o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Vastas devastações que nos devassam e nos e(n)levam à nossa autodestruição (4)

A medicina psiquiátrica, que domina a especificação das moléstias, a produção dos psicotrópicos e o teste dos resultados, e que além disso controla sua determinação, transformou grande parte da sociedade em dependente de remédios para controle de humor e de comportamentos ditos desviantes, e que portanto se excita, limita e exacerba sob acompanhamento. É quase impossível encontrar quem não se considere quase expert em remédios controlados. Os normais optam pela bebida e alucinógenos, e seu espaço está em contínua regulação.


10307197_10204709704442076_478526956711886909_n.jpg O controle do comportamento pela via da mente parece decorrer de efeitos deletérios do sistema de vida e de produção, o que leva muitos a quererem opções, que mal existem. Hordas de infames excluídos, aqui e acolá, penam para acharem uma brecha em que possam se acomodar, ou são mais agressivos e transformam suas deficiências em estilo. Aqueles que vêem ao longe podem aceitar tudo, contanto que não se sintam ameaçados em seu estilo de vida. Muitos outros, que chegam a todo instante de origens e tempos assíncronos com a realidade do futuro, buscam compreender o que se passa e permanecem de olhos voltados aos outros continentes. Alguns decidem voltar a origens que mal conhecem. Outros fecham-se em grupelhos para experimentar saltos de experiência, visando superar deficiências de formação.

Ao longe, grandes grupos tentam transformar em novos produtos tecnologias que surgem aos borbotões e que superam limites antes considerados tabus. Carros voam; pessoas voam; navios invisíveis zarpam; aviões não mais corporificam avanços a puxarem outras indústrias. A adoção de novas tecnologias no dia a dia é controlada por grupos centenários tendo apenas em vista a sustentabilidade dos negócios. O extrativismo mantém-se ativo somente por perpetuar modelos de vida, de produção e de consumo que não saem da cabeça das pessoas, atormentadas com dilemas pessoais em geral ridículos, ou simplesmente confusas com os próprios delírios – e que apelam aos meios tradicionais de fuga da razão (álcool, drogas, remédios), mas que às vezes (esses meios) até conseguem servir para esclarecer.

A conversa tornou-se um apanágio de poucos, nesta civilização em que as pessoas se voltam a si mesmas e tornam sua relação com o corpo e com a mente, assim como com os próximos e não tão próximos, um jogo de espelhos dominado por um ensimesmamento doentio, sendo que nem mesmo mantêm elas uma relação racional com o seu entorno a maior parte do tempo, e uma satisfação orgânica algo demente, embora não mais travada por recusas que na época dos precursores (Freud, Ferenczi e Jung) redundava em neuroses. A busca pela intimidade porém ainda existe, e é a toda hora alimentada pelos chamados românticos, quem sabe os únicos sãos nesta loucura prática e anacrônica, e faz muitos perderem a vida em busca da satisfação de ideais jogados ao léu pelas gerações anteriores. Mas a sociedade continua dominada por padrões que vêm e que vão, sob formas diferenciadas, e que parecem não perder o vigor porque simplesmente as pessoas tendem a não conseguir pensar por si mesmas. E quando o fazem, já é bastante tarde.

A dificuldade entre os seres é tamanha, as distrações tão volumosas, o conhecimento tão disponível (e ao mesmo tempo tão pouco requerido) e o comodismo tão acachapante, que os jovens e homens e mulheres maduros normalmente jazem nas ruas inertes, sem saber o que fazem, mas sempre em contato com algo, e quando finalmente entram em contato com alguém, mesmo que este alguém esteja tão perdido quanto mas que tenha um desejo sincero de busca compartilhada, simplesmente recusam por convicções que lhes vêm normalmente de fora, mas que, quando vêm de dentro, apoiam-se em medos ou fantasias tamanhas que dificilmente acabam conseguindo se tornar realidade. Outros, já mais maduros, conseguem perceber em tudo ao redor uma chance, e esta normalmente os avassala quando menos esperam – conduzindo-os também a desatinos orientados em fantasias por delírios de prazer ou ausência de esforço que caem como sempre num poço sem fundo.

Todos parecem engordar a olhos vistos. Seja em gordura propriamente dita seja em informação na maioria inútil. Sem utopias a realizar, a maioria se contenta com relações eminentemente superficiais, ameaçadas por iminentes rompimentos que não lhes significam quase nada. Os amigos de outrora, que precisavam se juntar de vez em quando para poderem manter ou reavivar a amizade, hoje são apenas rostos de face ou twitter que ao mais leve desencontro de humores caem no poço do desconserto e que quando aparecem nas ruas desviam os olhares como se fossem inimigos mortais. Tudo ficou absurdamente idiossincrático e sem sentido. Enquanto isso, as solidões se multiplicam e o sexo conduzido por mera convenção ou comodidade mal deixa marcas na alma de quem se prontifica a ainda tentar. Outros, que partem rumo a caminhos desconhecidos ou raros, como simplesmente dar prazer ao outro pela tentativa real de contato, acabam jazendo inertes, também, ao pé da cama, lambuzados mas decepcionados por sentirem que seus intuitos não têm mais vez – por serem interpretados como tentativa de engano ou mero desfrute sem intenção maior.

Poucos parecem ter ideal a guia-los. Também, da forma como o mundo se tornou, parece anacrônico ver luzes ao fim do túnel, hoje, em que todas as linguagens parecem dominadas, em que a Terra dá sinais de exaustão e mais parece querer ser deixada de lado, entediada e cansada da intromissão dos seres humanos, em que projetos que não visam lucro parecem condenados à inexpressividade in extremis ou ao enquadramento sutil na degenerescência dos fracos, e em que simplesmente ter uma ideia parece ser um pecado mortal. A mediocridade impera nesse mundo de gente conectada a nada em si mesma e no outro, mundo esse que parece expulsar de suas trupes todo o qualquer impulso verdadeiramente criador e portanto naturalmente humilde.

As doenças graves, parcialmente extirpadas ou jogadas aos borbotões em postos de saúde isolados e assemelhados a morgues, tornam-se objeto de lamento e apoio anônimo por intermédio de iniciativas limpas que na maioria das vezes são tocadas por gente que parece querer retirar algum sentido íntimo desse tipo de iniciativa. Os cães que outrora agonizavam nas ruas hoje acham rapidamente alguém que os acolha; os incautos que perdem celulares ou se vêem em maus lençóis são rapidamente ajudados por gente conectada em seus dramas; lutas localizadas de grupelhos motivados acabam arrebanhando apoiadores que quase nunca mostram seus reais interesses e caras, e por isso mesmo acabam prosperando nesse mar de ninguém, por ninguém, para ninguém. Homem de meia idade ainda idealista é, nesse contexto, quase um unicórnio tentando salvar a si mesmo enquanto espécie. Ter simplesmente uma ideia é hoje tabu; não seria assim se a ideia tivesse direção e edital ao qual concorrer.

Cada vez melhor vestidas, mesmo em ônibus lotados, as pessoas tornam-se também mais elegantes e mesmo sutis, mas não desenvolvem o carinho social em direções improvisadas; conversam com quem querem, com intuitos sociais diversos, na medida absoluta do medo do desconhecido – embora numa internet este desconhecido assuma em geral ares bem mais simpáticos. É mais fácil amigar-se do que a gente pode excluir com um mero teclar de enter. As pessoas passam também a tratar o que é real de forma eminentemente virtual, sem parecerem perceber que a aridez do trato mantém aqueles traços em geral inconvenientes de que todos parecem querer abrir mão, ou, mais radicalmente, querer simplesmente excluir da face da terra. As pessoas tornam-se menos tolerantes e mais radicais em convicções que relutam em dividir – pois assim estariam realmente em contato com outras coisas, realidades, pessoas e desejos.

Urbanidades

Nada disso faz muito sentido sem repararmos na urbe que congrega, assim como expulsa, esses seres mutantes, variantes entre estados de torpor controlado e descontrole entorpecido, seja à base de psicotrópicos que anulam sei lá o quê em psiquês de quem nunca irá saber, seja à base simples álcool de boas cepas – ou não tão boas – que não basta porém para abrir as pernas delas, nem os zíperes deles, tão assoberbados que estão em códigos de conduta mais que anacrônicos, ancestrais e primitivos – que uns até defendem em tatuagens deliberadas.

Multiplicam-se em todo o mundo áreas limitadas em que espigões surgem, sem história e sem estilo, transtornando paisagens rotineiras de caráter quase bucólico, à la romances noir dos 50s, independentes de quaisquer movimentos sociais, quaisquer interesses coletivos, quaisquer histórias de não importa qual ordem. Isso quando surgem onde havia história –e agora mesmo, segundos depois, não há mais. Dia desses, uma manhã, passei ao lado do traseiro de um desses conjuntos, totalmente de costas a uma das ruas mais tradicionais de nossa urbe – São Paulo –, sem sequer uma porta a dar testemunho. Uma das demonstrações mais bregas de uma comunidade de costas para si mesma.

Quando sei que na China do boom de investimentos – que propiciou o boom da compra de commodities daqui – cidades inteiras surgem do nada para abrigar gente sem passado muito menos futuro – mas bens a consumir. Indivíduos ríspidos, cientes de sua ausência de direitos, e portanto convocados pelo futuro a juntar-se à horda de bárbaros que domina as feiras de negócios. Pois não é o domínio de algum idioma idiota que poderá fazer alguma diferença em termos da salvação da alma de gente tão mesquinha porque ignorante.

Vão e vêm as almas, em jatos que cruzam os ceús e que fazem os dependentes trocarem de fornecedores e lidarem com línguas que jamais teriam imaginado ouvir – ao menos nessa escala. Para economizar. Para tornarem-se compradores do mesmo do outro lado do planeta. Pagando o frete e adquirindo outras lealdades, para Senhores que no fundo muitas vezes são os mesmos (capitais europeus).

Cineastas chineses tentam dar conta das mudanças. Mas brecam o tempo todo em moralidades que nada mais parecem querer dizer. Qualquer meio hoje é permitido, todos sabemos disso muito bem; basta comprar um drone por 300 e poucos e mandar ver; o problema por enquanto ainda restringe-se a como fazer uso real e efetivo dos meios; por trás de tamanha convicção, uma tristeza funda, a sabedoria de quem sabe que sábio hoje nada mais quer dizer; pois acabaram-se as fases concretas para poder apoiar-se em algo que não seja a própria decadência e autodestruição; a via do amor, a única legítima, esfarela-se em nossas mãos como belas palavras que o outro não consegue mais ouvir (não que não queira, até quer, só não consegue). Nada a lamentar, contudo; são situações críticas que ninguém, salvo uns loucos, ainda ousam questionar; pois, para que mudar as regras, se no fundo só o passar dos anos consegue criar ajustes inertes, aqui e acolá? Se o socialismo de que tanto falam só é o ajuste à la norueguesa, que nada no fundo muda para as mãos de ninguém? Só diz que se preocupa com os desperdícios e a injustiça quem é profundo ingênuo, ou tem estômago fraco, ou cabeça ruim, ou má intenção, mas sempre uma impaciência impossível de satisfazer (uma temporada atrás das grades ajuda a superar).

Sabemos: todos os reais revolucionários morreram pelos meios que eles queriam para os outros (e assim tentavam por simples loucura, a incapacidade de apontarem para si os canos que não sabiam aonde dirigir); só Lênin mesmo foi mais sortudo, ao ter morrido louco – de maldade. Pois ele era mau, verdadeiramente. Um dos poucos. Pol pot não era gente. E isso é outra coisa.

O mundo floresce, seja como for; as plantas começam a ser consideradas tal qual gente; os carros prenhes de anodinia rareiam; as redes conectam interesses que se tornam políticas; as famílias assumem-se mais abertamente, desobrigadas, pois o ser sapiens é menos idiota que o politicamente correto faz crer – embora às vezes precise de multas a conduzi-lo no rumo; tornam-se pontuais as ocorrências de excessos; passadas décadas veremos multidões mais escuras, nem por isso menos injustas; no atual momento as coisas se acomodam; e olhando para a frente e para trás o desespero da devastação interna abre espaço à inanição do que existe e a tentar conquistar o externo. Pois o ser humano é uma devastação que busca longe, e assim fazendo esquece o dentro e apaga-se como areia nas margens do mar.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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