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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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Vale o que tem amor.

Crítica de teatro: Desamor

Desamor, de Walcyr Carrasco, com Dionísio Neto e Jeyne Stakflett; direção: Lúcia Segall; na SP Escola de Teatro (São Paulo, na praça Roosevelt). Crédito da foto: Nelson Aguilar


11798120_501143446716965_742227168_n.jpg Foi no meio da encenação de Carrasco, baseada em fatos reais e feita especialmente para Dionísio Neto, que reparei já tê-la assistido antes. Fora há vários anos, num pequeno teatro próximo à Maria Antônia. Daquela vez, a encenação ocorria no lobby do bar; agora, o teatro da SP Escola de Teatro. Lembrava-me pouco da primeira encenação.

O texto realista de Carrasco narra as desventuras de um garoto de programa disfarçado de taxista, com passado nebuloso e traumático, descrente do amor entre homem-mulher, homem-homem ou mesmo pai-filho (ele tem um filho de 9 anos, que adoraria poder renegar). Com compleição de macho latino, Dionísio encarna o taxista, que “dialoga” com um cliente que, aparentando ser gay, lhe deixou uma dúvida atroz. Enquanto isso, é servido por uma garçonete, que não disfarça a atração por ele.

Praticamente um monólogo, a fala de Dionísio navega numa ampla gama de emoções, que vão desde a escrotidão do taxista misógino que se orgulha de ter conseguido tudo na vida “comendo cu”, passa pelo garoto que apanhou moral e fisicamente quando se opôs ao padrasto e à mãe, navega pela trama do michê que se trata como uma espécie de máquina de fazer dinheiro e finalmente repousa no macho decepcionado e desencantado com o gesto final do cliente.

Diante de trama como essa, tradicional é optar pela maniqueização do conflito interno do personagem, transitando entre a vileza do michê sem relação amorosa com o mundo e a esperança do homem defrontado com o que não conhece. O texto, bastante longo, convida claramente a isso, o que é tratado, até pelo tempo possível para a peça, de forma a privilegiar o choque oferecido pela postura politicamente incorreta do personagem. Mas sente-se uma certa burocratização desse tratamento, por existirem momentos que poderiam tornar mais complexo, denso, interessante e chocante as opções de vida do taxista. Nada que contribua necessariamente para enfraquecer a encenação.

Essa opção de encenação e direção dos atores claramente fez com que a peça resultasse bastante fácil de entender. Tudo bastante preto e branco, bastante ruindade-esperança, bastante perdição-encontro de Jesus; mas o personagem também expressa um desgosto profundo pela vida, que pode fugir desse branco e preto; expressa também um carinho incomodado, expresso na relação com o cliente, cantor famoso, que acaba morto por michê (como ele) no Rio de Janeiro; expressa também uma dor lancinante, ao se opor a diversos grupos de pessoas (estereótipos, claro) que ele precisa “colocar na prateleira”. Essa “prateleirização”, disposta bem no começo da peça, é por si bastante interessante, mas não é novamente explorada, o que incomoda, na medida em que o futuro do personagem busca a não-categorização, e isso é bastante rico para deixar novas marcas ao final da encenação.

A escolha musical é tradicional, com faixas clássicas bastante conhecidas e que até mesmo podem pecar por serem clichês, e embora funcionem deixam a impressão de um vazio criativo mais complexo. Já o trabalho de luz consegue criar ilusões interessantes, transitando entre o vermelho e o azul, que dão maior profundidade e melancolia a partes da cena. Dionísio, super à vontade com o papel, desempenha-o com atenção mas não comoveu-me tanto quanto poderia. Stakflett fez sua parte salientando o caráter popular do confronto entre eles, mas também deixou-me um quê a menos de agressividade, dado que, por gosto eminentemente pessoal meu, consideraria adequado forçar ainda mais a aridez da relação, assim como o caráter quase patético do desfecho com ela. Ao final, a fala dele pareceu-me um pouco longa e anticlímax demais.

Por motivos eminentemente pessoais meus, saí incomodado moralmente com o personagem e com o dilema enfrentado por ele. Não sei o que aconteceu comigo, mas precisei afastar-me da trama para não leva-la tão a sério e chorar. Isso foi bastante bom, e motiva-me a sugeri-lo a vocês.


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