o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Ser

Sinto-me cada vez mais à vontade na persona de um homem de meia idade que sabe o que é o amor (experimentado por ele e para ele, se bem que em medidas aparentemente ínfimas, de certa forma), que está solteiro, que acredita na descoberta de outros universos (aparentemente inesgotáveis, na medida do processo de conhecimento a que teve acesso), que suspeita quanto à maior profundeza de universos por meio da monogamia, que tem muita energia e convicções, assim como talentos (aparentemente), e que não parece mais ter medo de nada naquilo que a isso diz respeito (beleza, intimidade, devassidão, devastação interna, sofrimento, desgraça, dedicação e entrega).


betty-boop-vermelho.gifPoderia parecer que está tudo bem, mas é mentira. E assim é porque sabe que comete erros e mais erros, uns atrás dos outros, e pior – não sabe quando. Mas como aprende rápido e insiste em destruir as carapaças entre ele e os outros e as entre ele e ele mesmo, sente que pode ainda ter chance. De quê? Disso que muitos consideram fundamental na vida: encontrar um grande amor.

Na descoberta das mulheres é onde ele, hoje, mais aparentemente ganha e vence. Pois para ele as mulheres sempre foram seres de outro planeta (ou outros planetas) aos quais ele parecia dever alguma coisa e cujo controle (ou convívio, pois controle é forte demais) ele nunca descobriu como poderia se dar. Controle porque este cara, eu, sempre teve medo, demais, e agora que entende como pode se expor, sem sofrer demasiados danos, percebe que deve ter uma espécie de postura a esse respeito: ao controle do que aparece, qual seja, paixão, amor ou algo mais.

O maior objeto de controle que ele divisa atualmente, nesse conhecimento e reconhecimento das mulheres, diz respeito à beleza. Pois a beleza sempre o constrangeu. Pois à ausência de beleza ele acabou se acostumando por via de sua ex-mulher. Pois um dos fatores que o prenderam desnecessariamente a questões menores foi a beleza incontida da mulher que lhe deu o kick my ass responsável por revelar-lhe aos poucos o mundo. Pois na beleza ele distingue o começo dos problemas, das tentações e do foco em soluções eminentemente práticas; ele deve continuar se sentindo diminuído pela beleza alheia, constrangido até, e por isso motivado a melhor dominar o tempo e o espaço para não sentir tanta insegurança? Ele tem de esconder o tesão que sente sempre que surge algo fora da medida? O que ele deve fazer a respeito? Deve fazer algo em linhas gerais? Este texto é apenas uma breve aproximação às questões que envolvem a beleza, para esse cara, eu, e quanto às dimensões a que ele precisa se ver sujeito para superar todo e qualquer obstáculo de peso com respeito àquilo.

1

Ontem, pouco antes de me aprontar para a peça (que não teve), a E chegou acompanhada de uma amiga, cuja beleza distingui logo de cara. De altura mediana, enxuta mas muito atraente, a amiga da E (que chamarei de T) parecia irradiar uma luz própria que mesmo sem olhá-la detidamente me constrangeu nas camadas mais profundas, aquelas escondidas que nos dizem que algo pode haver por ali. Como a peça não saiu, saímos para falar com o pessoal restante – eu estava encafifado quanto à presença de T –, por que ela estaria ali, afinal? E e T estavam no balcão bebendo algumas coisas.

Não me cabe reproduzir as conversas que ocorreram, até porque elas ocorreram entre nós. Mas com respeito ao potencial da beleza contida na garota e ao problema de me sentir constrangido a respeito, tenho de dizer o seguinte.

Mas devo ir aos poucos.

Toda minha vida a mera presença feminina parecia quase me ferir. Os motivos são óbvios, mas a realidade nem tanto. O principal desses motivos era a excitação. Mas não sexual, quero dizer. Ao menos num primeiro instante, a excitação da beleza, dela mesma, fazia com que minha experiência meio que se digladiasse consigo mesma. Havia partições, similares ao que parece aos picotamentos enfrentados por outra pessoa. Por um lado, havia a vontade louca de simplesmente observar – como noto em muitos homens que, sem motivos que possam justificar aproximações indevidas (a maior parte do tempo), falam muita merda só para se aproximarem, tocarem ou mesmo beijarem o corpo ou pequenas partes de mulheres bonitas (ontem vi algo assim). Mas no meu caso a observação sempre restringiu-se, ao menos num primeiro instante, a ela mesma. Ocorre que sempre houve também em mim uma ausência de medida, nesse exato ponto. Ocorre por exemplo que eu já queria ver tudo, as partes pudendas, a pele de perto (o que se torna cada vez mais difícil por problemas de visão), a distinção das cores (que às vezes não é possível pelo local em que os encontros ocorrem), a ocorrência de pelos, penugens, que não precisam ser excitantes para atraírem, e tudo o mais. Mesmo a aparente inexpugnabilidade estética das partes sempre me atraiu, e quero dizer com essa inexpugnabilidade a incapacidade de traduzir em termos médios aquilo que eu vejo. Pois joelho feio para mim não é necessariamente feio. Joelho escondido pode ser mais interessante que joelho à mostra. E muito mais está envolvido nisto tudo, e sempre esteve. Como a forma pela qual a garota cruza as pernas, ou o trecho entre essas pernas que parece não assumir forma específica. Ou as diversas acepções que podem assumir um nariz, visto QUASE do mesmo ângulo, e acepções que podem dizer algo SOBRE a garota que ela mesma não parece ver, e tudo o mais.

Outro motivo que promovia (hoje quase isso não acontece) dor em mim pela simples observação e contemplação da beleza era a vontade de, NEUTRAMENTE, experimentar a aparência pelo toque. Claro, hoje sei que, numa real relação sexual, por exemplo, e não numa rapidinha ou mesmo numa orgia, em que tanto acontece que muito fica para trás sem poder ser efetivamente digerido esteticamente, os momentos se multiplicam ad infinitum. Pois eu sempre achava estranho que nos romances tudo ocorresse tão devagar. Mas hoje sei que esse devagar na verdade é fundamentalmente rápido, o mais rápido que se pode fazer quando a questão está na fruição dos corpos que se tocam e que entram em si mesmos, um no outro e o outro no um. Como, claro, sempre houve interdito a fazer essa aproximação tátil, no caso, em desconhecidas, ou mesmo em conhecidas que poderiam não gostar disso, havia um sofrimento iminente a surgir sempre que havia um encontro. Por outro lado, dada minha timidez devastadora e minha intenção em nada fazer de errado, havia também a incapacidade de ACEITAR em mim a liberdade de efetivamente conhecer o outro – no caso, a garota – nos moldes daquilo que ele, ela, efetivamente são, enquanto corpos. Por outro lado ainda, sempre houve a necessidade de ISOLAR esse conhecimento do eventual envolvimento, dado que meu desejo era eminentemente estético e não de ordem amorosa ou mesmo sexual, dados os meus bloqueios de sempre.

Outro aspecto relevante era a questão (e ainda é) do movimento e da presença idiossincrática da outra pessoa, a garota. Pois o mero movimento repetitivo ou mesmo sincopado acumulava-se em mim como propriedades especiais daquele sujeito que pareciam quer dizer algo de mais profundo que eu não conseguia divisar por outros meios. Ontem mesmo isso aconteceu, na medida em que percebi em T a singeleza de atribuir valores específicos, sumamente especiais e idiossincráticos, a coisas que outras pessoas passariam batido ou que abordariam de forma superficial. Por outro lado, dada minha eterna insegurança, sempre me bateram indisposições diante de supostas falsidades (refiro-me à oposição verdadeiro/falso) que poderiam ocorrer diante daquilo que eu via (ou seja, impressões falsas), diante de enganos (supostos ou verdadeiros) que a pessoa, a interlocutora, estaria cometendo comigo (dada minha incapacidade de fazer, novamente, de tantas outras vezes, papel de otário) e por outro lado a incrível curiosidade de saber como é que, num universo vocabular especial a cada um, tal “mueca” (trejeito) poderia dizer alguma coisa e tal coisa poderia ser alvo de paradoxos que poderiam levar a uma verdade entranhada e ABSOLUTAMENTE PECULIAR a cada pessoa. Claro, em tudo isso também havia a suposição de que, se eu não tivesse nada daquilo, não poderia me aproximar realmente daquela pessoa, dada minha dificuldade de sentir ou minha extrema capacidade de sentir sem sentir ou minha efetiva dificuldade de traduzir isso em diálogo que poderia ser marcante para mim e para a pessoa. Sim, sempre a conquista, como em qualquer homem ou mulher. Mas até hoje a distância entre fala e gesto é ampla demais para entrar em alguma suposição mais trabalhada a respeito. Claro que com todo esse conhecimento adquirido eu passava aos poucos a dominar os vocabulários como um expert, com o problema de que, quanto mais eu o dominasse, mais isso se tornaria patente e mais clara se tornaria a artificialidade da minha personalidade, toda protegida, nesse contexto todo particular. Que é o que se expressou amargamente em minha relação com aquela garota de que falei, com quem entendi bastante mais da vida.

O domínio da beleza, é claro, permeava todos os momentos dos contatos, e não foi diferente quando encontrei T. Conversando sobre diversos assuntos, dentre os quais a presença das pessoas em redes sociais, fui aos poucos percebendo nela particularidades que aproximavam-na de uma presença não como pessoa particular, mas como persona, e a beleza – que ela já possuía – começava então a adquirir vida própria, embora – por aspectos ligados a ela mesma e a mim, ou seja, a gostos pessoais – não viesse necessariamente a gostar tanto daquilo que via. Na verdade, como quase sempre, eu encarava a conversa como uma amostra daquilo que ela já era, assim como também como uma espécie de prenúncio das dificuldades que com ela eu iria claramente experimentar com o passar do tempo, caso ela continuasse indo lá, ao teatro. Outro aspecto interessante era como a idade dela – que eu nem sei – ia esmaecendo muito aos poucos, na medida em que eu identificava em seus comportamentos aspectos esperados de gente que assume desde cedo uma certa matriz de pensamento e que depois passa naturalmente a abusar desses aspectos, sem ao menos se aperceber. Pois a idade para mim não diz respeito necessariamente nem muito menos essencialmente a aspectos de ordem física, mas à interface entre o físico e o psicológico ou mesmo entre o fisiológico e o expressivo, interface essa que realmente mostra, enquanto ocorre uma conversa, em que ponto está essa pessoa no gradiente todo de comportamentos supostamente esperados. Nesse sentido, e isso também me surpreendeu (algo que não iria ocorrer com outras conversas na mesma noite, ou pelo menos não com uma das duas restantes), fui percebendo, já no primeiro encontro, como determinados trejeitos assumiam um ar quase carinhoso (em mim) dado que já percebia o futuro apenas vislumbrando o passado enquanto constatava o presente.

Por outro lado, ao final da conversa entre nós, e pelo simples fato de ela ter me colocado contra a parede em função de questionamentos que pareciam não ter eira nem beira, e que na verdade consistiam em algo de supositório (suposto), tendo como base MINHAS inseguranças, percebi nesse momento COMO ela passou a adquirir ares de infinita maior maturidade em relação a mim, e com isso (essa mistura) ficou complexa no final da festa, em que suas inseguranças pareciam-me ditadas pela sua classe social, os desejos pelo seu corpo (depois observados de forma como eu sempre faço, sempre enviesada, como se fosse algo proibido que precisasse apenas ser preenchido) e principalmente pela idade, e nisso a mistura que aparecia era muito estranha, bastante mesmo.

2

Foi então que decidi ir ao fundo do bar do teatro e cair de pára-quedas diante de uma amiga loirinha e jovem, ladeada por duas outras beldades, uma que já há várias semanas – eu havia notado – rondava o local e outra que irei comentar depois (a terceira destas mulheres que acabei conhecendo na ocasião).

Mas não se iludam: eu não considerava, naquela ocasião, aquelas garotas como beldades. Pois eu simplesmente decidira sentir-me bem, sem opressões de qualquer ordem, sendo que nem por isso, contudo, decidira assumir um ar de falsa autoconfiança. Simplesmente decidira ser, e assim passara a me comportar. Tudo era, claro, parte de um processo que não começara nessa exata ocasião.

“Sendo”, então, eu simplesmente me acheguei ao lado da loirinha e disse (ladeado por “aquela que rondava”): “pronto, vim falar mais umas merdas”. “Aquela que rondava” (que chamarei agora de V) simplesmente sorriu, sem demonstrar encabulamento nem surpresa – no máximo, um certo assentimento estóico. Vendo isso, sentei-me e comecei a falar. E não falei uma merda sequer. Simplesmente expus-me como sou e meus motivos para, tendo como base minha seriedade acachapante, decidir-me assumir esse comportamento – de falsa “merdidade”. Sem a menor intenção – sério – de me exibir ou bancar algo que eu não sou. Nem com a menor intenção de simplesmente “puxar papo” – a desculpa para muitos quererem no fundo algo mais. Algo que, por motivos que ainda desconheço, meio que me enoja. Sei lá, caras, eu gosto tanto da sedução e seus interstícios, por um lado, mas tão pouco de estratagemas tidos como tal – e que tão “mal-afamadamente” eu também cometo... Dessa vez, nada disso.

Não irei repetir o que disse, digo apenas que disse e que tudo ficou simples, como era antes. Ela estava ao meu lado, amigo olhava-me a poucos centímetros, e estranhava – ao que parecia – a simplicidade com que eu me dispunha a simplesmente ser. De vez em quando ele meio que me elogiava, e eu agradecia. Mas era aquele tipo de elogio que predispunha o outro (ou outra) seja a um assentimento, seja a uma desconfiança tácita – algo comum naquelas bandas, ou ao menos naquele bar, com aqueles meus amigos.

Ela simplesmente deixava-se ficar. Bonita, nariz levemente arrebitado, branca como poucas, com cabelos loiros ou quase brancos de classificação indefinível, e muito discreta, mantendo o tempo todo uma disposição estóica de quem prefere simplesmente ouvir, o tipo de garota que todo tipo de cara quer comer, ouvia, simplesmente ouvia. E eu dizia simplesmente a verdade que eu era e que eu imaginava era a disposição do mundo que me rodeava. Ela assentia.

O papo rolava, ela falava pouco, mas aparentemente gostava do que se seguia. Em certo momento da conversa, simplesmente assumiu uma verdade que lhe dizia respeito. A partir da qual eu parei. E lhe propus que fizesse algo a respeito – qual seja, escrever.

Não irei dizer o que simplesmente se seguiu. Até porque é muito chato – relutâncias de parte dela, argumentos de minha parte, hesitações e por aí foram e ainda vão. Direi apenas que entramos numa espécie de cumplicidade de termos algo em comum – algum interesse em algo que parece nos dizer respeito, mas que não diz respeito a mim, Rodrigo, em particular, nem a ela, V, em seu particular. Como que assumimos então uma cumplicidade factível assumida num compromisso como sempre bastante tênue. Tão suave foi esse compromisso, aliás, que em conversas posteriores, pessoalmente ou por redes sociais, houve novas relutâncias de sua parte e reações de minha. Mas não importa. Importa mesmo que houve um contato – como quase nunca houvera antes com alguém desse tipo, desse calibre – e acreditem-me, ela é linda. E lhes digo: se soubessem de minhas dificuldades em assumir meras conversas com seres desse tipo...

Mas há camadas mais profundas, sei. E essas camadas eu ainda não consigo devassar – nos outros, e, ainda mais importante, em mim mesmo. Pois agora sei o que parece acontecer em situações desse tipo. E o que acontece é mais ou mesmo isto que vem a seguir.

Eu expresso a verdade como que me protegendo de mim mesmo. Do medo que posso sentir ao tentar ver o que vejo inopinadamente, sem ser eu mesmo. E que é algo que vejo tanto, em tantos ao meu redor, em tantos que cruzam o mundo ao meu lado, à minha frente e que devem sofrer tanto por essas mesmas razões que tanto me destruíram a vida inteira e que por vezes ainda me destróem. E meu, digamos, método é apenas isso: um método. Uma forma de superar. Ou de tentar. Ou de tentar tentar. Porque encontrei essa mesma garota outras vezes. E numa posterior simplesmente meu papo assumiu a artificialidade que sempre quero evitar. E em outra, hoje mesmo, fiquei estupefato diante de uma beleza sem par que pareceu-me impossível de encarar, ao menos naquele momento – e que, claro, não aparentei. E também que assumiu ares novamente desconhecidos quando a vi, ao longe, me olhar com certo interesse. Pois, que eu saiba, isso jamais aconteceu (será? Ou estou passando por crise de autoconfiança? Pouco importa, no fim das contas). Tudo começa a assumir novos contornos, como é claro, e este caso de conversa foi apenas mais um a relatar, como espécie de relatório diante de mim mesmo – o que não é (claro).

3

Lembro-me de que dormi em um dos sofás do bar. As portas continuavam fechadas, e eu estava meio afastado da galera mais movimentada. A música rolava solta, mas não tão alta, como era corriqueiro. Dormi jogando-me e escondendo o rosto em um dos cantos do móvel. O tempo passou e fui acordado aos gritos de alguém que dizia que iriam fechar (minto, havia acordado pouco antes, e, meio sonado, reparado que não havia quase ninguém na parada).

Fui à entrada do bar. Lá estava o diretor jogado numa poltrona, com cara de sono, pedindo para os caras saírem de uma vez. Lá estava o “personagem”, amigo já completamente chapado de uísque, falando merda com outro amigo, também bastante alto, mas não de uísque – e que aos poucos começava a deitar-se no sofá, logo ali. Havia também uma garota, sentada no parapeito da entrada do bar, ao lado de meu amigo. Estavam conversando, sim, mas o diretor queria sair, e só não o fazia porque ainda sobrava uísque na garrafa de Jack, logo ali. Disse ele que tinham de terminar a garrafa. Os caras assentiram. A garota só via. Não estava bêbada, nem alegre, nem aparentemente fora de si. Estava passando o tempo ao lado desses derrotados. O amigo, não o “personagem”, deitou-se no sofá finalmente e deu-nos as costas. O tempo passava e o diretor foi-se deixando assentar na poltrona e dominar pelo sono que parecia abafar tudo como uma forte névoa – inclusive a mim mesmo. O tempo passava e reparei que eles não iriam mesmo embora, como haviam dito. Fiquei meio chateado, porque afinal poderia ter ficado dormindo, afinal, mas escondi. Relutei em dizer ou afirmar nada comigo, com meu rosto, com minhas palavras, com meus gestos, com tudo.

A garota, aquela do parapeito, havia-me sido apresentada logo antes da peça por outra amiga, e ficara por lá aparentemente para curtir a noite. Eu notara antes que ela parecia meio distante, não bem fria, mas distante, como se estivesse apenas observando a cena daquele local que só não é chamado de cult porque o pessoal acha esse nome fresco demais. Mas agora, enquanto ela permanecia no parapeito, parecia assumir outro perfil, bem ou totalmente diferente. Ela parecia, sim, mais à vontade, mas havia algo diferente. Era estranho. Parecia até uma outra pessoa.

Mas não me prendi a sua aparência, ao menos naquele momento. Estava mais entretido na energia de perdição contida naquele estranho instante, em que o diretor capotara, o amigo não parecia com quem conversar e o outro parecia estar entretido em adentrar nas profundezas daquelas regiões a que só os bêbados de marca maior parecem ter acesso. E eu permanecia lá, e ela também. Eu estava meio confuso, realmente. Com muito sono, mas – agora – sem vontade de dormir. Com bastante vontade, porém, de ficar, pois não tinha intenção de ir para casa. Como muitas vezes antes, eu ficava por ficar. Não ia para não ir. Sabia que tão logo abrissem as portas o sol iria invadir o ambiente, os sons da rua iriam incomodar esse nosso tão gostoso isolamento, o dia iria finalmente começar – porque ali, preso ali, sendo que eu não estava preso, afinal, o dia nem a noite avançavam. Como quando a gente está numa noite de amor, em que o tempo não passa, em que fechamos as janelas para deixar o mundo lá fora, em que sequer escutamos a água correndo nos canos da casa, em que o universo para. Ali não havia nada, porém. Só três homens capotando – tirando eu – e uma garota sozinha no parapeito sem beber uma gota a mais. Mas com um sorriso estranho. Um sorriso que parecia não sair de seu rosto. Um sorriso que ERA seu rosto.

Meu estado de sonolência confundia-me, é claro, e a indecisão da situação acrescia camadas de confusão a isso tudo, mas, lúcido como tenho aprendido a ser, fui notando aos poucos que algo havia no sorriso daquela garota que parecia remexer algo profundo no meu desejo – ou, em caso mínimo, numa atração difusa que fazia-me prestar cada vez mais atração – especificamente nela. Mas eu não conseguia descobrir o que era isso.

Ela não parecia a mesma garota que me havia sido apresentada. Ela parecia ter perdido a ausência de identidade que caracteriza aqueles que simplesmente nos são apresentados – por amigos ou amigas outras. Ela parecia estar mais próxima, como testemunha, quem sabe. Ela não aparentava mais a típica desconfiança de quem se afasta, quando conhece pela primeira vez, e tenta enquadrar, em seus próprios parâmetros – caixinhas feitas de antemão –, aqueles que passam à sua frente.

Mas tudo isso era bastante curioso, principalmente porque, nesses minutos de indecisão, com tanta gente capotada ou em vias de, ela não trocava sequer uma palavra comigo. Não expressava olhar, nem dizia algo com o corpo, nem mesmo aparentava essa espécie de “fraqueza” que muitos gaviões à espreita buscam dos morcegos noturnos perdidos por aí. Eu, na verdade, praticamente nem estava lá. Portanto, como é claro, a questão estava, naquele momento, EM MIM. Mas o que era isso? Fixando-me especificamente nela, com a memória, e com aquilo que a ela pode se referir, reparo – hoje – que, como moça bonita com traços de mulata, ela parecia expressar-me confiança. Que seu sorriso esboçado pelo simples traço da boca parecia dizer-me que ela estava disponível a uma conversa. Mas era mentira, eu via claramente. Pois ela também expressava domínio. Aquele domínio de quem sabe que está lá, sim, mas à distância. Aquele domínio que, no meu caso em especial, permite-me afastar um cara qualquer com um mero movimento da mão. Que no caso dela não era necessário – pois bastava em seu caso seu olhar, o apenas seu mero esboço.

Puta viagem, dirão vocês. Outros dirão, ah, cara, você simplesmente queria trepar com ela, ou que ela te fizesse uma boquete, e não quer admitir. Mas, caras, com toda sinceridade, não é isso. Sim, eu até via a boca dela como convidativa a essa última opção, mas não era isso. Pois, tal qual outro momento, anterior, dias antes, em que eu quase capotara no colo de outra amiga de bar, e que nesse caso se expressava apenas por um pedido de carinho, neste caso eu também queria contato, mas não sabia especificamente a que ele se referia.

Passados alguns longos minutos, ou dezenas deles, aquele meu amigo deitado no sofá, “provocado” por ela, que o avisava que tinham de ir embora, simplesmente disse: “eu quero que você me ame!”, para estupefação – embora não constrangimento – geral. Foi engraçado. Passaram-se então outros breves minutos, e provocado novamente, eis que soltou-nos esta: “eu não quero seu amor!” Estranhíssimo, claro, mas, pensando bem, bastante lógico. Ele queria que ela o amasse, mas que nisso não investisse seu (dela) amor. Ou seja, queria o amor sem o peso do amor, queria o ato sem o investimento íntimo que ele poderia supor. Queria quase o amor de uma puta, em suma. A aproximação sem o investimento.

Pois agora, passados alguns dias disso tudo, percebo que comigo ocorrera aparentemente o... mesmo. Eu queria aquela garota desconhecida. Queria ela perto de mim. Queria vê-la em descanso, ou meramente sorrindo ao meu lado. Até queria – se eu pudesse – que ela trepasse comigo (embora soubesse que nesses casos não poderia repetir-se aquela experiência tão envolvente de semanas atrás, a minha primeira efetiva noite de amor – em que aquela minha outra amiga finalmente investira o seu carinho em mim, em meu corpo, em minha carência e especificamente em meu prazer). Mas não queria que ela efetivamente se mostrasse presente nesse processo todo. Pelo menos não por enquanto. Pelo menos não enquanto eu não me recuperasse e pudesse falar algo realmente em meu nome, como se eu estivesse pronto a encarar a vida como ela efetivamente é. Pois naquele momento eu não podia. Naquele momento eu era carência em estado puro, corpo presente e alma perdida. Eu era que nem aquele meu amigo bêbado, efetivamente ainda mais lúcido do que eu.

Eu era em suma, afinal, que nem o Rodrigo de outrora, que havia ido dormir sozinho tendo a possibilidade de uma garota ao meu lado, mas que optara por manter uma distância de respeito e que depois se transmutara no homem desejoso de simples sexo – como todos. Não que se arrependesse – pelo menos eu não me arrependo.

Hoje, passados alguns dias, contei-lhe (àquela garota) deste meu texto. Contei-lhe despreocupadamente, pois ela se motivara – a partir de outro texto – a entrar em contato comigo. Contei-lhe que eu o escreveria. Contei-lhe que seria algo estranho e mesmo levemente indecente. E ela riu daquele jeito que costumamos rir em facebook e outros meios de contato. Agora espero uma wifi qualquer para mandar-lhe – e, se ela aprovar, publicar estas linhas para todo mundo.

Esse meu processo de autodescoberta esprai-se assim por minha vida, e com ele meu espírito, que ainda vagueia quem sabe ansiando por uma praia qualquer, gostosa, sorridente e aberta à minha própria alma, que ainda teimo em procurar.

* * *

Dedicado, por intermédio dela e delas, a todas.

Ouçam: https://www.youtube.com/watch?v=yRXpnXRKM40


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
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