o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

"Bebo porque é líquido; se sólido fosse, comê-lo-ia"

Acabo de beber um pouco de Velho Barreiro. Até há poucos meses, eu tinha medo de bebida. Meu pai havia, ao menos em parte, morrido disso. E de decepção. E de insuficiência respiratória. Eu tinha medo de seguir o seu anti-exemplo.


5741_1108153749216932_1172608696062230183_n.jpgMas a bebida faz com que me sinta bem. Ou melhor. E não que eu me sinta bêbado, tonto ou mais alegre. Faz apenas com que eu me sinta mais ligado.

Lemmy é entronizado por muitos como o último dinossauro. Aquele que não desistiu de seu estilo de vida. Pouco importava que ele bebesse Jack com água. Ou que tivesse passado a beber vodka. Ou que admitisse que o pau precisava de um estimulozinho para fazer o seu trabalho. O Lemmy foi até o fim colocado no panteão dos imortais porque não desistiu.

Ocorre que o Lemmy não tinha ESPECIAL fixação por bebida. Quando uns ingeriam cogumelos, e outros apostavam na cocaína - ou mesmo na heroína, a única droga que ele detestava, por razões eminentemente pessoais (também, não conheceu o crack) -, ele ficava nas metanfetaminas, no chamado speed, que o deixava loucão por dias seguidos (dizia que ficara 12 dias inteiros sem dormir). Isso fez com que, enquanto seus colegas de Hawkind pegassem os vôos com tranquilidade, ele precisasse ser arregaçado para acordar, ou passasse a se comportar como louco entre os membros da banda. Um dia foi expulso e ficou na estrada, esperando por carona. Foi até preso no Canadá, se não me engano, mas solto por falta de provas.

Lemmy buscava algo que o tirasse do normal. Que o deixasse num estado mais alerta, que o fizesse aguentar a vida que optou levar. Em geral, pelo que noto, aqueles que bebem dizem que bebem porque precisam para viver. Porque sem bebida é como se a vida estivesse pela metade. Pode ser. Meu pai precisou durante um tempo - e até o fim. Eu preciso, do meu jeito, para lidar com uma questão que é só minha - e pronto.

A necessidade de psicotrópicos para suportar a vida é algo que acompanha os seres humanos desde que existem. E não creio que vá acabar logo. Até porque o que são os remédios controlados, se não a mesma coisa em sentido contrário? Pára-quedas tentando segurar o medo de cair.

Dizem que a bebida faz o cara falar a verdade. Noto que essa verdade de que falam a esse respeito é um tipo de verdade específica. É a verdade que a gente tem vergonha de assumir. Já a verdade mesmo pode ser algo bastante diferente. Pode ser algo que não envergonhe, mas que constranja - por revelar profundezas que nos obrigam a admitir a leveza que temos em nós. Quem bebe parece pesado, não leve. Aparenta leveza, claro, mas no fundo há nele uma espécie de peso que o leva para baixo. Não que isso seja ruim, claro. Há quem busque isso. Quem precise.

A energia que o Lemmy me revelava era algo que chutava o pau da barraca. Que dizia o que estava lá e quase ninguém admitia. Que gargalhava do patético de gente que não se enxergava. Que dizia, claramente, as coisas pelo nome: babaca, bundão, filhos das putas, vendidos, canalhas, putas, vagabundas, mentirosas, covardes. Bem assim. Não que isso fosse necessariamente ruim, mas separava. Deixava de lado aqueles/as que não importavam. É constrangedor ver gente legal embalar em várias sacolas plásticas uma garrafa de cachaça que não diz nada a respeito da pessoa como ela de fato é. É vergonhoso ter de esconder isso de gente que não preza necessariamente mais pelo outro do que a gente mesmo. É desanimador saber que todo e qualquer um está pronto, hoje, a falar mal de nós apenas porque bebemos. O que mais magoa é admitir que ao nosso lado pode estar o Judas, pronto a dar o beijo da morte social.

Mas não há que ter medo.

O único amor da vida do Lemmy era negra, na década de 70, e jamais me esquecerei de lê-lo contando que, quando se uniram (e ela era menor de idade), todos os amigos dele o abandonaram, e as dela, também. Na Inglaterra da paz e do amor. Filhas/os das putas. Para dizer o mínimo.

Escrever é o último refúgio dos tímidos. E o maior palanque dos admiráveis. Bravo.


Contreraman

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