o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

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Vale o que tem amor.

Cioran ou o fascínio pelo lamento

É como se Cioran ficasse envergonhado, em termos de ausência de elegância, com o espetáculo patético e errante desse ser - o ser humano - que se diz predestinado para qualquer coisa que inventa. Isso não é um espetáculo de bom gosto, parece dizer o romeno. Isto não se diz. Isto é absurdo.


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Todo leitor de Cioran (Emil Cioran, escritor e filósofo romeno, autointitulado pensador privado) tem um motivo pessoal para, com base em um fascínio de origem biográfica particular, não largá-lo e entronizá-lo como grande influência existencial. No meu caso, era porque ele, Cioran, ou seja, seus escritos, haviam feito com que eu voltasse a rir. Conheço um empresário que lê Cioran como quem solta impropérios e uma espécie de pus intelectual a que ninguém mais dá conta. Cioran é o único filósofo que o dramaturgo, diretor e ator Mário Bortolotto lê porque, em poucas palavras, é agradável e fala o que lhe agrada.

Pouco importa que o romeno importe, sem citar, juízos de outros autores mais célebres e mais rigorosos. Pouco importa que o flaneur desocupado da rua do Odeon não se caracterize por uma lógica implacável como as de seus detratores. Pouco importa que Cioran não tenha se entronizado como alguém respeitável que poderia ser estudado por gente de peso. Cioran fascina às vezes mais por ele mesmo do que por aquilo que escreveu. Mas Cioran viveu.

Tudo na vida do filho de pastor ortodoxo foi uma queda. Diz sempre que foi feliz na infância, nos montes de Sibiu, e que sentiu o fim da alegria quando foi obrigado a descer à cidade. Outra queda foi ter de estudar, quando só queria flanear pelas noites, dado que tinha forte insônia. Foi fazer um curso em Paris e andou toda a França de bicicleta. Prestou contas do que fez e teve a bolsa renovada. Só parou de almoçar e jantar como estudante na Sorbonne quando ficou velho demais e lhe cortaram a mordomia. Ia às vernissages de amigos célebres para ficar escondido. Poderia ter morrido de fome se não tivesse tido seus livrinhos reproduzidos em edições de bolso. Tentou recusar a visita de famosos resenhadores (por exemplo, Mitterrand), mas ao final cedeu. Ficou velho em companhia de Simone de Boué quando se apaixonou perdidamente por uma alemã. Andou sempre nas margens, o romeno.

Mas, se em toda a prosa desse vagabundo chique vemos uma amostra de sangue escorrendo pela vida e pelas calçadas cansadas da Cidade Luz, vemos também uma tentativa desesperada de resistir, e continuar elencando impropérios contra uma existência que quase ninguém tem a coragem de interromper. É como se Cioran ficasse envergonhado, em termos de ausência de elegância, com o espetáculo patético e errante desse ser - o ser humano - que se diz predestinado para qualquer coisa que inventa. Isso não é um espetáculo de bom gosto, parece dizer o romeno. Isto não se diz. Isto é absurdo. Em todas as linhas do habitante da rua do Odeon parece haver um desprezo atroz por tudo o que parece querer valer-se por si, como se não pudesse, como se tudo fosse condenado em seu próprio nascimento - uma ignonímia, em suma. Mas como não matamos todos, nem nos matamos, lamentamos. Não é possível que seja apenas isso. Mas se é assim mesmo, então que seja. Bebamos mais uma dose.

A lucidez extemporânea do pensador privado Emil Cioran é ainda usada, aqui e acolá, por milhares de desiludidos como uma espécie de mural de flagelações a que muitos se recusam para não passar ridículo. Só não se sabe o que ele, Cioran, teria dito sobre o amor. Ou melhor, sabe-se bem: nada. Que é uma ilusão. Ou algo pior, restrito à troca de fluidos entre receptáculos falsamente animados.


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