o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Devastações novas a cada mundo novo (3)

As gerações que surgem, mais conservadoras como a natureza sempre foi, trazem consigo novas devastações. Que surgem e já nos dominam, a todos


c20ad4d76fe97759aa27a0c99bff6710.jpgA calma que trazem os painéis solares esconde um mundo de devastações internas que deixam milhões de bêbados perdidos em meio a bares soberbamente anacrônicos. Pois a calma não traz mais paz; o silêncio causa desespero; os olhos das pessoas não lhes dizem muito mais do que antes; e os mundos novos que surgem alimentam o fim da humanidade.

wind-farm.jpg A China destaca-se mundialmente na adoção e uso de fontes renováveis. A energia que antes advinha do silêncio das usinas hidrelétricas, termelétricas e nucleares agora cai em nós blowing in the wind. Pás eólicas ultrapassam a barreira do som; por vezes colapsam e são substituídas por outras ainda maiores; pás povoam os mares; pás crescem na areia do deserto; pás movimentam pequenas casas, economizando centavos que formam famílias inteiras, e que não mais vegetam corroídas por dilemas passados.

Melihovo.jpg Tchecóv prenunciava (As Três Irmãs) mundos melhores; só não dizia o preço a pagar; só não dizia aonde é que esconder-se-ia o animal em nós; só não dizia que o preço da saúde seria a loucura. Redes conectadas, relações feitas a comandos de enter; exclusões simultâneas; suicídios evitados a toques de inbox; as pessoas não saem mais de casa, praticamente; escondem-se em subjetividades amorfas, as quais, para o mundo, nada mais dizem. 1984 é agora. O big brother somos nós.

solar-car.jpg E os painéis, que preenchem os espaços entre paredes; carrocerias de carrinhos batedores de recordes; prédios inteligentes com faces preenchidas de verde vivo; ônibus amigáveis e mastodônticos movidos a óleos amigos ou eletricidade de íons de lítio; as matrizes energéticas mudam sem que o notemos ou saibamos; tal qual nossa matriz pensante, feita a pequenos e ínfimos bits de frases ou contas coletados em googles que não mais nos dizem muita coisa. Pode-se afirmar qualquer coisa, porque nada mais importa – mesmo. Aposta-se na verdade como quem espera o destino numa receita médica desnecessária nas farmácias.

0.jpg Jean Amery lamentava e se deixava corroer pelo destino dos que, como ele, resistiram ou não resistiram sendo si mesmos, o que não poderiam deixar de ser – por mais que o quisessem. Capotou desconsolado como guerreiro desconhecido, para deixar de constatar como seria impossível sequer conceber a luta, seja ela como fosse – nestes dias e noites bicudos, que não acabam – pois não conheço uma pessoa sequer que realmente durma. Rivotril para lá e para cá, a ordem é deixar-se psicotropicar. As crianças continuam brincando, porém; mas os olhares traduzem uma angústia que deixaria qualquer Holocausto no chinelo.

0 (1).jpg Como é enfim anacrônico constatar a ausência de motivo para um outro Paul Celan pular no rio Sena. Movido a “Barraqueira”, nenhum ser vivo conseguiria sequer conceber morrer por não poder trocar palavra. Algo de estranho demais, só passível de ser aceito por um Nobel qualquer, que poderia enfim ter ganho. Dado que ninguém consegue entendê-lo, traduzi-lo, repreendê-lo. Época em que o valor está na ausência de entendimento, antes de mais nada. Moral dos modernistas que queriam ver o artista na ribalta ad infinitum. Conseguiram-no para torná-lo animal de zoológico. Ah, deixa, vai, ele é artista.

4minutes33seconds1_1292184377_crop_445x412.gif Cage, o John, não conseguiria vislumbrar a angústia que iria nos deixar por ter deixado finalmente tudo para trás. O buraco negro em que nos meteu por ter nos impedido sequer de inventar o silêncio. Como uma abramovic que agora fica inventando formas de ganhar dinheiro com nada, afinal foi nessa direção que ela acabou, como Duchamp, levando a bagaça. Não é à toa que as pessoas não querem mais falar entre si, e que preferem trocar emoticons para dizer o que não conseguem sentir. Parecemo-nos a robôs sem manual, a autômatos cujos corpos pedem algo, aos quais não lhes conseguimos negar. Sem conteúdo, sem qualquer conteúdo. Enquanto outros buscam sem parar sem saber o que lhes espera logo à frente.

MIT-Cheetah-05.jpg Nesse mundo em que virtualmente tudo está a um toque de dedos, os verdadeiros poderes, porém, aqueles sobre os quais Weber tanto falava, no alto de seus 54 anos de morte nos livros, tornaram-se ferramentas sem limites. Ferramentas obedecendo somente a si mesmas, com lógica própria e alcance ilimitado. Sorte sua se não for destruído por um drone, com 6001 em sua fuselagem 1, caso resolva fazer o que quer; sorte sua se não for abatido por robôs da deep web caso queira fazer uso de sua liberdade; sorte e azar seu. O âmbito que importa deixou de obedecer a uma lógica humana qualquer; os leopardos mecânicos já conseguem alcançar seres vivos e anulá-los como nos mais banais filmes de ficção. O ser humano precisa sair da ribalta e deixar as máquinas tomarem conta do circo.

1 Referência aos 6000 indivíduos mortos no mundo inteiro por drones comandados a partir dos Estados Unidos.


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