o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Teatro: Experimentos? Só isso?

Texto feito a partir do vídeo https://www.youtube.com/watch?v=cPv9jngAuQU, de Verena Cervera, sobre o teatro experimental paulistano (Alvim, Paetow, Lucas)


10984607_10153081703203131_4227497185514405631_n.jpgAntes de mais nada: tenho quase todos os livros do Alvim, que li e a cujas peças assisti. Inclusive o dramáticas do transhumano, que uso como ajuda para uma espécie de brainstorming. Segundo, no caso do Luiz Paetow, conheço mais ou menos seu trabalho, e no caso daquela peça estrelada pela Vera Sala que eu citei era uma peça feita por ele.

Conheço bastante bem o trabalho do Antunes, embora tenha assistido comparativamente poucas de suas peças: inclusive as últimas eu não acompanhei. Conheço o Pret-a-Porter e vejo que ele tem aspectos bastante quadradinhos, pelo menos naquilo que eu imagino que seja o teatro – ou que possa ser. Considero o Antunes relativamente limitado e ultrapassado. Não conhecia o Lucas e nada vi daquilo que ele fez.

Primeiro: em minha opinião, qualquer experimento é válido, principalmente no teatro, que considero (e não só eu, claro) o último bastião para experimentações de âmbito complexo. Nesse sentido, as diatribes dos dois primeiros, o Alvim e o Paetow, são super bem-vindas, sempre, ao menos para mim. Deveria inclusive haver um espaço meio que cativo para todos aqueles que se dispõem a embarcar nessa vibe. Nada a dizer contra a experimentação pela experimentação, mesmo que presa a esse tipo de liberdade de outros mundos do Alvim. Por mim, tudo certo.

Segundo: o Alvim, pelo visto, busca a experimentação tanto em texto quanto em atuação (seu jeito de lidar com a voz é especial), quanto em encenação (aquele jogo de escuros, etc, extremamente sensível e preciosista quanto ao uso de determinados tipos de luz, etc.). Isso nele sempre me cativou – e só não continua me cativando porque não tenho tido saco para ver coisas desse tipo mais. Mas logo entro no porquê disso. Já o Paetow, como ator, inclusive da trupe do Antunes, joga seu experimento mais na questão da complexidade da atuação, do que é sentido e experimentado no palco, na ausência de trama (começo, meio e fim), etc. Ele diz ser um ator, apenas, e nisso joga sua experimentação. Ok.

Por outro lado, o Lucas fala em esquizofrenia, em desestruturar o eu, como se a questão do sujeito fosse o que a seu ver estivesse principalmente em questão, e nisso tanto o Alvim como o Paetow podem até se colocar em coadunação, dado que para o primeiro essa espécie de nova linguagem, de novo olhar, de nova realidade, sairia do estruturado, do socialmente estruturado, do socialmente estruturante, e que para o segundo o ator poderia, com essas novas posturas, se tornar perigoso ao ver a célula cênica e ao experimentá-la de outra forma. Digamos, questionando o sujeito, a figura autocentrada e facilmente identificável socialmente falando.

Terceiro: todos eles assumem que 1) as significações sociais tradicionais, digamos, as leituras da realidade tradicionalmente moldadas pelas instituições estariam caducas e não traduziriam a complexidade do humano, hoje; 2) caberia ao teatro (quem afirma isso, especialmente, são o Alvim e o Paetow) mudar esse panorama, independente daquilo que existiria na realidade, ou seja, como uma espécie de discurso antihegemônico e 3) o pensamento do teatro tradicional, centrado nas categorias moldadas pelos clássicos, estaria ultrapassado e não faria jus ao conhecimento adquirido pela psicologia, física, biofísica (como o Alvim diz), etc, e faria inclusive um mal ao teatro entendido histórica e filosoficamente, na medida em que não avançaria para além desses setores do conhecimento.

Gostaria de argumentar em duas vertentes: 1) assumindo que os discursos do vídeo são dedicados a críticos ou pretendentes a críticos (oficina de Kil Abreu, 7/2015, SP Escola), considero que realmente esse questionamento, relativo ao espetáculo em si, pode ampliar em muito a expectativa quanto ao olhar e à forma como vemos experimentações (que o Lucas diz que devem vir de grupos, por exemplo); 2) pergunto: em que medida esse discurso realmente questiona o papel do teatro em si? Ou seja, questiono: esses questionamentos de ordem mais estético ou mesmo psicológico são realmente relevantes em termos de questionar o papel do mesmo teatro, entendido como mercado, ou na verdade só reforçam a ideia de que o discurso experimental deve estar restrito a ambientes teatrais e não ultrapassar esses ambientes para questionar o discurso hegemônico? E: em que medida esses discursos são realmente antihegemônicos?

Pretendo tocar uns aspectos específicos, que não são abordados por eles. Alvim diz buscar uma novidade em termos de espetáculo, mas não questiona o papel do encenador. Tudo está centrado, para ele, nessa figura. Penso: a novidade, quando surge, necessariamente deve surgir da ideia? Ou seja, do potencial de novidade por parte daquele que bola o espetáculo. Será isso? Ou poderia haver uma aposta na sensibilidade do ator? Todos devemos concordar com que um grande problema atual é a exacerbação do sujeito, da singularidade, diria o Wellington. O teatro não deve partir para esse tipo de postura? Ou a questão é preferir dizer que todos somos esquizofrênicos, ou deveriam ser, para ADEQUAR-SE às coisas, tais como são?

Por outro lado, esse discurso antihegemônico parte do pressuposto de que a novidade deve restringir-se ao ambiente do teatro. Mas praticamente todas as novidades em termos de linguagem corporal e mesmo outras, como encenação, superaram em muito esses limites. Laban, por exemplo; Bob Wilson, por outro. Laban questionou a forma como a sociedade encarava o trabalho corporal; Wilson passou a questionar o papel da razão, no começo da carreira, em seus experimentos com Knowles, um autista com quem bolou espetáculos que questionam a imagem, a imobilidade e mesmo a cor, assim como o trato com as celebridades (as fotos paradas de gente famosa).

Confesso-lhes que não me agrada essa postura de vanguardismo desses pensadores que respeito, pois eles desconsideram inclusive os trabalhos de ordem cognitiva desenvolvidos pelo teatro infantil e mesmo todas as novidades de ordem cognitiva e expressiva oferecidas pelos novos meios. Pois todos eles demonizam os media para dizerem uma espécie de “volta às ocas”.


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