o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Porque a polêmica do blackface pode ter terminado, mas não foi avaliada pela Justiça

Este longo texto é uma resposta crítica ao texto da jornalista Eliane Brum, que está em http://brasil.elpais.com/brasil/2015/05/25/opinion/1432564283_075923.html, sobre a polêmica do Blackface e a suspensão ou proibição da peça "A Mulher do Trem", de Os Fofos Encenam, cuja discussão foi feita no Instituto Itaú Cultural e que está no Youtube em https://www.youtube.com/watch?v=LG_cRXBsKfE.


0.jpgBom, em primeiro lugar, SOU RADICALMENTE CONTRA o blackface, APESAR de fazer parte da classe artística, por um lado, APESAR de ser jornalista, por outro, e APESAR de ser branco.

Minha postura RADICALMENTE CONTRA o blackface, SEJA LÁ COMO ELE SE DER, deveu-se a conversar com a Stephanie, a garota que motivou a discussão, e a sinceramente me sentir incomodado com o recurso cênico, que considero, SIM, racista. Não interessa se existe white face, sei lá o quê. Sou contra e os motivos derivam de ser visto um vídeo, fornecido pela Stephanie, em que uma garota norte-americana, negra, explicou as origens do recurso, seus usos e suas variantes. Cumpre salientar que apesar disso ela me bloqueou no face três vezes e que nem conversamos mais (acho ela chata demais, monocórdica, e o que ela pensa de mim, sei lá).

POR OUTRO LADO, discordo do Eugênio Lima, que conheço – frequentei por meses o Núcleo Bartolomeu, conheço também a Roberta D’Alva, etc. –, quando ele diz que a questão não deveria ser colocada como entre brancos de um lado, discordando da censura, e negros, de outro, apontando o racismo. Pois, considero, SIM, que a discussão, em linhas gerais, pode ser colocada dessa forma. Se deve, são outros quinhentos. Mas este meu esforço deriva JUSTAMENTE do fato de que APESAR DESSA MINHA POSTURA acredito que seja necessário abrir espaço ao diálogo.

Um aspecto interessante que me aproxima da postura da colunista é o fato de que, ao conversar com a Stephanie, eu também me descobri branco. Por outro lado, identifico que minha posição contrária ao blackface NÃO DERIVA dessa MINHA identificação como branco, mas de uma indignação como ser humano. Considero o recurso INDIGNO, e apesar disso admito sua importância na recuperação da tradição circense (o que Os Fofos Encenam fazem) (aliás, sou arremedo de clown, também).

(Antes de continuar: acreditem que não coloco essas polarizações estranhas para causar frisson, elas realmente ocorreram em mim durante essa discussão, que ainda acontece)

Já no dia do debate eu estava próximo – na brigadeiro, numa reunião dos Jornalistas Livres – mas não deu tempo para participar. Essa questão, diga-se de passagem, é para mim extremamente importante, até porque já nos 90 eu me posicionava criticamente a respeito –e ainda me coloco (considero que a questão está inserida num debate muito mais amplo que envolve a polarização ideológica num momento aparentemente pós-ideológico).

Por que acho que em linhas gerais, a discussão pode ser colocada como censura x racismo? Porque, em primeiro lugar, no frigir dos ovos, as partes envolvidas fazem isso. Em segundo lugar, porque a discussão em geral envolve profissionais de teatro de uma geração (comumente identificada como sendo criada em luta contra a ditadura militar) e ativistas de outra geração (que não viveram essa época). Em terceiro lugar, porque a discussão envolve questões teóricas sobre liberdade de expressão (quanto à censura) e normativismo político (ação afirmativa, quanto à questão do racismo). Em quarto lugar, porque ao envolver esses âmbitos (liberdade de expressão e normativismo) essa discussão envolve como entendemos a sociedade de acordo com o prisma teórico clássico (aquele da representatividade (Schumpeter), utilitarismo (Stuart Mill), sociedade civil contratualista (Rousseau)) versus o prisma teórico contemporâneo (basicamente Rawls e Habermas, neste caso na questão do reconhecimento do outro). Não à toa os caras envolvidos muitas vezes não se entendem: bebem de questões e fontes diversas. Os liberais (ou falsos liberais, porque no Brasil tudo dá) insistem em SUAS liberdades; os esquerdistas insistem em direitos a que os outros não dão tanta bola e, pior, que não entendem já estarem sendo normativizados (contrariamente a uma pretensa vontade de grupos ou mesmo geral) há bastante tempo, e não apenas nos Estados Unidos. (Por favor, não elenco estas referências para exibir saber, simplesmente porque considero que a questão é por um lado mais profunda, e por outro no seu fulcro mais simples, embora em alguns aspectos, marginais, mais complexa).

Mas creio que haja outras questões envolvendo tudo isso. Primeiro, discordo da Elaine quando ela diz “O Itaú Cultural tem uma atuação reconhecida por dar visibilidade a grupos e questões que sempre estiveram à margem”, pois isso é mentira ou muita ingenuidade. Toda a classe artística sabe que o Itaú Cultural privilegia e somente contempla manifestações artísticas que fazem coro a uma espécie de consenso comportamental correto. Segundo, o Itaú Cultural não segue (nem precisa seguir) critérios artísticos de ordem pública, sendo uma instituição privada e cuja ênfase está no que é vendável em termos de imagem artística e de correção política em termos de não questionamento ácido do status quo. Notemos que esta questão foi resolvida intramuros, ou seja, o Itaú Cultural achou POR BEM cancelar o espetáculo e promover o debate. Reparem que o Itaú promoveu o debate, não o poder público. Teria havido omissão aqui? Não vem muito ao caso, mas só estou tocando no assunto. A Elaine, no caso, aborda o incômodo de discutir essa questão nas dependências de instituição bancária, no contexto do acirramento das questões sociais.

O professor de teatro aborda que o blackface no Brasil seria pouco conhecido e que teria seu valor enquanto espaço de estudo. Correto, eu mesmo acho isso bastante interessante. Ocorre que o negro de hoje precisa saber disso? Precisa reconhecer? Precisa levar em conta isso? A MEU VER, até precisaria. Mas ele realmente precisa para fazer valer seus direitos a dignidade de imagem? POIS É, a meu ver não. POR OUTRO LADO, manifestações como mamulengos, não abordadas nessa discussão, fornecem descrições machistas ou mesmo misóginas da sociedade, retiradas do imaginário popular e do próprio teatro popular brasileiro, bastante mal conhecido. Nesse sentido, se uma feminista resolvesse impedir um espetáculo em que a mulher só apanha precisaria conhecer a história desse tipo de teatro? SIM, a meu ver. Mas precisaria para fazer valer seus direitos? Pois é, infelizmente para mim, preciso concordar com dizer NÃO. Chato, mas é isso. Pois agora terei de ser realmente antipático. Farei uma breve análise do discurso do diretor de Os Fofos Encenam, companhia bastante tradicional e interessante.

—Eu demorei muito tempo pra entender o que era, o que minha família, como outras famílias de artistas, tinham feito aqui nesse país em relação à arte, ou seja, Teatro de Revista, o Circo-Teatro e o Teatro de Comédia. Eu venho de um ventre negro que já teve uma questão forte de entrar numa família de portugueses que chegaram aqui em 1890. Vindos com um circo. (...) Eu proibia a minha mãe, quando fosse alguém em casa, de falar que ela tinha sido vedete. (...) Foi aos 53 anos, em 2003, que eu falei: não, eu preciso falar sobre isso. Foi uma coisa impressionante essa questão de A Mulher do Trem, porque era a peça que levantava a praça, que meu tio escondeu de mim, que também foi duro arrumar material pra fazer pesquisa. E daí a gente fez, e quando a gente tentou dinheiro a gente não conseguiu nada. Então foi tudo na dificuldade eterna. (...) Eu comecei a entender o que era, pro ator brasileiro, a questão da composição e das máscaras. E que é uma questão muito difícil. (...) Porque envolve tipo psicológico, envolve temperamento. Então, é uma questão que infelizmente deveria ser matéria nas escolas. Pra, quando chegasse nessa discussão, eu não tivesse, ou ele não tivesse que falar: não tem nada com o blackface.

COMENTÁRIO MEU: Antes de mais nada: “venho de um ventre negro”. Vejam fotos dele. Não interessa se ele se acha negro, se ele tem amigos negros (lembram daquele argumento: tenho vários amigos gays...?), se ele saiu de negra, se sei lá o quê. Fato é que ele não é negro. Daí que ele falou isso OU para aproximar-se do contendor ou para comentar uma identificação relativa à total miscigenação do brasileiro (que é mentirosa). O que mais importa para mim aqui é ressaltar que, pelo que percebo, esse argumento para os negros é risível. Em seguida, ele diz que foi difícil fazer a peça, que ela tem interesse cultural e por aí vai. Ok, mas isso é um problema do teatro em si, e também desse, que APARENTEMENTE não tem a ver com o blackface. Mas eu perguntaria: para o contendor, isso interessa? Aparentemente não. Caras, eu sou ator e diretor, peno para sobreviver, mas tenho de reconhecer que isso que ele disse, nesse contexto, não é argumento. Tem também uma questão (abordada a seguir): há um momento, aparentemente, hoje, em que não existe realmente mais o reconhecimento do outro (e que eu mesmo abordei com a Stephanie): qual seja, MESMO SE EU CONCORDAR COM OS ARGUMENTOS DO OUTRO, terei em determinado momento de sair de campo e assumir meu lugar SIMPLESMENTE POR COERÊNCIA (como um rico, digamos o Stuart Mill, não poderia se meter a discutir o direito do pobre). É estranho mas interessante isso, confesso.

Agora, a Stephanie: —A gente começa desconstruindo a ideia de a pele natural ser a branca. Porque eu sou negra, eu sou natural, eu sou normal. Eu não sou exótica. Eu passo a minha vida inteira escutando que eu sou exótica, que eu sou diferente, que o meu cabelo é diferente. Essa é a minha vivência. É isso o que eu levo quando eu vejo aquela foto e vejo que aquela é a representação da pessoa branca para comigo, para com a minha avó, para com a minha bisavó, que eram negras, que foram escravizadas, que foram estupradas, que foram marginalizadas. Essa é a minha história e essa é a história que eu levo sempre e vou levar pra toda a minha vida porque não tem como eu ser negra um dia e não ser no outro. E aí entra a questão da peça e de toda manifestação feita pelo Facebook de várias pessoas negras, e da forma como isso foi recebido por algumas pessoas, de um jeito até racista, de achar que o negro não entende de arte, o negro não entende de cultura, o negro não sabe isso, o negro não sabe aquilo. Sabe quantas vezes na minha vida eu não vejo uma pessoa perguntando: "Ah, mas você faz arquitetura?". E por quê? Eu não posso fazer arquitetura? Tem curso pra branco e tem curso pra negro? Ah, parece viagem, mas não! É a nossa capacidade, sempre sendo ignorada pela elite cultural paulista na arte. (...) Qual a visão de um homem branco sobre a minha vivência? Sabe? A gente já parou pra pensar isso? Eu não sei o que é ser branco, eu nunca vou saber. Eu sei o que é ser negro. E pautado no que eu sei, é difícil. E eu ainda sou uma mulher negra privilegiada, sabe? Eu tenho sorte de estar numa universidade. Eu sou uma mulher negra ainda de pele clara. Imagina as outras mulheres negras que não podem estar aqui! Que estão limpando o chão, que estão lá, sei lá, cuidando de vários filhos. E isso me ofende porque, quando a gente coloca a imagem do branco para com nós, é uma imagem tão ofensiva, tão estereotipada, que não tem essa de ser máscara, de ser tipo. É a minha imagem toda vez que eu vejo na TV, toda vez que eu vou numa peça. É sempre a mesma coisa. É ou a mulher negra para sexo, ou a mulher negra Globeleza, ou a mulher negra é empregada. Ah, mas por que a mulher negra é empregada? Porque a gente vive num país que, pós-abolição, a mão de obra negra era abundante. Então o que que a gente faz com essa mão de obra abundante? Vai dar chances? Vai dar estudo? Não! Vamos colocar eles pra limpar, lavar e passar. É aí que entra o estereótipo. Não é só pintar a cara de preto. O estereótipo que a peça reforçava é esse estereótipo da mulher negra em vários sentidos: no cabelo, na forma de se portar. Porque estava escrito no próprio site dos Fofos, quando eu fui ler, que ela era intrometida. Então, o problema não é essa peça, mas o problema é a visão das pessoas brancas sobre nós. Essa visão a gente não vai aceitar mais, porque hoje a gente tem voz, hoje a gente pode falar. Que seja no Facebook, que seja com pichação, que seja da forma que for. Eu não aceito. Eu não vou me calar.

COMENTÁRIO: Claro, devo à Stephanie a noção de minha própria cor e condição, e a percepção da diferença – da negritude, com tudo isso que isso implica. Porém, note-se como ela diz que, por um lado, é negra e por outro é normal, não é exótica, como é denominada pelos colegas, amigos, conhecidos, sei lá. (Claro, nesse aspecto irei retrucar de uma outra forma posteriormente, mas por enquanto que fique esse entendimento). Nesse sentido, ela é (intimamente, culturalmente, pormenorizadamente) algo que é visto (como ela é socialmente) de outra forma, com as expectativas e pesos decorrentes. Isso, a meu ver, já é muito interessante (muito embora depois eu vá me opor). Ocorre, porém, um problema, que vem daqui. “E aí entra a questão da peça e de toda manifestação feita pelo Facebook de várias pessoas negras, e da forma como isso foi recebido por algumas pessoas, de um jeito até racista, de achar que o negro não entende de arte, o negro não entende de cultura, o negro não sabe isso, o negro não sabe aquilo.” Pois bem, ocorre que ela realmente não entende de teatro, pelo menos. Claro, depois ela contextualizada tudo melhor, pela forma como as pessoas entendem o fato de ela ser arquiteta. Tudo certo, até então, ocorre que ela, de forma manifesta, não quer saber como é que o teatro, na sua história, desenvolveu a questão do blackface no Brasil, que é o que está em jogo. Tanto isso é verdade que, quando lhe passei (a ela) uma outra manifestação (mas mais complexa) sobre o uso de máscaras em pessoas brancas, negras, orientais (no caso, o “Porno Samba”, do Teatro do Incêndio, ela e outras amigas se opuseram radicalmente, mas, vendo como a questão era tratada, com mais sutileza, mais diversidade e maior deboche, perderam os argumentos e se desinteressaram. O link disto eu coloco em seguida. Pois bem, ocorre que, se por um lado ela insiste em que nós, os brancos, ou as pessoas em geral, entendam sua indignação, ela não quer saber da versão do teatro, e isso fica expresso de manifesto em muitos de seus posts, embora neste debate ela pareça não aparentar essa posição. Isso a meu ver é bastante complicado. Pois num debate precisa haver o reconhecimento do outro (isso sem entrar na questão acima, da percepção pessoal e do contexto social, sobre o que irei falar), e se ela não o reconhece não há debate mas imposição (seja lá como for). O argumento da ausência de (seu) reconhecimento pela civilização branca vem insistentemente também depois: “Ah, mas por que a mulher negra é empregada? Porque a gente vive num país que, pós-abolição, a mão de obra negra era abundante. Então o que que a gente faz com essa mão de obra abundante? Vai dar chances? Vai dar estudo? Não! Vamos colocar eles pra limpar, lavar e passar. É aí que entra o estereótipo. Não é só pintar a cara de preto. O estereótipo que a peça reforçava é esse estereótipo da mulher negra em vários sentidos: no cabelo, na forma de se portar”, ao que não deixo de dar certa ou bastante razão. Depois ela é mais contundente: “Então, o problema não é essa peça, mas o problema é a visão das pessoas brancas sobre nós. Essa visão a gente não vai aceitar mais, porque hoje a gente tem voz, hoje a gente pode falar.” E nesse sentido o argumento posterior da Eliane, segundo a qual ela preferiria manifestações, etc., fica interessante. Pois o que aconteceu não foi manifestação, mas acordo intramuros, interno, e na verdade decidido pelo Itaú Cultural, a pedido de pressões entre as partes. Que ela não deva se calar, caramba, eu mais do que apoio. Mas acho que algo está acontecendo de forma no mínimo estranha.

Em seguida, o Aimar Labaki: —A questão do negro no Brasil é igual a duas outras questões pra mim: primeiro, a questão dos desaparecidos e dos torturadores, isto é, a nossa verdade histórica que ainda está, de alguma forma, enterrada, e a ideia de que uma justiça possa vir a realmente servir pra todo mundo. É igual à questão da liberdade sexual, isto é, que a questão do gênero, a questão das opções sexuais sejam normalizadas, pelo menos do ponto de vista legal, e a vida vai fazer com que o óbvio se estabeleça, que cada um viva como quer. Por que estas três questões são importantes? Porque são as três questões que nos impedem de, de verdade, nos sentirmos parte de uma nação e de nos sentirmos parte de um Estado que nos representa em alguma medida. E eu não estou falando só da questão da representação política, que é uma crise pela qual passa o mundo inteiro e que não é uma crise só brasileira. Aqui foi piorado pelo fato de a ditadura ter acabado com uma ou duas gerações de pessoas que poderiam ter o conhecimento de como se mover publicamente e fez com que a nossa educação, nesse sentido, fosse atrasada tanto. Faz 30 anos que acabou a ditadura, mas o (José) Sarney só se aposentou no ano passado e ainda está indicando gente. Ainda tem militar que não obedece ao chefe do comando que é o presidente da República, quando o presidente da República manda entregar documentos que são do Estado, não são do Exército. Então, nós estamos há 30 anos construindo pela primeira vez uma democracia formal, mas nós não temos um espírito democrático, nós não temos um espírito de República. Nós ainda estamos tentando construir isso, e construir um aprendizado de como discutir em público. Porque democracia não é paz. Democracia é luta cotidiana, é debate cotidiano entre os diferentes. E nós temos medo do debate, nós temos medo do confronto. E é preciso aprender a se confrontar. Nesse sentido, essas três questões – a questão do negro, a questão dos torturados e da punição aos torturadores, e a questão da liberdade sexual – é que nos impedem, como diz o poeta, de conseguirmos transformar essa vergonha numa nação. Isso posto, eu acho que pra todas as três questões vale a preocupação permanente de compreender que essa democracia está em construção. E, nesse sentido, não me parece o caminho mais adequado você pedir ou você lutar pela supressão de qualquer representação que te incomode (...) Nesse caso, a representação também é uma forma de manutenção de uma visão de mundo que perpetua o racismo. E eu concordo com isso. Eu acho que essa visão tem que ser apagada, mas ela não pode ser apagada pela força, ela não pode ser apagada pelo silêncio.

COMENTÁRIO À FALA DO AIMAR: O Aimar iguala coisas distintas. Não que a universalização da Justiça seja distinta nos casos citados. Mas no caso da primeira foi necessária uma conscientização enquadrou a política e que levou à lei; no segundo (das maiorias desprivilegiadas), a lei mudou em seus pressupostos filosóficos; uma coisa não tem nada a ver com a outra, portanto. Pois uma coisa é afirmar que a justiça tem de ser universal, algo com que (hoje) todos concordam (às vezes da boca para fora, apenas); outra coisa é realmente dispor de meios para isso. Ocorre que no caso específico, o do blackface, a questão é a dignidade da pessoa humana com características específicas; e esse caso irei abordar, em seu mérito, depois. Nesse caso em específico, contudo, não dá para comparar os assuntos (torturados e negros). A questão da liberdade sexual, por outro lado, é ainda mais peculiar, porque diz respeito a costumes, e a direitos derivados deles. Nada a ver, sob o aspecto prático, e confesso que me incomoda muito a nivelação de casos díspares com o mesmo argumento. Em seguida, Aimar parte para a discussão de que não temos, ao menos aparentemente, o hábito da discussão pública, democrática. Concordo. Porém, noto que, ele mesmo, o Aimar, desloca o âmbito para o lado que lhe convém – o do silêncio. Quando ele diz que “essa visão tem que ser apagada, mas não pela força, não pelo silêncio”, insiste, como eu já havia dito que ele faz, na questão da censura, que lhe toca como é de praxe – até pelo aspecto geracional – mais que a outra, do reconhecimento. Mas preciso, em passant, abordar uma questão que, se não tem a ver diretamente com a discussão, tem a ver com uma postura que o próprio Aimar teve, numa pequena conversa comigo, e cujo pressuposto ele parece não notar. Percebam, sei que o Aimar foi importante na questão do Fomento, e que tem uma postura crítica bastante relevante em nosso meio, mas não posso me calar. O caso é este: ele publicou uma nota sobre músicos que ganharam um certo prêmio. Dentre eles, um Labaki. Notei o aspecto. Ele disse que o sobrinho faz jus ao seu talento. Ok, mas eu lhe perguntei, e por que vc o colocou em destaque na nota? Ele me disse, porque o sol é o maior dos desinfetantes. Ou seja, porque, segundo ele, a transparência é a melhor das atitudes. Alguém discorda? Claro que não. Ocorre que alguém o questionaria ao escolher seu sobrinho como ganhador? Claro que ninguém. E mais: como ele ficou sabendo do sobrinho? Por ele não sê-lo (seu sobrinho)? Claro que porque ele é seu sobrinho. Nesse sentido, que transparência é essa? Ou, jogando a discussão para a negritude, que transparência seria essa de dizer que todos têm os mesmos direitos se de fato eles não os têm? Ou, como dizer que o blackface é aceito por todos, em sua manifestação artística, se ele não é aceito, em sua ênfase na dignidade de alguns (ou mesmo de UMA pessoa) que se sente ofendida? Pois é. Fácil falar em aceitar o oposto e o confronto quando na realidade a verdadeira realidade é, preferencialmente, jogada para debaixo do pano. Ainda, outra fala da Stephanie: —Eu queria começar falando que talvez eu seja muito radical, porque, na minha concepção de mundo, pessoas brancas não dizem como pessoas negras devem lutar. Então, se eu quero fazer um boicote, eu vou fazer. Se a gente quer se unir contra uma peça, a gente vai se unir. Porque é isso o que a gente tá debatendo aqui. São anos e anos de pessoas negras não tendo voz. São anos e anos de pessoas negras sendo silenciadas, invisibilizadas. São anos e anos que a representatividade não vem. A representatividade, num país onde 54% da população é negra, não deveria nem ser discutida. Quando a gente se manifesta, a gente não tá censurando, a gente só tá pautando o que ninguém tinha pautado até então porque não tem a nossa vivência. (...) Tem que ter um esforço das pessoas pra entender o que é ser negro no país. Você nunca vai saber o que é viver na minha pele, mas pelo menos pode não reforçar ideias como essa de... "natural é a pele branca", entendeu? Isso é desconstrução, isso é leitura de gente negra. Gente negra fala, gente negra escreve, e não é de hoje, entendeu? (...) Quando é que eu vou ter o privilégio de não saber o que eu sou? Agora, vocês têm o privilégio de não saber o que eu sou, me marginalizar, me oprimir, e ainda me chamar de censuradora. É ótimo esse privilégio! Essa ação foi muito importante, porque ela foi feita no Facebook, com várias pessoas, principalmente militantes jovens. E é essa força que vem vindo que não vai se calar, gente. Eu acho que é importante as pessoas se abrirem pra escutar essas vozes. Mas essa abertura tem que vir com o diálogo, principalmente, de que pessoas brancas não pautam a luta dos negros. Ninguém vai dizer como a gente deve agir, porque ninguém sabe o que é ser a gente e ninguém sabe tudo o que a gente já passou.

COMENTÁRIO A ESTA FALA DA STEPHANIE: Essa questão de “pessoas brancas não dizem como pessoas negras devem lutar” é realmente fundamental, e eu mesmo fui defrontado com isso ao conversar com a Stephanie. Realmente, o outro é o outro, e uma inteligente (embora ilegítima) argumentação por parte do opressor é, sempre, a de dizer que “entende o outro lado, mas”. Mas nada. Simplesmente é o outro lado que, quando oprimido, diz seu lado, sua versão e luta da forma que lhe aprouver. Nesse sentido, a menção a “boicote” é bem adequada, pela própria origem da palavra, que diz respeito à luta dos trabalhadores em condições opressivas. Ocorre, PORÉM, sem contudo discordar do fulcro do argumento da Stephanie, que o silenciamento do outro (no caso, do negro, muito claro, por exemplo em O Homem Invisível, de Ralph Ellison, um clássico para todo o sempre) tem uma base objetiva e uma outra, subjetiva. E no caso ESPECÍFICO da Stephanie, assim como de muitos que com ela se identificam, o caráter subjetivo desse silenciamento diz respeito a um autoreconhecimento, ASSIM COMO a um reconhecimento por parte do outro. O autoreconhecimento é eminentemente subjetivo, não objetivo. Mas que a sociedade precisa, sim, dar condições para um reconhecimento igualitário em suas bases objetivas, disso estamos – creio – todos de acordo. E o resto, a luta? Deve ser individual ou coletiva? São questões importantes, essas, que abordarei também depois. Essa questão do objetivo-subjetivo fica clara neste trecho de sua fala: “Quando é que eu vou ter o privilégio de não saber o que eu sou? Agora, vocês têm o privilégio de não saber o que eu sou, me marginalizar, me oprimir, e ainda me chamar de censuradora. É ótimo esse privilégio!” Peraí, vem cá, onde está a marginalização DA STEPHANIE n o “privilégio de impedi-la de saber (de ela saber) o que ela é”? Peraí, a qual opressão ela está se referindo? Não entendo claramente, pois, pelo que noto, ela está numa busca ferrenha por sua identidade enquanto mulher, jovem, negra, heterossexual etc., mas neste caso o blackface é apenas parte dessa busca. Claro, a Stephanie avança em todos esses campos, nessa busca incessante, mas eu, Rodrigo, ou mesmo a sociedade, têm algo a ver com A BUSCA ESPECIFICAMENTE DELA? Que eu saiba, não. Mas, e de pessoas como ela? Tudo bem, enquanto grupo oprimido, ok. Mas em que medida essa opressão se dá? O que fazer contra ela? Dúvidas e mais dúvidas. Mas é preciso mesmo fazer algo contra isso, ou mesmo a favor do fato de gente como ela, EM PARTICULAR, esteja em busca de sua identidade? Dúvidas. Em que medida esse discurso deve parar? Deve parar? Que é “é importante as pessoas se abrirem pra escutar essas vozes. Mas essa abertura tem que vir com o diálogo, principalmente, de que pessoas brancas não pautam a luta dos negros.”, disso ninguém aparentemente discorda. Mas a que ponto iremos chegar, no frigir dos ovos? Seja como for, há aqui uma distinção clara, a que já me referi. Ela nega ser censuradora ou ser tachada como tal. Ok. Mas diz que a discussão deve se dar em termos de pauta – ou seja, de agenda, daquilo que precisa ser discutido e sobre o qual precisa-se lutar. Notam aqui como aquela minha distinção entre censura e normativismo fica clara, e ainda mais, aqui? Pois é.

Ainda o Aimar Labaki: —Eu realmente fiquei emocionado com o que a Stephanie falou, no sentido de que eu nunca vou saber o que é ser negro. Eu sou branco. E, apesar de ter nascido na extrema pobreza – não parece, mas é verdade –, eu tive uma série de sortes que, se eu fosse negro, eu não teria. Então, o meu ponto de vista é de classe média, branco, olhando para a minha realidade. E, desculpa, eu sou interlocutor também. Vocês vão ter que falar comigo também. Eu tenho que falar com vocês, vocês têm que falar comigo. Não acho que a gente seja tão diferente quanto parece. Do meu ponto de vista, a questão do racismo eu vejo de uma forma intelectual, eu não vejo de uma forma emocional. (...) Por isso é que eu entendo e concordo quando você diz: “Não importa se é blackface ou não, é racismo”. Da mesma forma, eu digo: não me importa se é racismo ou não, é censura. (...) Se você tira uma peça de cartaz, seja lá qual for, porque uma parte da população, por mais que seja a maior parte da população, não quer que ela aconteça, nós abrimos um precedente num país que é autoritário, num país onde não há tradição de liberdade de expressão. Você abre a Caixa de Pandora. Em seguida você vai ter os reacionários, você vai ter os militares, você vai ter o diabo a quatro querendo que as coisas não sejam apresentadas porque eles acham que não estão representados nela. Isso não significa que se deva calar a boca de ninguém, muito menos do Movimento Negro.

COMENTÁRIO A ESTA FALA DO AIMAR: Não quero ser desrespeitoso, mas a menção à extrema pobreza (sobre a qual procurei, e nada achei) do nascimento do Aimar pode, claramente, ser interpretada como um recurso retórico de baixíssimo nível, assim como a admissão – que ocorreu em mim, aliás, em priscas eras – de que a situação do outro pode nos emocionar – algo que efetivamente mal diferença faz na discussão. Em seguida, ele se coloca como interlocutor – como se isso fosse necessário, pois se assim não fosse não teria por que a comunidade negra se colocar publicamente – e diz que “não acha que a gente seja tão diferente quanto parece”. Isso me é tão engraçado, porque o argumento por definição da comunidade negra no debate é justamente dizer o oposto: SIM, SOMOS TÃO DIFERENTES, E ISSO PORQUE SIMPLESMENTE NÃO PARECE, E NÃO PARECE PORQUE QUEREM NOS CONVENCER DE QUE NÃO DEVE PARECER. Mas, deixando isso de lado um pouco, percebem que ele contrapõe a posição deles (não importa se é blackface ou não; é blackface) com a própria (não importa se é racismo ou não; é censura)? A argumentação que se segue é a de sempre: a questão do precedente, como se o fato de a política não corresponder necessariamente àquilo que determinamos seja justificativa ou arrazoamento para deixarmos que tudo fique como está. Ou seja, o precedente de impedir a peça seria mote para outros, MENOS BEM-INTENCIONADOS, pleitearem e conseguirem o mesmo. Nós soubemos de uma tentativa desse tipo – contra peça do José Celso – e que deu com os burros n’água. Só isso já seria suficiente para dizer que seu (dele) questionamento funda-se no seu ceticismo quanto à justiça, o que é outro tipo de discussão. Agora, o Neves, novamente: —A gente fez apresentações, em 2003, e a peça foi pro baú. Quando ela retoma, a gente leva um susto. O Eugênio fala assim: "Fernando, pensa o que é isso. É uma coisificação de uma ideia que traz muito sofrimento pra muita gente só de olhar. Não precisa ver a peça". Eu falei: é um totem. É um totem. Então tá errado, a máscara de circo não foi feita pra isso. A minha família, todo o trabalho, tudo, quem fazia essa máscara era a minha mãe. Ela não foi feita pra isso. Ela foi feita pra divertir. No circo, drama é pra chorar e comédia é pra rir. Ela não foi feita pra ridicularizar ninguém. Tanto é que, se vocês olham os tipos de A Mulher do Trem, a mulher que faz a dona da casa, ela tem o nariz torto, a boca torta. Não é assim, que o negro tá pintado e todo mundo tá com cara e pele boa. Não é. Tá todo mundo ridicularizado. Porque era isso que o circo fazia. Então, quando o Eugênio me explicou o que era isso, eu falei: então essa máscara tem que sair de cena. Ela não pode ficar, ela não foi feita pra isso. Como várias vezes, durante a História, várias máscaras e vários tipos tiveram que sair de cena. Eles se ressignificam e voltam. O teatro é vivo. (...) Para tudo! (...) Essa máscara tá fora de cena. Ela tem que sair de cena. Porque ela não foi criada pra causar dor em ninguém. Porque é tudo o que a gente não quer na vida. E nossa arte, tudo o que a gente tá fazendo, não se baseia nisso. Eu não quero, e nenhum dos Fofos quer. (...) Então, o que eu queria dizer é que apoio essas falas que ouvi até agora, tão sábias. Eu apoio plenamente. E... estas máscaras estão fora. (...) A gente tem que trabalhar na alegoria que existe na arte popular pra trazer reflexão. Antes, ela era forma. Agora ela tem que ter um engajamento. Ela é posta pra gente discutir. Eu quero agradecer muito e pedir desculpa a todos que eu tenha ofendido (...) Foi uma coisa que me machucou demais. E me trucida, porque isso é tudo o que eu não queria na minha vida. Então, essa máscara tá fora de cena, como tá fora qualquer tipo de preconceito, qualquer tipo de racismo e qualquer tipo de violência. COMENTÁRIO A ESTA FALA DO NEVES: O Neves, aqui, me lembra a mim mesmo, quando lá pelos idos dos 2000, discuti a questão das cotas na Faculdade de Educação. Pois, contrariamente àquilo que eu imaginaria na ocasião, fora a emoção, por um lado, e o convencimento de que a dor da exclusão não deveria ser perpetuada, que motivaram-me a concordar com as cotas, e tudo o mais. Ocorre que aqui parece haver também uma espécie de exaustão, como se a pesquisa de Neves tivesse que ser excluída do interesse por um bem maior, qual seja, evitar a ridicularização, mesmo que esta diga respeito a tudo, a todos os caracteres, e não diga nada em especial que historicamente falando poderia ter sido considerado indigno. É uma espécie de renúncia, dolorosa, e radical. Ocorre que aqui eu coloco a seguinte discussão: afinal, o teatro não “serve” também para ridicularizar o ser humano e mostra-lo como ele efetivamente é? Ou seja, não está dentre as funções do teatro simplesmente espelhar o ser humano consigo mesmo? Ou seja, na medida em que evito a ridicularização, não estou subestimando o ser humano, formatando-o àquilo que ele mesmo acha de si, em sentido consciente, evitando assim ou dificultando assim que ele se defronte consigo mesmo? Acaso não é essa, dentre outras, a função específica da arte? Em que medida Neves recusa, ao aceitar a censura ou autocensura, a própria função específica de artista e mesmo da arte? É triste, isso, algo que eu já havia afirmado em minha discussão com a Stephanie.

Agora, o depoimento de Max: —Meu nome é Max. Eu sou ator... Eu era ator, mas eu me tornei produtor cultural por ausência, por necessidade de produções culturais em que eu me sentisse um pouco mais digno. Digno. Acho que é a palavra perfeita pra ocasião. Eu vou falar a partir da minha pele preta natural e do meu cabelo normal, embora alguém em 1930 tenha dito que existiam cabelos normais e outros sei lá o quê. Né? Decidiram o que era normal e o que era natural. (...) É interessante como o branco treme quando vai perder o privilégio. Então, de repente, quando você toca no privilégio daquele que sempre pôde falar como quiser, de quem quiser, na altura que quiser, alguém fala: "Eu não gostei", e chamam essa pessoa de Estado. Né? (...) Os negros, que nunca tiveram sequer grandes papéis no Estado, são censuradores. Não houve Ministério Público, não houve DOPS, não houve Conselho da Comunidade Negra, não houve SEPIR (Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial) mandando, enviando. E ninguém nem foi perguntar aos Fofos se era censura ou não. (...) As pessoas assim... com um treme-treme de perder esse espaço. Eu acho que é aí que o copo tem que esvaziar. A gente, enquanto homem, vai ter que perder privilégios para dar espaço às mulheres, aos homossexuais. A gente, enquanto sudestinos, vai ter que abrir espaço nos editais pra que o Norte seja contemplado também. E talvez os brancos ainda não conseguiram dar um milímetro de passo pra perder seus privilégios. Ou pra compartilhar os privilégios nas universidades. Compartilhar o privilégio desse diálogo. Eu fiquei com medo de ter que fazer barraco aqui, (...) achando que ia ter uma palestra de pessoas justificando oblackface. Eu tava preparado pro barraco. Sério mesmo. Nunca vi o mercado financeiro abrir espaço pra um debate desse. Nem o Estado, nem o mercado financeiro. (...) Eu quero colocar essa questão pras pessoas pensarem o que é esse privilégio. Uns amigos falam: "Mas eu não tenho privilégio de ser branco!". Eu falo: você tem avô, avó? "Tenho". Então você já é branco, porque a maioria dos negros não conhece os avós. Você pode andar na rua sem o carro da polícia pelo menos parar um pouquinho pra dar uma olhada em você? Ele nem sabe o que é isso. Você para um táxi e ele para? Ele nem sabe o que é isso. Então, você tem um monte de privilégio de ser branco. Só que você tem o privilégio do privilégio de nem pensar nos seus privilégios.

COMENTÁRIO À FALA DO MAX: Já nesta fala do Max fica clara uma consequência danosa – aos brancos ou aos até agora privilegiados – dessa questão do espaço para os não-privilegiados, qual seja, o preço a se pagar por isso, a redução do espaço dos brancos e daqueles que naturalisticamente dominaram o panorama até agora. Realmente isso é interessante e verdadeiro. Pois basta eu dizer àquele que dirige – por exemplo – no teatro costumeiro que ao aceitar a compensação pela via normativa ele não apenas estaria abrindo espaço para atores negros ou outras funções ditas subordinadas, mas justamente para gente que viria a ocupar o SEU lugar, aparece uma espécie de lamento de que as coisas assim iriam necessariamente acontecer, e que seu (dele) trabalho estaria agora sendo relativizado (assim como sua importância) e que portanto ele iria aos poucos PERDER O LUGAR. Até agora, muitos brancos realmente parecem não terem se apercebido da situação. E o Max aborda isso claramente. Porque aqui tudo está sendo abordado como privilégio. Mas eu gostaria de relativizar. Seria APENAS privilégio, mesmo? Ou não seria também uma espécie de conquista? Alguém por exemplo consideraria que o trabalho de um José Celso tem embutido em si alguma espécie de privilégio? Afinal, venhamos e convenhamos, ele sempre foi um estandante da liberdade contra qualquer poder constituído. Como dizer que ele, por ser branco ou de determinada condição social, é mera e estritamente uma pessoa que fez uso de privilégios? Claro, em sua época poderiam ocorrer os surgimentos de outros luminares, de origem negra, por exemplo. Mas até daí dizer que ele, José Celso, faz parte de uma elite que congrega em si privilégios (é chato falar assim, pois quase me dói achar que um José Celso seria favorável a privilégios) vai uma longa história.

Agora, trechos do próprio texto da Elaine: Um boicote da peça teria me parecido mais democrático, mas não a suspensão da peça. Protestos na porta do Itaú Cultural, o que possivelmente aconteceria se ela fosse encenada – perspectiva, aliás, que deve ter assustado os envolvidos –, causariam comoção e discussão. E a peça lá, no palco, provocando e sendo provocada, para possivelmente nunca mais voltar do mesmo jeito. COMENTÁRIO: Elaine coloca sob questão o método pelo qual a peça não foi encenada: censura, autocensura ou algo mais. E diz que, a seu ver, teria sido mais interessante se tivessem havido protestos, comoção, discussão. Correto, sob o ponto de vista de quem pode achar que democracia é participação. Ocorre que isso é duvidoso, dado que para muitos tudo isso é parte apenas de uma discussão de poder. Ok, formalmente a questão é de não promover indignação, mágoa, ausência de reconhecimento ou mesmo fomento de racismo. Mas também pode estar por detrás uma espécie de discurso que impede manifestações contrárias, mesmo que teatrais, abertamente questionadoras, seguindo a tradição do teatro. Sob esse ponto de vista, parece-me quase pueril achar que a discussão é simples, em suas consequências. Daí que simplesmente assumir que seria até conveniente que a peça provoque e seja provocada para nunca mais voltar do mesmo jeito é, para a vertente que advoga o discurso de poder, quase ingênuo: nunca mais voltar do mesmo jeito? Não, nunca mais voltar mesmo. E mais: assumindo as coisas dessa forma, pode-se, SIM, temer que outros grupos façam uso da mesma argumentação, como por exemplo os evangélicos, os criacionistas, e por aí vai. Nesse sentido, o trecho em que Elaine como que identifica o teatro a subversão (no bom sentido), como “Sem ser encenada, a peça teatral provocou uma outra cena, que também a contém. Arte e política como categorias indissociáveis, imunes a delírios de pureza e de significados em si e para si. Profanadas, sempre, pelo mundo e pelas circunstâncias. Teatro.” parece-me também bastante pueril ou mesmo ingênuo, dado que, assumindo que perde seu lugar de contestação, o teatro realmente deixa de ser o que é, e passa a ser controlado pela própria sociedade, sob o pretexto ou a conveniência ou a manipulação ou mesmo a razoabilidade de políticas que escapam a ele, teatro. Pego outro trecho para conduzir a discussão ainda mais além, da própria Elaine: “Porque talvez o fato de eu pensar sobre isso como uma censura, num momento de construção de uma democracia cheia de buracos, seja um privilégio meu, como branca, que não sei o que é ser negra neste país. Posso escrever sobre isso, como escrevo, posso tentar vestir a pele negra, como tento, mas ser é de outra ordem. E esta ordem eu preciso admitir que não alcanço. E talvez a ruptura seja a única forma para aqueles que não têm privilégios serem escutados pelos que têm privilégios. Talvez seja este o momento do Brasil. E talvez seja importante que assim seja, porque já se passou tempo demais para uma abolição não ter sido completada. Talvez a escravatura só acabe, de fato, a partir de rupturas como esta.”

COMENTÁRIO: Eu mesmo me peguei pensando diversas vezes dessa forma ao falar com a Stephanie, a garota que criou a discussão. Ocorre que, pensando de forma relativista (como branco que sempre teria sido beneficiado ou privilegiado), eu passo a admitir que “não sou o outro” (o que é óbvio), a imaginar que a ruptura por parte dos que não têm privilégios seja a única forma (para eles) de serem escutados, e que, ainda segundo Elaine, “talvez seja este o momento do Brasil”. Ok, mas, primeiro, falando em nome eminentemente pessoal, eu não me considero privilegiado. Sou branco, estudei em escola estadual, passei na USP após cursinho, fiz o que fiz, não me dando aliás muito bem, e não me considero privilegiado por tudo isso. Ocorre que, sob o ponto de vista da Teoria da Justiça de Rawls (o livro que motivou toda esta discussão), eu fui, sim, privilegiado. Ok, imaginemos que sim. Ocorre que por causa disso eu tenho NECESSARIAMENTE de admitir que, em nome do outro, este seja o momento do Brasil? Não, ao menos necessariamente. Se esta pode ser a única forma de eles serem escutados, ok, mas, vem cá, e eu, não tenho o direito de ver o que me apraz? Por que devo aceitar ser privado de ver o que quero (neste caso, a peça em questão)? Por que preciso necessariamente dar maior relevância à demanda do outro? Por que preciso NECESSARIAMENTE abaixar a guarda e, em nome de um ideal de justiça, assumir um ato que, em termos de meus interesses em particular, não é necessariamente injusto? Outro trecho em particular me atrai: “E talvez seja importante que assim seja, porque já se passou tempo demais para uma abolição não ter sido completada. Talvez a escravatura só acabe, de fato, a partir de rupturas como esta.” Peraí, a abolição não foi completada? Que realmente existe a situação injusta (muitos mais negros sendo mortos que brancos, por exemplo), isso é fato. Mas daí a concordar com o fato de a escravatura não ter acabado? Como assim? A que escravatura estão todos se referindo? São perguntas, vejam, são perguntas. Pois, em nome de não indignar quem se sente vilipendiado, eu posso (digo POSSO) estar entrando numa postura simplesmente de poder, de que agora PRECISO necessariamente me ENCANTAR com o fato de MEUS INTERESSES (DE LIVRE EXPRESSÃO OU DE ASSISTIR O QUE QUERO) estarem sendo jogados para trás. Claro, os interesses deles (dos negros) foram jogados o tempo todo para trás? Sim, com certeza, e vejo isso de forma veemente com o passar do tempo, dada a influência do discurso da Stephanie, em especial. Mas daí a aceitar que eu tenha de aceitar necessariamente o predomínio LEGAL, com base na lei, de outro tipo de discurso são outros quinhentos. Confesso que eu mesmo nem me importo tanto, dado o quanto aprendo ao ver o discurso negro, se é que isso existe, alheio, mas incomoda-me assumir que MEU LADO tenha de ser necessariamente JOGADO PARA TRÁS por mim mesmo em nome de uma justiça social que não NECESSARIAMENTE pode me dizer respeito.

Novo trecho da Eliane: “Fiquei pensando sobre a enormidade desse privilégio, que é o de não ter que pensar nos meus privilégios. E fiquei pensando a partir de um grupo no qual tenho a pretensão de me incluir: o dos brancos não racistas, o dos brancos que denunciam o racismo e lutam contra ele. Percebo que, por mais profundo que seja o discurso do branco, por mais articulado, ele fala a partir de um lugar do qual teme ser deslocado, consciente ou inconscientemente. E, assim, sempre que possível, adere, aliviado, ao discurso mais intelectualizado, aparentemente limpinho, que no caso das cotas era o de que raça é algo que não existe ou que o problema do Brasil é social e não racial etc etc. E aqui, talvez, o discurso de adesão capaz de manter as boas aparências seja o da censura ou da liberdade de expressão. De certo modo, o discurso do melhor branco é sempre contemporizador.”

COMENTÁRIO A PARTIR DA ÚLTIMA FALA: Retiro, deste último trecho de frases, e de uma argumentação que eu fazia anteriormente, um outro questionamento do quê eu poderia entender por privilégios. Pois, para além dos privilégios de branco e negro, é preciso entender o seguinte. A própria Elaine Brum é uma moça, com certeza de boa família, que escreve como articulista numa grande revista ou num portal. Eu PODERIA, portanto, questionar (mas não questiono) o que fez com que ela tivesse as oportunidades de estar onde está. Ela é branca, ok, mas também é bonita, deve ter boa família, com todas as consequentes vantagens de uma boa criação, dos bons antecedentes, das boas práticas relacionais sociais, que eu mesmo POSSO não ter tido. Nesse sentido, eu PODERIA dizer que ela foi privilegiada de diversas formas para chegar aonde chegou. PODERIA dizer que eu fui criado numa família disfuncional. PODERIA dizer que sou de origem estrangeira, portanto eu não tive todas as facilidades inclusivas que uma pessoa nativa normalmente tem. PODERIA dizer que eu sempre fui de uma família pobre, e que portanto não TERIA TIDO (eu) suficientes oportunidades para sequer CONCORRER com ela a uma vaga. PODERIA dizer também que, tendo sido meu pai psicótico, eu deveria ser ajudado a conseguir um bom lugar (ou melhor lugar) no mercado de trabalho. PODERIA eu dizer que eu mereceria um acompanhamento psicológico, dada minha condição. PODERIA também argumentar que, dado ser esquizofrênico, eu deveria ter uma ajuda a me colocarem no mercado de trabalho. Haveria alguma mentira nisso tudo? Não, nenhuma. Tudo isso que eu disse é verdade. Sim, tudo isso é verdade. Mas, seja como for, eu não peço. E por quê? Em primeiro lugar, consegui o que consegui por esforço e mérito próprios. Em segundo, não acredito na necessidade de apelar a critérios seletivos que me beneficiem para chegar a algum lugar, seja lá qual for. Em terceiro lugar, não sinto que precise disso. Mas todos esses pontos apoiam-se numa questão bem particular: eu quero não continuar sendo beneficiário, ou sendo excluído de alguma forma, ou sendo considerado doente – que sou – e tratado dessa forma, mas QUERO SER NORMAL. Pois, por detrás de todo esforço inclusivo creio que seja necessário que a pessoa incluída ou a ser incluída seja considerada ou seja sentida ou se sinta como IGUAL, e não como diferente, ao menos em questões formais que dizem respeito a sua identificação como ser social. Ocorre que por detrás de toda essa exigência de tratamento diferenciado e todo esforço dos negros de se autorreconhecerem como tal parece haver um esforço dantesco em se sentirem como DIFERENTES E DE SEREM TRATADOS COMO TAL. É realmente isso o que um ser social deve querer, aquilo a que deve aspirar? Eu discordo. Pois creio que a grande liberdade de qualquer ser humano, independente de sua condição atual, é a de SAIR DE SUA CONDIÇÃO OPRESSIVA, e não necessariamente de ser BENEFICIÁRIO DELA, NA MEDIDA EM QUE TENHA DE SER AJUDADO PARA ISSO (sendo que nem sei se realmente o ser ajudado queira realmente ser igual aos outros). NÃO DESMEREÇO DE FORMA ALGUMA as questões abordadas por Rawls e todos os outros na questão de os seres oprimidos serem de certa forma compensados pela opressão que sofreram. Mas incomoda-me profundamente que isso se torne política compensatória que parece, NO MÉRITO, não ter fim. Pois hoje sabemos que há quem queira políticas para aquelas que são olhadas nos peitos ao invés de nos olhos, para outras que queiram, mais que cotas, tratamentos diferenciados quanto a leis que não deveriam incluir exceções (tortura de animais para cerimônias religiosas, etc.), e muito mais, que, CLARO, no contexto geral, são manifestações menores, mas que servem meio que para reforçar um certo discurso de vítima que não sei a quem beneficia. Reparem: acompanhei as discussões normativas sobre as cotas, e concordo com elas; sou esquizofrênico e poderia me beneficiar de outras, sabendo de todos os interditos a que estou sujeito em minhas condições. Mas não concordo com que isso deva, em certos aspectos, ser considerado motivo para políticas, ou mesmo para exceções a regras – como aqui, em que a peça foi, sim, censurada por um braço privado cultural a partir de pressões da opinião pública que não foram julgadas como devido, por especialistas, e que portanto obedeceram àquela lei de “o que foi decidido, decidido está”. Parece-me como algo como as mais de 6000 mortes por drones a partir dos Estados Unidos. Não havendo instância jurídica a julgá-las (ocorreram fora dos Estados Unidos e não têm jurisdição pelas partes envolvidas), essas mortes oficialmente não ocorreram enquanto atos jurídicos, ou seja, são apenas fatos consumados. A censura ou autocensura da peça terá de passar pelo mesmo? Afinal, existe lei aqui, e existem argumentos de um lado e de outro. A meu ver, esta questão deve ser julgada, e não assumida como fato consumado.

CONTINUO O COMENTÁRIO A PARTIR DA ÚLTIMA FALA DA ELAINE: Comento agora este trecho em específico: “E fiquei pensando a partir de um grupo no qual tenho a pretensão de me incluir: o dos brancos não racistas, o dos brancos que denunciam o racismo e lutam contra ele. Percebo que, por mais profundo que seja o discurso do branco, por mais articulado, ele fala a partir de um lugar do qual teme ser deslocado, consciente ou inconscientemente.” Primeiro, vc não tem a pretensão de se incluir no grupo dos brancos não-racistas. Você é efetivamente membro desse grupo, dos brancos que denunciam o racismo e lutam contra ele. Mas você não faz parte apenas desse grupo, mas também do dos brancos a favor da liberdade irrestrita de expressão, a partir do dos brancos que não querem ser taxados de racistas, do dos brancos que não querem ser acusados de serem racistas (porque não são), do dos brancos que entrariam na justiça caso fossem caluniados dessa forma e por aí vai. Ou seja, não é porque vc diz que é considerada pretensiosa ao lutar como branca contra o racismo que necessariamente você deveria ser obrigada a aceitar a censura ou autocensura de uma peça por pressões políticas e sociais contra ela. Por outro lado, não é verdade também que por mais profundo que seja o discurso do branco, ele fala de um lugar do qual teme ser deslocado. Não, simplesmente o discurso do branco é de um jeito tal e deve ser considerado como tal. Se por outro lado seu discurso leva à sua (do branco) perda de predominância, hegemonia ou correção aparente, tudo certo, é consequência inelutável das posições tomadas a partir dele. Não se pode julgar o discurso do branco a partir do seu lugar; mas este também não deve achar que seu discurso pode salvá-lo de desocupar o seu lugar, privilegiado ou não.

CITANDO AINDA O TEXTO (LOGO PRETENDO FUGIR DELE): “Quero acrescentar duas falas que representam minhas melhores esperanças, ainda que eu saiba que esperança também é um privilégio de poucos. A primeira é do mesmo homem da plateia que se apresentou como “4 Ps”: — A pergunta talvez seja: neste contexto, que é novo, como é que nós inventamos uma outra sociedade? Porque, como professor de História do Teatro Brasileiro, eu não estou interessado em revisar a história do teatro brasileiro, eu estou interessado em inventar uma outra História. Acho que este é o ponto.” E “No meu teatro, Estrela D’Alva tem a última palavra: — Se a paz não for para todos, ela não será para ninguém.”

COMENTÁRIO ÀS DUAS FALAS: Com respeito à primeira, é claro, em minha opinião, que a história vai além da história do teatro, ocorre que ao desistir, não se interessar, pela história do teatro, e ao contrário se interessar por inventar uma outra história, de forma geral, o professor está com isso condenando a história, de forma geral, a ter apenas uma versão, e ao fato de o discurso minoritário, mesmo que considerado racista (se o for), ou mais complexo (se não for racista), simplesmente desaparecerá, tendo em vista aquele chavão, clichê, de que a história é feita pelos vencedores. Queremos isso? Pois afinal de contas com tudo isso teremos apenas uma versão dos fatos, nos anos vindouros, e a versão perdedora perderá com isso inclusive a legitimidade do direito à fala. Interessante, isso, pois pelo que eu saiba será a primeira vez que isso ocorrerá – o roubo da fala por meio de pressão política, e não por meio de lei, ou do juízo a partir desta. Curioso. Quanto à última fala, só uma questão. É claro que a democracia é para todos, e deve ser de direito e de fato. E neste caso, na medida em que o direito à dignidade de quem se sente atingido pelo blackface passa a ser contemplado com uma atitude digna – a sua retirada de circulação (lembrem-se de que eu concordo com a medida), essa democracia passa a ser valorizada, e bastante. Porém, não é verdade 1) que a questão diga respeito a paz (diz respeito a atitude de fato por algo que de direito não foi julgado); 2) que a atitude diga respeito a todos (não, diz respeito aos negros de forma geral, o que nem por isso é ilegítimo).


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