o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Nossa eternidade

Creio que foi por volta de 92 que eu tinha um amigo com que conversava na lanchonete da História-USP. Um dia, falei para ele que a internet poderia salvar vidas. Eu comentei algo que se tornou comum hoje, de alguém avisar outro alguém de alguma coisa. O sujeito não achou que eu estava pirando (ainda bem). Surgiu depois o Google.


6512bd43d9caa6e02c990b0a82652dca.jpgFoi na década de 90 que eu soube, pela primeira vez, do potencial de multiplicação (o que já é um menosprezo) da informação com o desenvolvimento desmedido dos computadores. Foi num livro que acabei deixando num instituto que não frequentei mais.

Desde aquela época, eu detectava o potencial dos celulares, cujos softwares (Android e, naquela época, o Symbian, se não me engano popular na Inglaterra) estavam começando a ser desenvolvidos. Guardo até hoje os livros sobre programação para aqueles dispositivos, hoje pré-históricos.

Foi em 2001 que, ao trabalhar num portal de futebol, o Pelé.net, eu imaginava uma forma pela qual os computadores poderiam, eles mesmos, redigirem as matérias. Eu comecei a investigar a respeito, dado que havia percebido que, já que os noticiários eram todos os mesmo, por que não deixar as máquinas fazerem o serviço duro e chato? Pois bem, o portal acabou e a pesquisa também.

Pois agora o Ziggy, amigo de praça Roosevelt, me disse que lá no UOL é tudo máquina, de forma geral (devem existir umas dez pessoas na redação, quanto muito). Perguntei se ele conhecia o sistema, me disse que não, mas que o computador é que escreve mesmo. Lá no Pelé.net, já havia formas de "otimizar" a produtividade fazendo o texto em programas para isso mesmo.

Em 2003, na França, onde eu estava a serviço, um Nobel afirmou na minha frente que três grandes ondas tecnológicas iriam transformar radicalmente o mundo: a informática, os materiais e a biologia. Naquela época, era quase improvável que as coisas fossem acontecer como aconteceram. Mas aconteceram. Tanto que nem nos comovemos mais ao notar, em nosso dia a dia, como a nanotecnologia, só para pegar um exemplo, muda nossa relação com a realidade.

Com a internet e a deep web, a geopolítica tradicional foi posta em questão. Todos passaram a espionar a todos, o controle da informação virou um fato, a vigilância mútua, como num panóptico absurdo, tornou-se regra, e continuamos usufruindo da vida como se nada realmente estivesse acontecendo. Como se fôssemos donos de nossos destinos, como se nossas opiniões fossem realmente nossas, como se tivéssemos livre arbítrio, de fato, e como se não pudéssemos ser anulados, num efeito quase de borboleta, por forças que em última instância desconhecemos mas de cujo poder desconfiamos.

Nenhum filme de ficção científica consegue mais nos surpreender. Preferimos muitas vezes permanecer em nossa insignificância de seres que se acreditam donos dos próprios destinos para não recairmos no desânimo de nos sabermos realmente ultrapassados.

Hoje, computadores absurdamente inteligentes já decidem passos importantes para toda a Humanidade por si sós. Hal já era. Robôs estrelam peças de teatro no Japão. Nicolelis faz um macaco se mexer com as ondas cerebrais de um ser humano paralisado localizado do outro lado do mundo. Estamos em Marte e com certeza as nações mais poderosas digladiam-se mutuamente em busca de novos materiais, que fazem a riqueza do amanhã. Enquanto isso, vivemos com aparatos de tecnologias boladas nas décadas de 30 como se vivêssemos até bem aparelhados e municiados de conforto.

Minhas diatribes da década de 90 hoje são mais do que realidade. Linguistas devem estar compilando os padrões que fazem com que Dostoievski consiga ser reconhecido como tal por qualquer leitor de maior expertise. O mesmo com personalidades absurdas como Kafka ou Musil, só para pegar dois exemplos. Alguém duvida que daqui a poucos anos surjam textos criados por computadores a partir desses padrões, mimetizados, como se trouxessem o passado à atualidade?

O tempo fluido é só entendido dessa forma por quem acredita realmente que ele ainda exista. O sujeito com livre arbítrio, nascimento e morte é hoje uma mera ficção. Somos todos, hoje, apenas receptáculos pelos quais a informação passa e se transforma. A sabedoria do passado serve-nos apenas para que nos sintamos mais ou menos bem. No fundo, se alguém se importar, quem sabe guarde num pendrive o formato do que fazemos para no futuro lembrar-se e apreciar a música de um robozinho humano cujo prazo de validade ter-se-ia esgotado.

Teremos atingido a imortalidade sem conseguirmos usufruir, em nosso íntimo mais perigoso, a vida que tanto quisemos.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
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