o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Pink Floyd, uma história subjetiva – objetiva e nossa

Nietzsche foi quem mostrou – não foi o primeiro – que tudo em última instância é subjetivo – até a busca pelo objetivo, e mesmo MUITO do objetivo. Uso-o para começar um relato sobre minha relação com o Pink Floyd, desde que o conheci até os momentos atuais, enlevado pela subjetividade de outra pessoa e pela audição de “The Final Cut” (1983), um dos álbuns que – hoje percebo – melhor formataram as décadas seguintes, que já vivi. Este texto é uma (singela, quem sabe) homenagem a essa pessoa.
O link: https://www.youtube.com/watch?v=rTzBHM1ULZ4
Bom proveito.


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“What have we done?”

Melhor seria eu limitar-me a mim mesmo. Mas a letra é essa, em “The Post War Dream”, primeira faixa, que começa como aquelas trilhas de enterro militar norte-americano.

Antes, vale reparar na capa do LP (que ainda possuo). Note-se como, na parte de baixo da ilustração da capa, há faixas de algo que lembra tecido, e um tecido bastante tradicional, em faixas coloridas simétricas. Lembro-me bem. O motivo lembrava-me os tecidos que eu vivera na infância, com lã pura, para proteger-me do frio, e que tinham, alguns, motivos indígenas. Nem faço ideia do motivo pelo qual a banda usou esse tipo de imagem. Mas lembro-me bem a que ela ME remetia, e noto bem AGORA por que ela era e ainda é tão importante – ao menos para mim.

A faixa tem a seguinte letra, retirada do site do Pink:

The Post War Dream (Waters)

[Car sound, switching on of car radio] "...announced plans to build a nuclear fallout shelter at Peterborough in Cambridgeshire..." [phzzt! of returning] "...three high court judges have cleared the way..." [phzzt!] "...It was announced today, that the replacement for the Atlantic Conveyor the container ship lost in the Falklands conflict would be built in Japan, a spokesman for..." [phzzt!] "...moving in. They say the third world countries, like Bolivia, which produce the drug are suffering from rising violence...[fades]"

Tell me true, tell me why, was Jesus crucified Is it for this that Daddy died? Was it for you? Was it me? Did I watch too much T.V.? Is that a hint of accusation in your eyes? If it wasn't for the nips Being so good at building ships The yards would still be open on the clyde. And it can't be much fun for them Beneath the rising sun With all their kids committing suicide. What have we done, Maggie what have we done? What have we done to England? Should we shout, should we scream "What happened to the post war dream?" Oh Maggie, Maggie what have we done?

Subjetivamente, o que – reparo hoje – mais me atraiu, sempre, nesse álbum, que nunca é citado – creio, não conheço TODAS as fontes – como um dos melhores da banda, são os gritos. Os gritos cantados, os gritos da guitarra de Gilmour, os gritos subentendidos da realidade escondida e que não cansam de nos perturbar. Ontem, no ônibus, relembrava alguns desses gritos, no caso, os da guitarra, em uma das faixas em particular, e esses gritos – claro – remetem a uma outra época, a uma outra realidade, a uma outra opressão, qual seja, a de “The Wall”. Mas aqui a história é outra. Fiquemos por enquanto nesta faixa.

Acontece que ainda guardo – estão no banheiro do meu apartamento – recortes da Guerra das Malvinas, hoje Falklands. As Malvinas simbolizaram, em minha história, a retomada do tema guerra num momento em que eu entrara no Jornalismo da USP e resolvia ler tudo o que me caísse nas mãos para me tornar um bom profissional. Claro que guardar material sobre armas de todo tipo foi um costume que nunca me abandonou, desde que aos 6 anos de idade assisti de camarote, numa casa do bairro de Las Condes, à queda e deposição, por golpe de Estado, do presidente eleito do Chile, Salvador Allende.

Sem entrar demais na questão de assistir a um golpe de camarote, envolto em gritos, medo e espocar de tiros de metralhadora e explosões de bombas jogadas por aviões de pequeno e médio porte, fato é que sempre fui – e a maioria de nós, que me lê, é – fruto da Guerra Fria, momento histórico que em boa parte determinou as ditaduras nas quais cresci – a chilena e a brasileira – e o medo que toma conta de todo aquele cidadão que sabe, e como sabe, que na hora do vamos ver pode surgir um canhão do outro lado.

No caso da letra do Pink, que leio pela primeira vez hoje, percebo que aquela preocupação – mais madura – sobre Guerra Fria na hora não me capturava quase qualquer atenção. Pois o fato é que sempre considerei a mim mesmo e a qualquer pessoa um fruto de uma história que NÃO PODIA ser mudada. Pois o conservadorismo era minha praia. Tímido, irresoluto, fruto de uma família de imigrantes em que o pai era pai ausente e a mãe, mãe dona de casa tocadora das coisas da vida, eu nunca considerei que algo havia a ser mudado no mundo. E a letra do Pink remete a uma espécie de coletivização da culpa, pois ao questionar o que “todos” fizeram com o seu sonho de pós-Guerra (aparentemente, paz), lamentava algo que, ao menos no limite, “poderia” ter sido objeto de mudança ou ao menos de relativização (abandonando as coisas do mundo).

E hoje é estranho, isso, porque ao mesmo tempo em que vejo maturidade no discurso da letra, vejo também ilusão. Pois sempre fez parte do discurso do “progressismo” acreditar num mundo melhor, e parece-me até hoje mero discurso apoiar-se na “vontade” para isso acontecer, ou ainda mais, no “desejo”. Não devia ser por outra coisa que aquele discurso levou tempo para colar em mim, se é que de alguma forma colou. Hoje, por exemplo, eu diria: mas cara, os sujeitos são ingleses, como podem lamentar por algo (a instauração da Guerra Fria, suas consequências militares e civis, a eclosão da Guerra das Malvinas, ou qualquer outra coisa) se estão do lado de quem faz uso da força? Claro, não é porque alguém é inglês que necessariamente apoia uma situação injusta ou um regime de terror disfarçado – a própria Guerra Fria. Agora, pensemos: a Guerra das Malvinas é necessariamente fruto da Guerra Fria? Em que medida a lógica da Guerra Fria invade esse conflito armado? Pois é, duvidoso.

Vejam a letra, por exemplo, lamentando a construção de centrais nucleares, lamentando fatos relativos à Guerra com a Argentina, referências a garotos comentando suicídio, àquilo que fizeram “com a Inglaterra”, àquilo que fizeram com o sonho do pós-Guerra. Mas não nego. Não compreendo inteiramente várias das alusões a que Waters faz nessa letra, e pior, nem dou tanta bola (agora) a elas. Pois todas elas remetem-me, como já disse, a um lamento por algo que naquela ocasião parecia-me natural, a história.

Claro, eu nem sabia a que se referia essa letra nesses anos – meu inglês na época era sofrível, e meu conhecimento de História, limitado (ainda é, embora tenham mudado os parâmetros). Eu SÓ me deixava levar pela estética da coisa, pela inclusão de ruídos da rua, pelo tempo variado, pelo uso de instrumentos que até hoje fazem inveja a muitos. O Pink era, claro, nessa época, apesar de estar ainda em seu 12º LP (vejam que há discordâncias quanto a ser um LP do Pink), uma das mais atraentes referências para rebentos de classe média que queriam algo mais “difícil” que bandas tipo Queen e que não tinham sido apresentados aos primórdios do rock, um Elvis, um Jerry Lee Lewis, ou mesmo aos primórdios dos primórdios, no caso, o blues. Os caras que gostavam de Pink assemelhavam-se a protonerds em busca de algo menos manjado e mais “do contra” que um Rush. O que não significava que eu não ouvisse outras coisas, mas Pink, ah, Pink, era outra coisa.

Mas era engraçado, porque ao ouvir Pink em “The Final Cut” parecia que eu não me opunha a nada EM PARTICULAR. Pois, lamentando um estado de coisas, eu parecia não estar com isso me opondo a nada contra o que pudesse lutar, alguma autoridade em especial. E isso é diferente em “The Wall”.

Mas antes de “The Wall”: é claro, eu sempre soube que “The Final Cut” era uma obra menor, e mais intensamente vivida quase apenas por Roger Waters, tanto que em muitos lugares, e não somente hoje, está que o álbum é dificilmente encarado como uma obra da banda. E isso para mim, ao menos para minha história, também é bastante interessante. Pois sempre houve, e ainda há, em mim, uma profunda aversão aos artistas e obras intensamente reconhecidos. No caso de “The Final Cut”, torná-lo uma referência, para mim, soa quase como uma provocação e uma demonstração quase intensa de “mau gosto”. Pois dizer que alguém gosta de “The Wall” é chover no molhado. Gostar de “The Dark Side of the Moon”, uma demonstração de haver estado antenado ao momento. Já “The Final Cut” o que é? Aparentemente nada. Ninguém reage. Parece que ninguém lembra. Sim, pode parecer também que com isso quero referendar uma posição de chato, de cara “do contra”. Mas não, efetivamente “The Final Cut” pega pesado em minha sensibilidade, e o próprio fato de todo mundo se insurgir contra seu intelectualismo até certo ponto pedante – Waters é sobremaneira pedante – e sua tentativa explicativa e de homenagem (ao pai de Waters) também me é simbólico. Pois no fundo nada do que é puro sempre pareceu ser, para mim, de valor incontestável. Era necessária uma certa sujeira e uma certa incompreensão para que a mim algo de artístico pudesse aparentar vida.

Mas agora “The Wall”. Link: https://www.youtube.com/watch?v=rQbOoUmhSPo

Ainda tenho também os discos duplos em LP de “The Wall”. Ele não me era especialmente querido, quando eu o comprei. Hoje, reabrindo-o, vejo como eles, os artistas que fizeram a arte do álbum, já me “chocavam” um pouco ao colocarem pernas de mulher focadas pelo traseiro fazendo as vezes de uma autoridade massacrante. E como a forma distorcida de apresentar figuras me incomodava – ao menos um pouco. Mas nada parecia afrontar alguma crença minha, a bem da verdade. Assistindo os vídeos feitos à época (ou pouco depois) com a trilha do álbum, a crítica à autoridade escolar ou ao autoritarismo reinante não colavam também tanto assim em mim. Pois eu sempre acreditei na instituição. Eu sempre fora bem tratado nas escolas estaduais que frequentara, e até mesmo supervalorizado no cursinho que precisara fazer para passar na USP. O professorado para mim era algo impossível de questionar, pelo simples fato de que ele se apoiava num saber provado e repassado que constituía o cerne da cultura letrada. Eu ainda não aprendera a aprender por mim mesmo. Os livros que eu lera até então eram-me apresentados nas aulas. Tirando estas, eu lia só revistas sobre carros (4Rodas), sobre armas (Tecnologia & Defesa), gibis e dicionários – os poucos que eu tinha, e que haviam sido trazidos do Chile. Por anos a fio guardara um Dicionário Aurélio de pequena dimensão, e olha lá.

O que posteriormente ocorreria seria outro. A faculdade que eu fazia mal cuidava dos banheiros. Os professores não chegavam no horário. As leituras que proporcionavam não pareciam me fazer compreender algo daquilo que eu considerava necessário. Os ensinamentos teóricos não pareciam levar a nada – mas eu continuava anotando-os. Lutava por boas notas, quando deixava de ter uma percepção crítica do que acontecia. Não à toa minhas audições foram mudando com o tempo, recaindo num blues brasileiro que teimava em manter uma presença no mercado, e que sobressaía quando um determinado bluesman despontava lá fora – Mindelis, por exemplo –, e no academicismo da música erudita tradicional. O discurso questionador não me atingia.

Voltando a “The Wall”. A condição da época fazia com que eu sentisse a postura operística das peças do álbum algo exageradas, mesmo fora do tom, como se o contraditório não existisse. Era claramente um antidiscurso oficial, uma espécie de oposição a um suposto “naturalismo” que reinava e cuja artificialidade eu não percebia. Ocorre que, embora os efeitos de aviões em queda me agradassem, diziam realmente pouco. Afinal, eu os ouvira pessoalmente. Em resumo, eu não entendia as letras. E a estética sonora, soturna e fatalista, embora claramente combativa na intenção, parecia, para mim, ao menos naquele momento, bastante fora do lugar. Além disso, os efeitos da guitarra ou mesmo os recursos sonoros mais rotineiros estavam, eu já notara, bastante distantes dos de “The Dark Side of the Moon”. Este, sim, mostrado por um primo ou colega numa distante visita à residência de um chefe do meu pai, e também numa visita à residência de outro colega de escola, dissera-me algo de novo.

Link: https://www.youtube.com/watch?v=6tYu_LaNx9E

“The Dark Side” houvera sido, anos antes, uma destruição sensitiva que eu aparentemente esquecera. Mas não. Não é que hoje percebo o quanto dessa referência se manteve no meu gosto, bastante posterior, por narrativas com ritmo definido mas células sonoras dispersas e aparentemente desconexas (só aparentemente), que iriam me levar a gostar dos experimentos de um Gerald Thomas após 2007 (o Gerald anterior eu não conhecia) e, ainda mais importante que isso, da obra de um Beckett tardio (os clássicos do irlandês quase me fazem bocejar, enquanto os do tipo “Hot it is” me irritam, e os clássicos tipo “Molloy”, “Murphy”, “O Inominável” não me conduzem a lugar algum, nem me dão mais o gosto de tentar decifrar), exemplificados por um “Ohio Impromptu” ou mesmo um “O Despovoador” (Le Depepleur). Estava muito já ali, em “The Dark Side”, tanto que as faixas mais rasteiras, mais roqueiras, ainda mal me dizem alguma coisa.

Voltando, porém, a “The Wall”, uma pessoa amiga mostrou-me algo da origem do álbum, que foi, se não me engano, a percepção, por Waters, após um episódio em que teria cuspido num fã, de que havia uma parede entre as pessoas, e que isso seria motivo para muita coisa a mais, que iria se tratada posteriormente pela banda e que tanto iria influenciar o rock daquele tipo – e mesmo o imaginário daquela geração. Isso causou-me, admito, na hora em que me foi contado, apenas uma pequena surpresa. Eu já abandonara há muito a história do Pink Floyd, e além disso considerava aqueles megashows posteriores egóicos demais para que eu me dispusesse a perder tempo com eles. Algo, porém, afetou-me, a partir dessa singela revelação. Que era: se “The Wall” não surgira com a intenção explícita de criticar a instituição escolar, mas a distância entre os indivíduos, em que medida eu realmente não entendera a mensagem?

Pois agora percebo que, além daquela forma além da forma existente em algumas das faixas da banda em “The Dark Side”, os gritos da mulher, em uma das faixas tão conhecidas (15:42, em https://www.youtube.com/watch?v=6tYu_LaNx9E), e os coros estranhos em outras (33:23), que também estão presentes em outros álbuns, agora remetem-me a faixas como “The Gunner’s Dream”, em “The Final Cut”, só para citar um exemplo, que trazem uma tristeza tão presente e iminente – naquela época, por motivos bastante particulares, de que não me lembro – e que SE MANTEVE: “No-one kills the children anymore”, com o grito posterior.

O que nos leva de volta aonde? Às crianças. A mim. Ao Rodrigo assistindo ao golpe. Às crianças que sofrem o que não devem sofrer. A todos nós, que apenas somos isso mesmo: crianças. Até o fim.

2

Mas tudo isso diz respeito a um aspecto, apenas: o subjetivo. Esse aspecto subjetivo acumulara-se em mim por décadas, mas – é preciso constatar – só veio agora à tona na exata medida em que foi me dado um acontecimento – a nova revelação do Pink Floyd – pela experiência de outra pessoa: essa à qual dedico este texto, que agora entra em sua segunda parte.

Relembremos que a nova revelação surgiu quando uma pessoa, um amigo, me disse que Waters, o baixista e líder da banda, experimentara um crescente distanciamento radical das pessoas durante a vida, que culminara num cuspe jogado num fã. Ok. Mas, agora é preciso destacar, houve mais na revelação desse meu amigo – algo que dizia, até aquele momento – o da revelação – intrinsecamente APENAS a ele.

Busque-se um pouco sobre o álbum “The Wall” – basta a Wikipedia em português mesmo – para reparar que “abandono e isolamento pessoal” são, reconhecidamente, os temas tratados no álbum, e que, abordando o caso específico do baixista Waters, epígono conceitual do que se narra, a questão maior, afinal, em tudo o que se afirma, é “o autoimposto isolamento (experimentado por ele) em relação à sociedade, isolamento esse representado por uma parede metafórica”. Até aí, tudo bem. Pode-se encarar tudo isso de forma relativamente fria – como eu mesmo abordava, ou seja, como um fato que é preciso encarar e que, ainda de forma fria, deriva do modo de vida contemporâneo.

Ocorre que com a nova revelação de “The Wall” – algo em que embarquei com certa relutância, pois o rock progressivo não me atrai mais – veio também uma música, “Comfortably Numb”, sobre a qual NÃO pesquisei. Essa música sempre fora uma coqueluche em minha vida, sob o aspecto musical, apenas, pois – eu já disse que entendia bastante pouco de inglês – eu no fundo não queria nem saber a que ela se referia. Esse meu amigo dizia outra coisa: que essa música dizia muito a SEU respeito, a como ele se sentia.

Vamos à letra (em inglês e português, pela tradução do site Vagalume):

Comfortably Numb »« Hello Is there anybody in there? Just nod if you can hear me Is there anyone at home?

Come on now I hear you're feeling down I can ease your pain And get you on your feet again

Relax I'll need some information first Just the basic facts Can you show me where it hurts

There is no pain, you are receding A distant ship smoke on the horizon You are only coming through in waves Your lips move but I can't hear what you're saying When I was a child I had a fever My hands felt just like two balloons

Now I've got that feeling once again I can't explain, you would not understand This is not how I am I have become comfortably numb I have become comfortably numb

O. K Just a little pin prick There'll be no more (aah!) But you may feel a little sick Can you stand up? I do believe it's working, good That'll keep you going, through the show Come on it's time to go

There is no pain you are receding A distant ship smoke on, the horizon You are only coming through in waves Your lips move, but I can't hear what you're saying When I was a child I caught a fleeting glimpse Out of the corner of my eye I turned to look but it was gone I cannot put my finger on it now The child is grown The dream is gone And II... have become Comfortably numb

Confortavelmente Entorpecido

Olá! Há alguém aí dentro? Só acene com a cabeça se você consegue me ouvir Há alguém em casa?

Vamos, vamos, agora Ouço dizer que você anda deprimido Posso aliviar sua dor Pôr você em pé de novo

Relaxe Precisarei de alguma informação primeiro Apenas os fatos básicos Você poderia me mostrar onde dói?

Não há nenhuma dor, você está recuando Um navio distante soltando fumaça no horizonte Você só está sendo captado em ondas Seus lábios se movem mas eu não consigo ouvir o que você está dizendo Quando era criança, tive uma febre Minhas mãos me pareciam dois balões

Agora tenho essa sensação mais uma vez Não consigo explicar, você não entenderia Não é assim que eu sou Me tornei confortavelmente entorpecido Me tornei confortavelmente entorpecido

OK Apenas uma picadinha de agulha Não haverá mais ah! Mas você poderá se sentir um pouco enjoado Você consegue se levantar? Acredito mesmo que esteja funcionando, bom! Isso o fará agüentar fazer o show Vamos, está na hora de irmos

Não há nenhuma dor, você está recuando Um navio distante soltando fumaça no horizonte Você só está sendo captado em ondas Seus lábios se movem mas não consigo ouvir você Quando era criança Eu peguei um vislumbre passageiro Pelo cantinho do olho Me virei para olhar mas tinha ido embora Não consigo detectá-lo agora A criança cresceu O sonho acabou E eu fiquei Confortavelmente entorpecido

O mesmo verbete sobre o álbum “The Wall” na Wikipedia diz que esta faixa em especial referia-se a um relaxante muscular que Waters tomava quando estava numa determinada turnê. Mas isso realmente não me interessa. Interessa-me que da primeira vez que ouvi meu amigo citar a música eu a assistira (a música) num megashow em que destacava-se certo tipo de efeito especial, em primeiro lugar, e a seguir que a música parecia referir-se a uma distância generalizante, a uma aparente fuga de si e mesmo a um potencial uso de drogas (a própria ideia do relaxante conduz a isso). Eu nunca soube bem, e ainda não sei. Sei, porém, que ao assistir a peça “Quando eu era bonita”, com minha ex-professora de teatro Lulu Pavarin e com Esther Laccava, ambas grandes e experientes atrizes, peguei-me destruído ao vê-la (à música) como trilha de um ponto-chave do espetáculo (em que as mulheres da peça meio que rememoram seu passado e se encontram consigo mesmas, completamente perdidas e, como diz a música, entorpecidas). Não consegui conter-me na ocasião e chorei muito tempo. Era o drama do outro, no caso, que me trazia algo novo, que não sabia ainda divisar, porém.

Essa alteridade conduziu-me a pensar sobre algo que eventualmente tivesse existido em “The Wall” que remetesse mais ao desconforto do indivíduo do que a uma eventual mensagem de cunho político, como em “The Final Cut”. Reparei então que, como sempre, as faixas mais conhecidas do álbum não me diziam muito. O “problema” estava mesmo nas faixas da metade para o fim, quais sejam, “Dont’t Leave me Now” e “Goodbye Cruel World”, mas mais especialmente “Hey You” e “Vera”. Lembro-me que numa época eu mal passava um dia sem me remeter a “Hey You”, enquanto mantinha uma discrição saudável em relação a “Vera”. Quantas vezes não me peguei refletindo quanto a quem seria Vera Lynn? Noto hoje que essas músicas, em termos de complexidade linguística, são bem mais simples que as outras, afinal quem não entende pelo menos seus títulos? Confesso, porém, que em relação às duas primeiras não havia tanta conexão. Sim, o sofrimento de se sentir isolado leva facilmente a elas, e sua musicalidade e recursos relativos a silêncios e ruídos é acachapante. Mas de fato elas nunca me disseram muito respeito. Já “Hey You” e “Vera”, não.

Links:

Dont’t Leave me Now https://www.youtube.com/watch?v=JjyJZeXVo-g&index=11&list=PL851070FBC86C544C

Goodbye Cruel World https://www.youtube.com/watch?v=gBTAseEuq7k&index=13&list=PL851070FBC86C544C

Hey You https://www.youtube.com/watch?v=7qenbMf6wpU&list=PL851070FBC86C544C&index=14

Vera https://www.youtube.com/watch?v=5-ecL2DGszc&index=17&list=PL851070FBC86C544C

Ocorre que não invento e me lembro que estas duas últimas mereciam um lugar em meu universo especialmente naqueles momentos em que eu me sentia ou sozinho, no caso de “Hey You”, e buscava estabelecer contato – sei lá para quê, dado que nem sabia direito o que seria aquilo e nem entendia a letra –, e em “Vera” imaginava o que seria alguém. Sim, isso mesmo, o que “seria alguém”. Pois Vera Lynn permaneceria uma figura enigmática que, pelo jeito da música, era alguém de que se sentia saudade ou que valeria a pena ser “salva”.

Claro que eu sempre tive imensa dificuldade em imaginar que algo havia de errado na vida. Daí que as músicas eram ainda mais fatalistas do que “Comfortably”, por nada discutirem (não interessava saber o que levava a tentar estabelecer contato, no caso de “Hey You”) e por reduzirem o outro a uma marca, um signo sem identificação real (“Vera”). Eu não parecia sentir solidão, no sentido de considerar o sentimento algo passível de ser refletido; eu sentia vontade de dizer algo a alguém e tinha curiosidade numa certa figura estranha, no caso de “Vera”. Interessante também é reparar que tanto no caso de “Hey” quanto sobre “Vera” a atração dos solos de guitarra e da música em si são bem menores, ou seja, é realmente o tema que mais me tocou e ainda toca.

Voltando ao momento em que ouvi tudo isso pela primeira vez. Eu já disse que eu nunca fui muito disposto – nem ainda sou – a criticar o que existe. Sou mais naturalista (ou naturalizante) do que deveria, talvez; nesse sentido, não tinha (como ainda não tenho) tendência a achar que haja algo realmente errado em como as coisas são. No caso da escola, por exemplo, eu só passei a me indignar, intimamente – mas NUNCA me indignei na realidade – com coisas concretas, como horários e banheiros sujos. Nunca tive tendência a questionar as autoridades concretas, ou mesmo a noção de autoridade. Já quanto a mim mesmo, a minha vida, nunca coloquei como problemática minha condição, mesmo interna. Eu sentia falta de alguém, mas não achava que isso fosse problema; eu queria alguém, mas o mesmo acontecia, isso não era bem um problema. Claro, era como se tudo fosse meio externo a mim, como se não me dissesse REALMENTE respeito. O sofrimento era mais contido e mais comedido em mim do que talvez para outras pessoas. Nunca precisei por exemplo de beber; nunca mesmo. Eu sempre aparentei me bastar. Ocorre que isso passou a mudar recentemente. Sem entrar em confissões, revelações ou nada do tipo, simplesmente algo passou a se tornar com o tempo mais urgente, mais premente, mais importante, mas indubitavelmente presente em mim, e com isso o mundo do outro, ou mesmo a presença do outro, assumiu ares mais fortes. E foi assim, creio, que passei então a sentir – de chofre, como bem disse – o mundo por detrás de “Confortably Numb” e, agora, o mundo, em mim, mais singelo e superficial, daquilo que eu mesmo sentia com aquelas músicas que acabei de citar. Note-se, como já disse, que nessa época recaí no blues, no mundo ensimesmado do sofrimento solitário, ou da saudade do que não aconteceu, sem que tivesse experimentado algo, que seja quase nada, da realidade. Era um bluesman pela metade. Um cara desanimado recaído no blues, sem ter motivos reais para isso. Não que eu fingisse, mas não vivenciara o suficiente para dizer que sabia o que aquilo era. Hoje isso parece ser bem diferente.

3

Assistir megashows em geral me dá um grande tédio. Sinto, nesses casos – fui a vários –, que parece existir uma enorme vontade, por parte de quem o oferece, de agradar de alguma forma, seja em efeitos, em som, profissionalismo ou o que seja, isso seja de que tipo for o show. E por outro lado não me sinto à vontade tendo de retribuir seja lá o que for. Lembro-me de diversos shows em que senti isso.

Por outro lado, sinto também uma atração tão grande nesse tipo de evento. A grandiosidade atrai por si só. E nesse sentido passei a ver o vídeo que minha amiga me mostrou de outra forma. O link está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=hUYzQaCCt2o Antes, tudo para mim, nisso que vocês podem ver (e que já devem ter visto antes, é bastante conhecido), era muito ego e muito barulho para uma mensagem relativamente menor. Pois sei muito bem quem é Waters, o ego ele, e por outro lado a mensagem – até há pouco – não me batia forte o suficiente. Mantinha então, eu, uma distância fria, como em geral mantenho – ainda – em relação a muita coisa, ou mesmo a quase qualquer coisa. Dividia as coisas, separava-as em fatores, em recursos, em música, em luz, mesmo na participação das pessoas, e não me deixava comover. Mas foi então que algo mudou.

Deixei de ver apenas algo bonito nessas belezas claras que existem no vídeo. Ou mesmo algo essencialmente bonito ou muito bonito. Passei a ver a mim mesmo e ao outro. E no momento em que Waters “quebra” a parede e deixa a luz entrar eu passei a ver O OUTRO. Antes eu via o recurso, a tecnologia, e mesmo o ego de quem o fazia – em suma, desqualificava o outro antes mesmo de ele realmente aparecer diante de mim.

Ainda não mudei o suficiente, porém. Ainda não consigo o reconhecimento pleno do outro em mim. Mas sinto já o lufar da (sua) alma em mim. E vejo por que determinados olhares surgem de repente, e também de repente desaparecem. E reparo também por que em determinados momentos o OUTRO vê algo em mim, e de repente não vê mais. Em suma, passo a existir. É tão incrível isso que faltariam palavras pela vida inteira para dizer o que acontece, ou parece acontecer. Porque tudo parece que é mera aparência, e nem por isso deixa de ser algo mais. Foi quando comecei a perceber que aquilo que eu sou é também e principalmente aquilo que aparento. Meio tarde para isso, dirão alguns, mas sei lá, é minha vida, assim é.

Ocorre que para que isso aconteça algo parece também ter de ocorrer antes. Voltemos à minha vida de outrora.

Filho do meio de imigrantes, eu sempre tive tudo à minha disposição. Minha mãe nunca deixava faltar nada. Meus irmãos não eram nem nunca iriam ser muito próximos. Havia, claro, como sempre há – ou quase sempre –, uma certa luta por preferência. Sentia que havia uma certa disputa para saber quem era mais “querido”, e que nessa disputa eu levava vantagem. Mas em linhas gerais o tempo todo minha mãe se adiantava à vida e resolvia o que ainda nem era problema. E nesse sentido todos nos sentíamos bastante protegidos no mundo.

Quando essa situação acontece, parecemos meio que viver num “à espera de”. Queremos ir embora, mas temos tudo. Queremos desafiar, mas não temos como nem por quê. Queremos opinar, mas não serve de nada. Nossa existência fica meio que às escondidas, esperando a coisa errada – e portanto certa – para algo acontecer. Tem gente que nunca supera esse tipo de situação, e fica à espera ad infinitum, como que às expensas do mundo. Não que esse tipo de gente não tenha força de vontade, simplesmente não enfrentou o mundo a ponto de se sentir realmente ameaçado – de alguma forma. E é sobremaneira curioso, porque nesse tipo de situação o sofrimento às vezes é imenso. Não é por falta de motivos que algo não acontece. É por falta de algo mais.

Curioso é que nesse tempo todo em que passei do esquecimento de “The Final Cut” à nova lembrança de “The Wall” e de “The Dark Side” tanto tenha realmente acontecido. Saí de casa, meus irmãos também, casei, vivi, apostei, perdi, me separei e tudo o mais. E a questão não parece haver sido tratada, a questão de minha pessoa comigo mesmo. Seria necessário perder bastante e enfrentar o que não ousaria – e sem para-quedas – para finalmente sentir o gosto da liberdade – da real liberdade, essa que dá medo. Do desacontecimento algo surgiu. Da miríade de portas fechadas, algo se impôs.

Estaria falseando porém a história se eu dissesse que dá para dizer o que vai acontecer, nesse tipo de caso. Lembro-me bem. Joguei-me de uns tempos para cá. A coragem nesse sentido desempenhou papel fundamental. Mas não só a minha. Um certo descompromisso com o futuro abriria as portas para horizontes que eu nem sabia que estavam lá. Eu estava parado no tempo, empregado e insatisfeito. Hoje estou com problemas imensos, e sem conseguir sequer pensar em desistir em termos concretos. Mas há algo. E o que é?

Link: https://www.youtube.com/watch?v=DPL_SV3n7IU

Eu nunca consegui lidar com o destino. Ele era 1) ou uma cenoura atrás da qual eu precisava correr ou 2) algo de que precisava fugir. Eu nunca consegui simplesmente viver. De uns tempos para cá, porém, passei a entender que para que eu, ao menos eu, nesta situação, pudesse realmente sair de ambas as coisas, eu precisava simplesmente viver. E que para isso acontecesse eu precisava simplesmente acreditar, e com todas as minhas forças, até me esgotar, e praticamente nada sobrar. Claro, para quem já viveu, isso pode parecer quase inútil ou infantil. Mas para quem, como eu, parece fugir e avançar sem parar, apenas tentar do melhor jeito pode quem sabe ser algo bom até demais. Saindo do que não acontece – e acontece no fundo sem parar – ao que é. Simplesmente é.

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Mas aí eu durmo e percebo algo quanto a por que certas coisas insistirem em ser desacontecimentos. Pois: se estamos (verdade) realmente cheios de morar com os pais, e se realmente não acreditamos mais no amor que não vemos, por que continuamos lá? Pois se a pessoa com que estamos não parece nos amar, e se vemos continuadamente que o futuro nos reserva uma situação insustentável de desamor, quebra de si (em nós) e dor, por que continuamos a apoiá-la? Que desacontecimento obriga a isso? Por que tanta dor, que se torna, claro, crônica?

Aí retorno ao passado. Meus irmãos irão rir, talvez se lerem isto, e mesmo minha mãe. Passávamos por poucas e boas, e eu não fora à Espanha, mesmo tendo conseguido uma vaga numa universidade no país basco, por absoluta falta de grana. Mas as coisas ainda se avolumavam enquanto conflito, e eu tinha muito medo de sair, de ir embora. Mas havia também outra coisa. Não era correto eu deixá-la sozinha. Não era correto eu simplesmente sumir, e escapar. Não era correto. Um dia fui, porém, e não olhei para trás – na verdade, recusara pensar nisso. E mais importante ainda, não insisti em ainda comparecer – sequer em presença virtual. Sumi, devo ter finalmente assumido a desimportância de se importar.

Nessa época, o Pink não era nada. Não havia mais nada sequer no horizonte. Nem blues. Nem Iron. Não me lembro sequer se havia música, de algum tipo. Creio que eu havia realmente jogado a toalha.

Onze anos depois, seria o momento em que minha ex-esposa decidiria jogá-la.

Retrospecto geral, o Pink remete-me ao lamento por uma inação, por não saber, por não agir, por não saber agir, por não saber se agir, por não saber se reagir – uma espécie de autoculpabilização por algo que sabemos não ser culpa nossa mas do que não sabemos fugir. Por que nos afastamos se queremos nos aproximar (no caso da parede, da “The Wall”)? Por que não reagimos (ou não conseguimos) à história se queremos? Precisamos realmente do outro – seja enquanto alguém de que queremos nos aproximar – ou na verdade nos enganamos, ou somos menos – mais cruéis e aproveitadores – do que simplesmente imaginamos? Queremos mudar algo ou só fingimos que queremos? Lamentamos o que sofremos ou na verdade nos escudamos naquilo que sofremos para termos algum motivo para lamentarmos nossa própria mediocridade?

Que o ser humano é potencialmente cruel, disso eu não tenho dúvida; que ele é realmente ruim, eu não me convenço, nem creio jamais irei me convencer; que somos fracos, somos, claro; mas que podemos ser fortes, isso ainda mais.

Mas me pergunto, agora, agora mesmo. Por que teria eu lutado tanto nos últimos meses? Era por alguém? Era por mim? Mas era só isso? Passa o tempo e descubro que nunca era uma coisa sem necessariamente a outra. Eu apostava, sempre apostei, e nunca me arrependi, mesmo se durante o momento em especial eu tenha quase morrido de inanição ou mesmo de decepção. E sei que, frigidos os ovos, para o outro, a outra pessoa, sempre acontece o mesmo, embora não na mesma proporção – pois ninguém consegue realmente saber, mensurar, a dor do outro. Saber, não, mas imaginar consegue – e é aqui que me meto a terminar. Quando a gente para e realmente vê isso que está diante de nossos olhos – e não sabemos o que há, mas ainda continuamos, o que fazemos?

Tentamos destruir a parede, a “The Wall”. Superar o enxerto. Avançar no desconhecido. Pois ainda enxergamos que algo há lá. Hey You. Link: https://www.youtube.com/watch?v=jQcBwE6j09U

Pois é quando percebemos que o lá é aqui. E quando notamos que quando insistimos em algo é por insistirmos em algo dentro de nós. E quando vemos que a parede somos nós. Se assim o quisermos.

“E cada vez mais eu me retiro Cada vez mais longe Cada vez mais lá Cada vez mais aqui” (Leopolda Bruna)

Termino, novamente citando:

“O que resta de vida sem amor, quando sabemos que o oposto contrai e esmaga, derrete, mata de doença... ? Enquanto o amor agrega e abarca atenções... como uma cola que junta fitas e lembranças.” (Leopolda Bruna)

Tem alguém aí? (Contrera) “Is there anybody OUT there?” (Pink, com destaque de Contrera)

"Obrigada por ter vindo Eu continuo aqui E tudo camuflado em volta De medo de descobrir O que não há." (Leopolda Bruna)

Grato à Leopolda Bruna


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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