o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Por que imagens devastadas fazem a minha cabeça (2)

Porque elas são definitivas. Porque não é possível mais acreditar em nada ao vê-las. Porque elas dizem tudo, e não dizem nada.
Porque sabemos que a maior devastação é aquela interna.


7d0665438e81d8eceb98c1e31fca80c14.jpgE não é devastadora a lembrança que eu tinha do som dos F-5 quebrando a barreira do som nos altiplanos próximos à Cordilheira dos Andes? Sim, porque mais que as mais recentes imagens de subsônicos deixando rastros nas camadas intermediárias da atmosfera terrestre, é a essas lembranças que me traz esta imagem acima, tirada em Londres, mostrando como as pessoas vão e vêm, sem nada a fazer, sem nada a dizer. O que serão elas, essas pessoas? Terão sido como aquelas abatidas enquanto cruzavam a Ucrânia? Ou aquelas outras que caíram no mar, sem se saber por quê, naquele Airbus fatídico? Ou aquelas encontradas aos pedaços depois que aquele Learjet rompeu a fuselagem do Gol como se fosse uma casca de noz? Não sabemos. Nunca saberemos. A lembrança que eu tenho, ao contrário, é a da devastação interna que o ronco das turbinas dos F-5 deixaram indeléveis em minha alma, e que só um Rickenbacker ou um Fender Jazz Bass com pedal distorcido ao máximo consegue reproduzir (e olha lá).

8e296a067a37563370ded05f5a3bf3ec.jpg Fato é que eu gosto de ver o mundo derretendo. Sim, claro, com isso quase dou uma de verdadeiro bufão, contemplando o desastre iminente, a burrice humana levada às últimas consequências. Mas e daí, se é assim mesmo este ser humano rastejante? Dói na alma, claro, ver os ursos polares boiando em pedaços de gelo, sem ter para onde ir. Dói também bastante ver os pinguins, como Chaplins sem nome, tentando encontrar uma saída longe das Orcas assassinas e do frio que parece condená-los a papéis coadjuvantes de um Batman soturno. Mas é esse o ser humano, meus caros, caso não tenham percebido. Não é preciso recair num Kierkegaard ou superar os catataus de um Schopenhauer com o seu cãozinho para perceber a verdade, aquela que dói mas que também satisfaz por ser ela mesma o que é: o todo. Quem nos dera se a Terra fosse um freezer passível de ser reparado em toda sua imundície. A Terra não é isso, porém; e não bastou resolver os problemas com o CFC-11 para chegarmos sequer um pouquinho mais longe em nosso arrependimento de primatas posando de sábios.

9bf31c7ff062936a96d3c8bd1f8f2ff3.jpg Eis que esta dissecação na praia faz-me recordar, de chofre, aquela vez em que aquela médica loirinha linda do HU pediu para que eu tirasse a calça e a cueca na maca, pegou um canivete assim, sem mais nem menos, e enfiou sem perdão nem licença em minha sobrecoxa repleta de pus de antibiótico tentando matar uma bactéria em uma camada mais profunda da pele. Relembro e não sei bem o que mais vem à minha mente, se a garota, seu rosto lindo, ou o pavor de ver a faca descendo sem piedade ou o estupor de sujar toda aquela maca com aquele líquido pustulento, sem desmaiar nem sentir qualquer dor. Ainda não me lembro. Mas foi assim que percebi o quão próximo do fora está o dentro, e o quão vívido pode ser o lixo com que este pássaro conviveu até capotar, inerte. E é curioso. Pois ele engoliu toda essa merda. E não morreu disso, pelo menos não de chofre, como se tivesse uma espécie de ataque cardíaco. Tornou-se, ao invés, uma espécie de saco de lixo, até este estourar e jogá-lo a ele, ao pássaro, fora, para o lixo sobreviver e dizer-nos “olhe-nos aqui, vivinhos”. Pois é isso o que irá restar de nós, humanos, afinal, nosso lixo, e não nossas obras primas, das quais temos até poucas. Nem nossas recordações, que virarão na melhor das hipóteses desculpas para continuarmos navegando em nossas almas estéreis. Nada. Sobreviverá o plástico. Esse plastic people de que o Stoppard também fala, com outras intenções, muito mais nobres, aliás.

70efdf2ec9b086079795c442636b55fb.jpg E eis que agora me lembro de quando meus pais desceram rumo ao sul do Chile e paramos num lugar na estrada e eu caí, sei lá onde, e me senti afogando e vi uns olhos que devem ter sido os meus mas que provavelmente foram de um sapo ou uma rã. E saí correndo, chorando, pedindo pela minha mãe, o cuzão. E de como essa lembrança povoou toda minha infância e me trouxe um medo incrível de me afogar, que me acompanha até hoje, e que me maltrata até acima do nível da água, na medida em que sinto vontade ou medo de me afogar na falta de ar, como no falecimento de meu pai. Pois é assim que experimento a questão do afogamento, e assim que vejo esta ilha sendo deixada para trás na involução típica de uma civilização nada civilizada que parece afundar no mar para afundar-se como o último capitão de Titanic. Seja como for, alguém aí sente saudades de Atlântida? Alguém aí sabe realmente como é afundar no nada do nada? Ninguém. O máximo que imaginamos é algo como as imagens daqueles casais se abraçando na lava do Vesúvio. E que entronizamos como símbolos de amor, quando nada dizem disso, a não ser da incapacidade de fazer jus à história, no caso, ao poder da natureza. Problema aqui é a que a natureza que uma Dilma idiota encara como obstáculo somos nós mesmos. Uma natureza incapacitada de pensar, quem sabe. E que prefere continuar correndo rumo a lugar algum, convencida de que talvez Marte nos deixe colonizá-lo, quando deveríamos ser escorraçados daquela paisagem inóspita prenunciada por O Vingador do Futuro, com o duplo negão (Schwartzenegger) (tradução literal: negro preto).

98f13708210194c475687be6106a3b84.jpg Mas eis que esta imagem remete a ainda mais longe, a uma recorrência ainda mais distante, quando em nossas viagens de carro rumo a algum litoral, qualquer um (afinal, nada conhecíamos, claro), eu reparava em como as laterais das estradas paulistas eram por vezes dominadas pelo descaso, e como, de vez em quando, víamos trechos isolados, cada vez menos incomuns, em que nada havia de pé, quando muito uma gramínea isolada a dizer “olha que existo”. Essas paisagens iriam ser retomadas quando me tornara repórter de revista agrícola e me acostumava aos poucos aos descampados de cana totalmente queimados. E quando sentia um certo prazer ao andar em cima dos restos, o que me remetia a filmes sem fim orientados por uma Guerra Fria em final de vigência. O gosto de andar por cima dos cadáveres vegetais, e que em fotos iria traduzir-se também no vigor de quem quebra ossos com as solas dos pés, como no Holocausto, naquelas montanhas de ossos de ex-gente sem dentes, inclusive. O outro assumia então o lugar de coisa, e o pé, o lugar de desbravador de almas alquebradas que jamais poderiam sequer nos olhar. A sensação de domínio, tal qual aquela cena do filme com o tanque russo passando por cima daquele coitado (um filme alemão, quem sabe). Como não perceber que para alcançar as dimensões de um 2001 seria necessário, muito provavelmente, pisar com efetividade e eficiência paisagens que já foram vivas? Nada diferente do que fizeram aqui, afinal, neste continente conquistado – por gente como eu, branca. Pois, se tenho a quem puxar, é aos filhos da puta.

6512bd43d9caa6e02c990b0a82652dca.jpg Curioso como estas árvores cortadas bem naquele lugar, como se fossem grandes caralhos capados, lembram-me o homem de lata, de alice no país das maravilhas. Sim, é apenas o formato da cabeça, mas também a energia de ser vivo que para mostrar que está precisa de algo mais do que de vida, de simplesmente estar vivo. Imagem outra que repercute, para minha infelicidade, claro, é Tolkien, quando as árvores lutam a favor dos mocinhos, árvores essas mais assemelhadas ao monstro do pântano, a bem da verdade. Aqui o exército está morto, mais parecendo uma série de soldados sem cabeça, imóveis, que permanecem no local como guardas daquilo que nem está mais lá – e que eram eles, ou algo que está abaixo deles, normalmente uma reserva de algum mineral valioso. Não me digam nem me forcem a lamentar com olhar focado nesta imagem, pois na verdade, como criança que ainda sou, sinto-me mais motivado a correr por aí e a esconder-me atrás dos troncos a abraçar aquilo que nem deixou rastro. Nem posso ser hipócrita, havendo tantas plantas pequenas que deixei morrer por descaso, e simples ausência de motivação vital. Pois era eu que estava morto. O devastado era eu. Como será nas próximas amostras de devastações inapeláveis e impossíveis de requerer regeneração. O girino já foi. A humanidade já era.

Imagens: Garth Lentz Foundation for Deep Ecology


Contreraman

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