o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Por que adoro imagens devastadas (1)

Vi recentemente num post do facebook uma imagem de devastação. Ela era uma dentre muitas que posto aqui, dando o devido crédito e refletindo algo sobre isso mesmo: a devastação.


96a3be3cf272e017046d1b2674a52bd35.jpgNeste caso em particular, refiro-me a paisagens devastadas. Não a pessoas. Nem a almas. Nem a histórias. Nem a episódios internos. Nem a poesias de devastação – das quais conheço várias, e quem sabe estas sejam a maioria dentre todas as que coleciono.

Paisagens devastadas parecem-me incrivelmente belas. Pois elas envolvem algo que foi feito. Não são, em oposição, imagens de coisas que nasceram de um jeito tal e continuam assim. São imagens de coisas que sofreram uma intervenção – em geral, humana – e que mostram as rugas do sofrimento que as afetou e que permanecem. Pois após a dor vem a ruga.

Vejam isto:

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Ainda causam-me frisson as imagens de canaviais virando cinza, que eu via quando cruzava o interior de SP rumo a lugares diversos para entrevistas para a revista rural em que eu estreara. O discurso ecologista estava em seus primórdios, e não sentia tanta dor assim ao ver tudo aquilo. Mas sentia as cinzas cruzando o ar ao meu redor. Bebia do fedor.

Sinto até certa saudade das estradas vizinhais em que eu me perdia rumo a indústrias perdidas nos cafundós do Judas (já agora a partir de 2003). Lugares inóspitos que pareciam unir nada a lugar nenhum. Ver exemplos monumentais de tamanha devastação abre os meus olhos, mas rumo a que lugar interno, me pergunto. A um nada. Um nada absoluto. Caminhos devastados.

Agora vejam isto:

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Carcaças de computadores velhos são algo tão mitológico quanto embalagens de McChicken usadas, sujas com aquela mostarda horrorosa e embaladas em folhas de guardanapo que tem gente que acumula até não mais poder. Afinal, aposto que todos nós temos em nossas casas uma dessas carcaças – só eu tenho três. E se fossem acumuladas como lixo orgânico, então/ A visão do inferno em vida. Tá aqui. Algo que remete, a meu ver, até a um Planeta dos Macacos.

Vejam isto, agora:

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O final do século XIX inaugurou os primórdios da luta acirrada, sangrenta e traiçoeira pelos bens esgotáveis fósseis. Muitos nasceram e morreram com destinos tramados pelos interesses dessa indústria horrorosa, representada por tiranos absurdos, idiotas homéricos, empresas matadoras e nações que parecem não ter limites a seus interesses e tramoias. Claro que, em termos de imagens de cinema, chega a ser romântico ver aquelas estruturas de ferro tentando pegar petróleo da terra, uma a uma. Mas em conjunto parecem hordas de gafanhotos da invasão da Bíblia.

Nadem nisto, se puderem:

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Causa uma estranheza vivencial ver água suja como essa. Como é quando tomamos banho numa ducha suja, ou nos aproximamos de uma privada suja numa lanchonete qualquer. Como se a sujeira nos impedisse de ver o que importa. Como se precisássemos pensar em algum código de conduta, como o de limpeza, para aceitarmos o mundo tal como ele se apresenta. È curioso. E juntar isso com a expectativa de água límpida numa demonstração de surfe não consegue ser mais irônico.

E eis que aparece:

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Adoro cheiro de pneu usado, assim como de pneu novo. Lembro-me bem de quando comprava pneus para meus carros, ou motos, e como eu gostava daquela tosquidão de lidar com aquele tipo de borracha, que irá deixar marcas tanto como material poluidor como por ser tecnologia sobejamente atrasada, só não substituída por questões de ordem de produto (que já foram solucionadas em grande medida – daí que os pneus acharão finalmente seu lugar). Esta foto parece esconder algo de sua real dimensão, e isso não deixa de me irritar um pouco.

Olhem só isto, então:

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Eu me lembro que meu ÚNICO sonho quando eu fazia faculdade e começavam a chegar os celulares ao país era FALAR EM VOZ ALTA NA RUA, quando todo mundo me visse e quem sabe assim (hoje eu mais do que sei quanta bobagem existe nisto) eu superasse minha falta de autoestima. No fundo, o que está por detrás desta imagem de gente se matando para comprar um produto tecnológico novo? Só isso que eu citei? Com certeza, não. Mas para quem realmente vê a tecnologia como algo útil para o além-dará deve compensar: sei lá por quais recursos tecnológicos, ou pela capacidade de tocar algo que ainda é difícil, etc. Pergunto, porém: quem quer ganhar dinheiro MESMO com isso? Não são os que perdem tempo disputando a tapas algo que no fundo é apenas isso mesmo, status.

Imagens: Garth Lentz Foundation for Deep Ecology


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