o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

O timbre do Lemmy

No próprio jeito de tocar o Lemmy mostra como é a música, a postura de vida e mesmo a forma tosca com que ele se sentia à vontade de ser - mas ele não era a postura, ele era algo que a gente jamais realmente saberá. Mas que está no seu amor: na música. (depois completo os XXX, procurem, se quiserem)


1929878_833770340067642_4862858598139393431_n.jpgEstava bisbilhotando a seção de música do Obvious quando notei que ninguém, ou quase ninguém, parece considerar o valor musical do legado de Lemmy Kilmister. Pois entronizam-no como o último resistente, o cara que iria resistir ao fim do mundo (com as baratas), o tanto de mulheres que comeu e todo o resto. Mas a música, que era aquilo de que ele vivia e que o tornou o que foi, parece sempre ficar para trás - mesmo quando entronizam o Rickenbacker com os amps Marshall em tudo no máximo, sua (dele) vocação para as letras e para fazer composições em minutos ou mesmo a simplicidade de resumir condições de existência em poucas linhas e poucos e míseros acordes. Mas não farei uma explanação como músico.

Antes de mais nada, as composições do Lemmy sempre foram diretas. Pois, mesmo quando demoram um pouco para engrenar (Metropolis, I don't believe a word, One more fucking time), nenhuma das músicas do sujeito se perdem em querer dizer ao invés de em simplesmente dizer. Notem como ele, a pessoa, era também assim. Raciocínio rápido, tiro certo, não resumem apenas uma preferência pessoal, alguma idiossincrasia. São o jeito por excelência de responder ao mundo, como um Fuck you, por exemplo. Ou o dedo médio para quem fotografa. Outro aspecto ligado a esse é que quase todas as músicas dele que conheço bem são respostas. Ou seja, são algo que ficou, que restou a ser dito. Uma espécie de palavra final. I don't believe a word é um caso bastante claro, assim como One more fucking time, e muitas outras. Até XXXX é bem isso. Uma resposta aos capitalistas filhos das putas que dominam as gravadoras - como ele disse em um show, gravado.

As composições do cara também não se preocupam com firulas que podem dar margem a "limpar" o que está sendo dito ou tocado. Ou seja: não é bem que as músicas sejam todas "sujas" (isso não é bem verdade), nem que isso leve necessariamente a identificarmos a banda nos primeiros acordes (uma estratégia de marketing), ou que a sujeira seja uma espécie de derivado de um amadorismo. Nada disso. Simplesmente o fato de a música soar limpa ou suja é irrelevante. Como a gente se preocupar em agradar no tom de voz ao dizer a uma pessoa qualquer a verdade. O que importa é dizer a verdade, se vou fazer isso aos gritos ou com calma não importa tanto. O Lemmy, como dizem todos, era um gentleman, claro. Mas nunca se furtou a dizer o que era devido, seja lá como fosse. Quando ele insiste no timbre do seu baixo, com tudo no máximo e tocado como uma guitarra, ele não simplesmente diz que isso é mais legal - isso simplesmente causa um efeito. Do tipo: ouve aí, caralho. Abre a vista, vê o mundo, caramba. Lembro-me bem de quando comprei a primeira revista que divisei sobre a banda: algo me dizia que ali alguém realmente dizia alguma coisa, que não enrolava, que não fazia pose.

Os títulos das músicas e as letras também possuem uma característica bem peculiar: usam de um lugar comum para revirá-lo. Isso fica claro em Shoot you in the back. Pois bem, costumamos pensar que um tiro adequado é pela frente, não é? Que não é altaneiro ser traiçoeiro e atirar pelas costas. Lemmy inverte isso. Claro, a música em questão é apenas uma homenagem aos filmes de faroeste, disso sabemos bem. Mas não é apenas isso. Assim como No class não é simplesmente um comentário sobre gente e gente que não tem lugar, e que portanto não tem classe - nem quer ter. Ace of spades, o maior hit da banda, não é apenas a carta que surge quando as coisas vão mal em quem aposta, é simplesmente o hino maior do jeito rock'n roll de viver: i don't wanna live forever ou there's no difference what you say. Todos esses casos são afirmações retiradas de contrários assumidos como "naturais". Lembro-me por acaso de quando ele, o Lemmy, foi convidado a falar sobre drogas - achando alguém que ele diria algo contra elas. Nada, ele foi lá e defendeu a legalização. Bem sintomático. Lemmy dizia o que queria, e o efeito fantástico de suas diatribes em grande parte se devia ao fato de ele revirar e contradizer algo que se naturalizara, que virou lugar comum de "gente boa". Ningúem é necessariamente gente boa, ele quer dizer. Mas mesmo assim ELE é (gente boa).

Em muitos casos (muitas músicas), Lemmy opta de forma radical pela sensação de queda, negativa, pessimista, radicalmente desanimadora. O timbre usado às vezes em suas composições parece quase derivar do inferno. Sacrifice é bem assim, em que somos quase transportados a casas mal afamadas, a mulheres vadias, a um ambiente sórdido de onde nada escapa. Em Lost in the ozone, por outro lado, na gravação ao vivo que eu tenho, tudo parece conduzir a uma desolação que SENTIMOS claramente, e que nos faz divagar, mas porra, o cara tava tão triste assim quando compôs esse negócio? O Lemmy não nega. São, todos esses, sentimentos geralmente restritos a dores que a gente meio que romantiza, enquanto ele não, encara de frente e joga na nossa cara a resposta devida: não acredito em uma palavra que você diz. Ninguém aguenta facilmente algo assim. É um tapa na cara, que ele embala em timbres soturnos que nos fazem cair sem parar rumo a um fundo de tacho que sequer divisamos. Apesar disso, é curioso que Lemmy não tenha sido necessariamente pessimista: não é que ele simplesmente achasse que a vida como ela é não tivesse sentido, ou que não valesse a pena lutar - muito ao contrário, ele sempre diz Lute, mesmo no bordão de born to lose, live to win. Como imaginar cumprir seu destino sem lutar? Impossível. Porém, em muitos casos ele realmente parece estar além de nossas esperanças, e nos diz finalmente a verdade inescapável, que parece nos exigir uma lucidez que geralmente evitamos enxergar. Esse aspecto específico influenciou-me demais desde que o conheci, até porque muitas vezes, quando ele diz AQUELA verdade, ele não a diz com raiva ou desilusão ou ironia sarcástica, mas com um leve tom de galhofa, como se estivesse nos dando um presentinho de lucidez que nos recusamos, nós mesmos, a nos dar.

É curioso também que, apesar de muitas de suas músicas nos tirarem do sério pela aparente violência que transmitem, em acordes e letras, elas não são REALMENTE violentas ou entronizam a violência como uma saída. Uma dessas músicas que me estranham muito é Red Raw, em que parecemos nos colocar na pele de um assassino que precisa de sangue e tudo o mais. Nessa música, não estamos sendo defrontados com algo cujo valor precisamos aferir como bom, simplesmente nos colocamos na mente de um cara cuja satisfação está em atos de morte. Ou seja, em que sua LIBERTAÇÃO está nesses atos. Lemmy não se recusa a olhar a partir do lugar de um sujeito desses. Para ele, a liberdade também está lá. Claro que sempre haverá quem pense o contrário - paciência. Por outro lado, outras músicas - como Bomber - parecem entronizar algo que diz respeito à guerra, como se ela pudesse ser boa, e claro que não pode. Ocorre que eu vi um golpe de Estado, no Chile, e sei muito bem o fascínio que cria numa criança a violência daquele tipo, embora também diga respeito a traumas posteriores e a fixações cuja real emoção - negativa ou positiva - não podemos divisar. Eu mesmo não sei nem jamais saberei se gostei de ver os A-37 jogando bombas na casa do Allende, e que eu via entre os colchões, ou se eu tinha mais uma curiosidade embasada pelo medo, ou se realmente tenho medo de armas. Sei apenas que a questão da violência física é entranhada em mim a tal ponto que consigo conceber claramente o porquê de ele, Lemmy, colecionar tantas facas e peças desse tipo, até porque eu mesmo tenho preferências nesse sentido - golpes curtos, secos, duros, de traição. Mas voltando a ele: suas músicas não são necessariamente violentas ou entronizam a violência. As músicas dele na verdade DESTACAM a violência como verdade inapelável e quase a mostram como algo que, sob determinado ponto de vista, é até leve e solto. Bomber é tudo, claro, menos uma música lamentosa ou um hino contrário à guerra. É a assunção de que, porra, a guerra é assim, caramba. Se liga.

Musicalmente falando, é fácil perceber como algumas músicas do Lemmy são simples e até feias nas soluções de que fazem uso. Mas há dois aspectos a ressaltar, mesmo nas piores delas. Se você continuar ouvindo-as, acabará cedo ou tarde gostando. Poderá até parar de vez em quando a faixa, mas um dia verificará que ela, a música, meio que SE CORRIGE e adquire um ar que te leva a aceitá-la. Isso não é comum em faixas ruins de outras bandas. Nestas, você ouve um pouco e logo desliga o som, troca de faixa ou nunca mais ouve aquele cd. Outro aspecto é que, no caso das faixas do Lemmy, você, em quase qualquer caso, perceberá um aspecto do universo do rock'n roll pelo qual não fazia a menor questão de saber. Por exemplo, que, apesar do caráter aparentemente misógino de muitas posturas do Lemmy (isso é a maior bobagem dizer, é óbvio, mas preciso ressaltar, porque tem muita mulher que basta ver alguém de coturno ou de tachinhas ou de cinturão com balas para sair fazendo discurso feminista), o cara era uma porta aberta para qualquer tipo de manifestação das suas grandes amigas, como Baby, Don't Touch mostra claramente, ou como Dr Rock também faz crer (o rock para ele é uma espécie de remédio santificado). Note-se que quando digo que a música irá se corrigir com o tempo às vezes é inclusive no sentido que você acaba fazendo do conteúdo dela, ou quando digo que você irá perceber algo sobre o rock de que não havia se tocado refiro-me também ao caráter esclarecido de sua (dele) lucidez: ambos aspectos que estão em XXXXX, de Snake Bite Love, quando ele mostra o quanto se lembra de momentos importantes na política que ele próprio viveu, enquanto leitor assíduo do seu tempo.

Outro aspecto também é interessante e até, como dizem as garotas, "fofo". Sabe quando você, que tem um instrumento, fica brincando com acordes ou notas simples, simplórias até, que em geral não dão em nada, e ficam de bobeira no tempo? Pois é, é o que noto em MUITAS das músicas do Lemmy: elas parecem começar de nada, uma bobagem ridícula e até desinteressante, musicalmente, mas depois se tornam algo e até bom. É como aquele negócio de não jogar fora NENHUM grão de arroz, entendem? É como se ele, Lemmy, desse espaço até àquele tipo de zoeira que parece não ser nada, àquela pessoa que parece desmerecer qualquer atenção, àquela situação que não serve aparentemente para nada, ao invés daquelas pessoas que primeiro, se acham as escolhidas (e não são, até porque geralmente essas pessoas são muito piores que as mais humildes), segundo, se acham por qualidades que possuem (até porque a gente bem sabe que uma pessoa mesmo, e suas amigas e amigos, se faz pelos defeitos que tem, na medida em que é pelos defeitos que nos afastamos de algumas pessoas, por maiores que sejam suas qualidades), terceiro, se acham quando na verdade são fruto de grande parcela de acasos ou de atos perfeitos que no fundo se originam de boa vontade em situação tranquila, ao contrário de muitas outras pessoas que decidem correto mesmo em condições totalmente desfavoráveis, e quarto, se acham não percebendo, como o próprio Lemmy não se cansa de dizer (e Jesus, diga-se de passagem), o que resta é a verdade, só a verdade. Umas informações a mais: Lemmy foi abandonado pelo pai, que era reverendo, com 3 meses de idade; encontrou-o com 17 anos, e percebendo que o pai era um idiota, mandou ele pastar; namorou uma negra nos 60s quando todos se afastaram e viu ela morrer com heroína mas nem por isso se afundou; tentou ensinar baixo ao Sid Vicious, que não conseguia aprender, e que depois veio correndo, feliz, como "baixista" dos Sex Pistols; e por aí vai. Lemmy sempre apostou naqueles ninguém que via como raios-X como as lindas pessoas que todos, mesmo os mais idiotas, no fundo somos.

Quanto ao jeito de ele, Lemmy, tocar. Existem duas passagens em sua biografia que têm a ver com algo bastante idiossincrático do cara e que podem dizer algo sobre outros aspectos mais relevantes. O Lemmy tinha um filho, Paul, que é conhecido meu. O Lemmy não sabia do filho até ele ter uma pouca idade; quando foi encontrá-lo, viu que ele, o Paul, queria tocar guitarra. Pegou o garoto - o próprio Paul conta - e ficou longos minutos tocando apenas uma corda e uma nota olhando fixo para ele, para que ele sentisse a vibe. O Paul não esquece e jamais esquecerá. Eu mesmo, quando faço com meu baixo, tento sacar esse tipo de energia - que é o espírito do rock, claro. Pois bem. O Lemmy sempre disse que nunca se deu bem com guitarras, que era péssimo mesmo. Mas um dia tava morgando e viu que o baixista do Hawkind tinha sumido. Convidaram-no para pegar no batente, o que ele fez - e ainda pegou o baixo do cara! O Lemmy nunca disse que tinha talento para nada - só, muito depois, que ele só sabia fazer o que ele fazia, rock. O Lemmy era grande, enorme, e muito forte. Aposto, no baixo, justamente nessas características e se deu bem. Gostaria de convidar a pessoa mais forte que eu conheço a pegar um Rickenbacker - que é um baixo menor que os Fenders por aí - e tocar COMO O LEMMY. Ah, meu, você não aguenta. Pois bem, isso mostra que o Lemmy fez sua vida de seu jeito, todo especial, e que nem por isso saiu por aí elencando isso como exemplo. Ele foi realmente born to lose e live to win, não é papo, nunca foi papo furado.

Mas tem uma outra passagem em sua biografia em que o Lemmy fala sobre como toca. É no documentário sobre ele que fez tanto sucesso nos anos recentes, Lemmy. Nesse trecho, ele coloca o amp do jeito que ele quer, estourando os agudos, os graves e o voume e mostrando o tamanho do barulho de seu som. Ocorre que ao mostrar isso, o Lemmy acaba tocando, e vc acha que ele toca, digamos, mal? Nada, ele toca com uma precisão cirúrgica (sim, cirúrgica, P) algumas das melodias que identificamos claramente como rock de todos os tempos, e mais, ele toca improvisos, sim, improvisos, correndo, como se não tivesse harmonia por detrás - e não tem - e como se a melodia a ser tocada fosse menor, fosse algo quase irrelevante. Ele toca do jeito que é, que foi e que o rock incorpora, livre, movimentando as palhetas e as cordas como se fossem algo a ser derrotado - e tem algo a ser derrotado, a falsidade, a babaquice, a hipocrisia, a ausência de gentileza, o uso de palavras bonitas para esconder o que se pensa, o uso da religião - reparem que até o fim da vida dela a mãe do Lemmy lhe perguntava se ele estava numa missa, tenho esse trecho de um momento em que ele estava descontraído e recebeu uma ligação da mãe velhinha - para falar merda e mais merda (o que, claro, não significa que a religião fale merda), etc. Ou seja, no próprio jeito de tocar o Lemmy mostra como é a música, a postura de vida e mesmo a forma tosca com que ele se sentia à vontade de ser - mas ele não era a postura, ele era algo que a gente jamais realmente saberá. Mas que está no seu amor: na música.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/musica// //Contreraman
Site Meter