECA me mostrou.

Desde que eu saí da FFLCH, outro aparente “luminar” no pensamento que se diz crítico é o Zygmunt Bauman. Não o desconsidero, se querem saber, dado seu passado como pensador de origem estrangeira e seus pensamentos sobre a “liquefação” do pensamento e da realidade, que entranham uma profunda descrença dos valores e das instituições, assim como do próprio futuro, mas penso aqui comigo em que medida ele e suas reflexões conduzem, na realidade prática, a melhor pensar o que efetivamente acontece. Pois vejo que na maioria dos casos seus livros são usados como esteio para quem precisa demonstrar que as coisas parecem mais instáveis do que efetivamente podem ser. Longe, claro, de dizer que ele não merece o posto que tem, enquanto pensador que reflete sobre as questões mundiais, só me questiono se realmente sua abordagem é, na prática, eminentemente relevante.

No caso do ser humano comum, esse tipo de pensamento “liquefeito”, claro, acaba conduzindo o cidadão a refletir na efetiva duração ou durabilidade de suas relações, de seus vínculos familiares e até empregatícios, a considerar que não está preso a nada por si só, dada a desconfiança entranhada nesse tipo de pensamento a qualquer coisa que efetivamente se proponha a durar ou mesmo que dure, e claro, a duvidar de tudo o que aparente mensagens que remetam a passados que podem ter sido deixados lá atrás, seja enquanto realidades, seja enquanto idealizações. Um pessimismo avassalador aparenta estar por detrás desse tipo de pensamento, e não é à toa, isso. Tudo o que, em desacordo com ele, parece sustentar-se é, de chofre, e sem utilizar argumentos, colocado na berlinda e denominado ultrapassado. Para que romantismo se os casamentos não perduram? Por que religião se nada mais parece sustentar a própria noção de crença ou de acreditar? Por que buscar uma relação empregatícia marcante se assumimos que, por diversos motivos, as estruturas parecem nos dispensar como objetos tão logo a lucratividade é ameaçada? Um pessimismo que, como é claro, por muitos é vendido como lucidez. Não nego, com isso, que muita realidade empírica leve a pensar as coisas dessa forma. Que a família tradicional perde aos poucos a centralidade, isso é certo. Mas o que é apostar nas adoções homossexuais se não apostar num tradicionalismo diferenciado? O que me pega nesse tipo de leitura é a ausência quase inviável de nuances. Não há contentamento em ver o fato; parece ser necessário insistir no oposto: um ideal feito de tendência mas abordado como fato inquestionável. Isso me irrita.

Deixando um pouco de lado o polonês, outra vertente do pensamento progressista na Sociologia também teima em deixar marcas: a aposta no “qualificado”. Quero me referir, ao dizer “qualificado”, a todo aspecto social – e mesmo individual – cujo valor visa decorrer de uma qualidade intrínseca ao fato de ser único, intransferível, inviolável (ou que teime em sê-lo). Refiro-me por exemplo a todo valor atribuído ao caso, à experiência particular, ao exemplo. Na ciências sociais, essas ênfases ao individual remetem ao estudo de populações a partir de depoimentos, por exemplo; ou ao estudo da história oral; ou ao estudo de uma determinada estória ou história que se propõe emblemática para ilustrar uma determinada situação – de opressão, de injustiça, de alienação, etc. Em geral, essas apostas no qualificado visam convencer não mais com base em estatísticas ou num olhar pretensamente científico sob o prisma “exato”, mas com base no aprofundamento em uma questão e história particulares para com ela convencer de outra forma – ou ao menos esclarecer pontos que sob outro ponto de vista mal existiriam. No jornalismo, esse tipo de abordagem recai muitas vezes em relatos de maior aprofundamento, com perfis de pessoas anódinas, com entrevistas aprofundadas buscando a história de determinados personagens reais, etc. Na história do jornalismo, esse tipo de abordagem muitas vezes conduz ao chamado New Journalism, de um Tom Wolfe, Truman Capote, Guy Talese, etc – não nos esquecendo que o argentino Rodolfo Walsh os antecedeu em décadas, só para promover um pingo de justiça neste quesito.

Essa minha crítica não desconsidera que a opção pelo “qualificado” é uma ferramenta como qualquer outra de conhecimento. Houve até uma época em que eu era focado em especial em pesquisas qualitativas, das quais participei seja como participante seja como observador escondido, que na época eram para mim a forma pela qual eu poderia, quem sabe, descobrir verdades que a quantitatividade não permitiria. De fato, há muito mérito e muito conhecimento de alto nível em muito do que é feito em abordagens “qualificadas” em muitos ramos do conhecimento. No jornalismo, existem exemplos e mais exemplos disso, muito embora o jornalismo, em minha opinião, não seja ciência nem possa assumir pretensões disso. Ocorre que em certos ramos, por exemplo, na sociologia, parece haver um extremo realce a esse tipo de conhecimento ou metodologia, como se, ao realizarmos trabalhos nesse sentido, necessariamente estivéssemos mais próximos da verdade verdadeira. Como se ao realizarmos entrevistas com populações excluídas pudéssemos concluir melhor sua (dela) situação do que se realizássemos pesquisas quantitativas ou mesmo avaliações duras das condições de vida (estatísticas, inclusive) que experimentam. Ou seja, houve um momento em minha aprendizagem de “cientista” humano em que o quantitativo passou a ser considerado irrelevante, para efeitos práticos, quando basta ver que nos institutos de ciências sociais ou mesmo nas discussões para valer com especialistas do exterior o aspecto quantitativo ou estatístico não é, em geral, tão negligenciado como aqui.

No campo jornalístico, que é o meu ramo original, a ênfase no “qualificado” chegava a beirar à loucura nos meus tempos de faculdade. Foram anos ouvindo falar no New Journalism, que de novo não tinha nada – aliás, depois de saber do argentino Walsh é que eu capotei com a inexpressividade da ênfase –, e foram muitas as tentativas dos professores de incutirem em nós esse gosto pela “novidade”. Não posso dizer que tenha deixado de aprender alguma coisa com isso, mas o fato é que, nos meios em que trabalhei, e que nada tinham a ver com uma “Realidade” de priscas eras, e nos quais tive até bastante ou praticamente total liberdade para experimentar, esses meus “experimentos” de new journalism eram considerados, pelos meus colegas, quase todos, meras frescuras de sujeito empolado ou pretensioso, e pelos meus leitores nem eram totalmente compreendidos ou degustados. Eram exemplos de sofisticação que os meus editores às vezes mal compreendiam – seria fácil eu denomina-los “limitados” – e que portanto não conseguiam ver do jeito que eu via (como se eu visse certo, claro). Com o passar dos anos, percebi que aquelas ênfases todas em jornalismos diferenciados eram no mínimo questionáveis, até porque todos ou quase todos meus colegas mal deram relevância a esse tipo de coisa em suas carreiras, e nunca vi um exemplo de premiado em premiação qualquer que tenha levado algum mérito especificamente por isso. Capote é história; Talese é legal, mas para especialistas do estilo; Wolfe, um aristocrata no lugar certo para escrever daquele jeito. Nós não tínhamos por que ter sido apresentados, a tal ponto, a tamanha erudição – tínhamos, melhor, de ser bem formados, o que não fomos.

Claro que cedo ou tarde a gente acaba recaindo também numa outra dessas “jóias da coroa” do pensamento ligado às chamadas ciências humanas: a Psicologia. Se não fossem os meus problemas de ordem psicanalítica – que todo mundo tem, quer queira, quer não, só é sempre duvidoso em que medida certas questões são de fato “problemas de ordem psicanalítica”(os meus aparentemente são, dado que fui diagnosticado e medicado, após muitos anos de resistência, como esquizofrênico) –, e a efetiva constatação de que, ao menos no meu caso, diversos testes desse tipo de ordem, assim como efetivos aconselhamentos (úteis, ao menos em termos de avaliação de bom senso), e o uso continuado de medicamentos surtiram algum efeito, tenderia claramente a considerar que muito do que é dito, lido, diagnosticado e mesmo chutado (em bares, por exemplo, por gente que se mete a transformar a análise numa espécie de método de cura infalível) pode ser classificado como hermetismo conceitual, mais fadado a prender em amarras invisíveis quem pode não ter nada de errado, fisiológica ou psicologicamente falando, ou a complicar a vida de pessoas que, em alguns casos, deveriam pura e simplesmente engolir em seco as decepções e arregaçar as mangas e viver.

É preciso, neste ponto específico, reparar quando e como o gosto pela psicologia recai no ser humano comum, de classe média ou hoje até mesmo de classes econômicas mais baixas. Lembro-me de ter lido a primeira vez sobre psicologia na faculdade. Lá, muito embora essa disciplina muito provavelmente não tenha sido vendida para mim como “ferramenta de cura ou de desvendamento”, foi assim que eu a entendi. Passei a achar que somente por meio de livros ou do conhecimento “recôndito” desses quase deuses – Freud, Jung, Lacan, etc. – eu poderia quem sabe (vejam, quem saber) ter acesso a um saber que me escapava e que me fazia crer que as pessoas não eram assim tão simples quanto pareciam. Os primeiros livrinhos aparentemente focados em psicologia – e adotados por mim – eram risíveis – O Corpo Fala, por exemplo, um best seller de todos os tempos nestas paragens, dentre outros –, mas com o passar do tempo a intenção de desvendar esse universo aumentou, por meio, por exemplo, de biógrafos – Peter Gay, recentemente falecido –, que aproximavam esse luminar, esse quase deus, de minha vida. O auge de tudo veio quando me deparei com um exemplar do Livro Vermelho, de Jung, numa livraria de alto nível. O exemplar era massacrante, num tamanho humilhante para quem se dispõe a achar que a vida pode ser simples, e venhamos e convenhamos diz respeito a uma “viagem” interna do psicanalista em busca de fundamentos que ele iria usar, algum tempo depois, seja conceitualmente ou por via de exemplos, em sua obra. Hoje é fácil chegar à conclusão de que, numa conversa com um junguiano típico, a gente só pode mesmo sair convencido de que o saber ministrado por ele vale por si só, na medida equivalente à sua admiração pelo mestre. Ocorre que, venhamos e convenhamos novamente, Jung não provou que o que ele fez era ciência. Se ele avançou na descoberta de modelos apriorísticos a todo ser humano, por meio de pesquisas de ordem arqueológica (mental), tudo certo. Mas isso não é provado. São simples tentativas de cavoucar em sentidos aos que às vezes a pessoa analisada não atina; outra coisa é curar doentes, que é como tudo começou (no caso, com Freud).

O que me irrita sobremaneira nisso tudo é a tendência praticamente inelutável a todo indivíduo deste século e do final do século passado em considerar que, ao ter algum problema de ordem de relacionamento, consigo ou com os outros, isso necessariamente tem de passar pela avaliação de especialistas em uma suposta ciência (que não é), que poderiam lhe dar um diagnóstico adequado, embora demorado, e aparentemente neutro. É curioso isso, dado que nos meus anos e anos de terapia pude verificar uma certa satisfação, de minha parte, em ser ouvido, mas por outro lado não consigo me lembrar de aconselhamentos claros que pudessem partir dos chamados especialistas e que necessariamente poderiam influenciar minha história. Não eram maus terapeutas, os meus. Uma delas era junguiana e permanece minha amiga até hoje, colocando-se à disposição para trocar ideias mesmo após 8 anos sem vê-la. Outro, um jovem bastante simpático, nunca desmereceu a confiança que nele eu depositei. Por outro lado, questiono em que medida esse tratamento psicanalítico era efetivamente necessário para mim, nem que fosse “apenas” para contribuir para um crescimento pessoal de minha parte. Pois é estranho: quando eu me proponho a criticar algo que porventura pode ter acontecido comigo no relacionamento com os terapeutas durante o tratamento, é batata: argumenta-se, com base na própria psicanálise, que eu teria poucos recursos psíquicos para enfrentar determinados problemas – um dos quais pode ser esse. Ocorre que isso é argumentar em prol de si mesmo. Dizer que não se pode questionar na medida em que não se está pronto para isso. Pode ser até verdade, isso, mas me parece, olhando criticamente, como uma artimanha de ordem retórica. Como se eu não pudesse questionar o que vejo – o tratamento – por, de acordo com esse mesmo tratamento, não estar pronto para isso. Isso é, como vários já disseram, uma tentativa de infantilizar o outro. E, dado que essa tentativa vem acompanhada de remédios controlados, é uma tentativa que sai da tentativa e se torna ação.

Veja-se bem claramente: se eu não tivesse saído da toca em que havia me metido, e sem qualquer aconselhamento virado ator e diretor, e também sem aconselhamento me metido num relacionamento conturbado que quase me pirou, eu simplesmente não teria abordado a vida com uma ênfase mais agressiva e proativa, assim como provativa, e poderia ter permanecido mais muitos anos simplesmente conversando com meu terapeuta tentando encontrar, lá no recôndito de mim mesmo, alguma explicação lógica ou psicológica para questões que, no fundo, eu não abordava por absoluta falta de coragem.

Mas o questionamento desse tipo de saber vai, no meu caso, um pouco mais longe. No caso, à própria Filosofia e à Filosofia da Ciência, posteriormente. No caso da Filosofia, é interessante como o estudante é defrontado com luminares como Heidegger, Sartre ou mesmo Husserl sem se contextualizar a efetiva validade dessa trajetória de pensamento, em comparação com os críticos ou mesmo com os detratores, pura e simplesmente. Não que, claro, estudar Filosofia seja necessariamente entrar numa discussão infinita entre vertentes que não se comunicam ou que não querem se comunicar. Mas é sobremaneira estranho como tradições como a Fenomenologia não são questionadas, nelas mesmas, ou naquilo a que se propõem, em relação a outras tradições. Pois basta procurar um especialista em Filosofia da Ciência, como o argentino Mário Bunge, defensor de um “realismo científico” bastante específico, para compreender que alguns dos argumentos utilizados por Husserl, por exemplo, não passam para ele de falácias ou incongruências de ordem lógica. Esta discussão pode dar a impressão de se referir a uma queixa de minha parte quanto a não ter sido apresentado a argumentações contrárias a determinados conceitos ou abordagens durante meu curso. Não é nada disso. A questão que abordo aqui é uma espécie de cegueira involuntária (no caso do novato) mas interesseira (no caso do especialista) ao se apresentar campos de saber que, lá no fundo, apenas PARECEM conter em si uma verdade impossível de destrinchar mas aparentemente inquestionável. É como se algo fizesse supor que Husserl era o cara, como se ele realmente tivesse detido a solução aos males em sua época, que necessariamente levaram a um caráter impossível de sobrepujar de um Heidegger e à influência massacrante de um Sartre, passando por um Merleau-Ponty. Claro que não era assim, nem nunca foi. Então, pergunto, por que esses caras não foram colocados em questão, seja em algum determinado momento, mas, ao contrário, tidos como inquestionáveis? Só me ocorre que esses sujeitos são tidos como “amigos” numa determinada forma de entender o mundo. Bom, esse método de pensamento é científico? Isso é adequado para aquele que se propõe ensinar ao outro, não um conteúdo, mas a pensar? Creio que não.

(continua)


Contreraman

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