o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

Vamos ver até onde você aguenta

A pessoa conservadora, dita "do bem", separa esse tipo de pessoa das outras, e como que lhe impõe a regra do "desista disso ou nem pensar". À pessoa "problemática" só lhe resta acatar ou desaparecer em outro tipo de ambiente.
Conheço muitas dessas pessoas.


41x.jpgExiste uma profunda desconfiança, por parte das pessoas ditas conservadoras, em relação às pessoas que, de forma permanente ou ocasional, "saem da caixinha". Refiro-me às pessoas ditas problemáticas, causadoras de cisões, rompedoras de alegrias e momentos de descontração ou mesmo arruaceiras - que por algum motivo qualquer chutam o pau da barraca e acabam com o que era doce. Vou exemplificar: mulheres ou homens insinuantes (muitas vezes sem querer), gente de pavio curto, choradores de toda ordem, gente que se supõe livre acima de tudo (mesmo), rockstars, poetas malucos (ditos malucos), artistas de peso e excêntricos, solteirões pegadores, bêbados de toda ordem, e pessoas indecisas quanto à vida (que por vezes se pegam arrumando encrenca).

Nem pretendo perder meu tempo com "argumentos" que desqualificam esse tipo de pessoa dita problemática. Nem com "argumentos" de ordem religiosa, ou de qualquer outra ordem sempre desqualificadora. Irei me concentrar, ao invés disso, na questão da desconfiança. A pessoa conservadora, dita "do bem", separa esse tipo de pessoa das outras, e como que lhe impõe a regra do "desista disso ou nem pensar". À pessoa "problemática" só lhe resta acatar ou desaparecer em outro tipo de ambiente. Conheço muitas dessas pessoas. Não as conheço tão intimamente a ponto de devassar a fundo o motivo de suas dissensões, mas o suficiente para perceber que, em geral, essas pessoas assumem posturas similares quanto ao seu dito "problema".

Todas essas pessoas costumam saber muito bem ao menos como se expressa seu "problema". E em geral sabem lidar com ele no limite de sua (delas) razão. Amigos bêbados, por exemplo, sabem muito bem que a partir de certo momento da noite excedem. Amigas alegrinhas também. Candidatos a arruaceiros sabem exatamente como se comportam e costumam identificar como poucos aquele momento em que o risco ocorre. Os solteirões pegadores sabem muito bem o momento e o lugar em que o conflito tende a aparecer. E por aí vai. Ocorre que, dentre eles, QUASE TODOS, apesar de saberem de tudo isso, INSISTEM, e decidem arriscar.

Eles querem no fundo pegar mais pesado com eles mesmos. Não querem manerar. Apsotam no acirramento da emoção ao invés de em manerar a dose. Mas não fazem isso de forma inopinada. Dois amigos em especial, sabendo muito bem aonde o comportamento deles irá levá-los, dizem que saem "fazendo merda". Estes, em especial, não são pessoas ditas irresponsáveis. Têm emprego, pagam suas contas, têm filhos e amigos com que lidar. Não são outsiders, de forma geral. Mas escolhem para si determinados momentos em que "saem dos trilhos". O mesmo com amigas, conhecidos e seres que vagam pela noite. Correm riscos calculados. Não são pessoas, assim, clara e rotundamente "irresponsáveis". Simplesmente, em determinados momentos do dia e da noite, consideram adequado "arriscar".

Os amigos que percorrem os mesmos lugares desse tipo de gente identificam claramente quando eles soltam os bichos e se dispõem a arriscar. Nesse "arriscar", claro, esses amigos e amigas "problemáticas" engolfam gente que simplesmente está passando ao largo ou que se deixa levar por tudo aquilo. Se há uma irresponsabilidade, então, nesse tipo de gente "problemática" é que ela desconsidera, em último caso, a situação dessa "gente que passa". Simplesmente escolhe essas pessoas e se joga, com todo o peso do seu problema, no colo delas e manda ver. Sabendo muito bem o que faz. Não cola, em geral, a ideia de que esse tipo de gente "problemática" não sabe o que está fazendo. Sabe, sim. Sabe muito bem que o excesso de álcool que ingere pode causar problemas; sabe muito bem que seu jeito insinuante pode criar questões com que não irá conseguir lidar; sabe muito bem que, ao se meter a falar sem parar, pode acabar arranjando encrenca. Mas NÃO QUER SABER, PREFERE ARRISCAR. EM SI, porém, esse tipo de gente não é tão problemática quanto as pessoas ditas conservadoras fazem crer.

Se há, então, algum problema em especial nessas pessoas "problemáticas" é que assumem o risco para si e não querem pagar o pato pelo risco que assumem para os outros. Isso, claro, as torna em muitos casos indesejáveis. Daí dizerem por aí, "xi, essa garota é problema", ou "se afasta dele, que vai te pegar de Cristo e não vai te largar mais", ou "não fica com ele após algumas doses que vai dar treta". Por outro lado, nada indica que essas pessoas ditas problemáticas não saibam o que estão fazendo quando se dispõem a ir a determinados lugares ou frequentar algumas vizinhanças complicadas. ELAS SABEM, SEMPRE SABEM.

Mas eu queria justamente discutir a "desconfiança". Para esse tipo de pessoa dita problemática, a desconfiança surge como uma espécie de sinal vermelho. Um sinal vermelho que em um determinado momento da relação desqualifica essa pessoa para determinadas convivências ou presenças. Um olhar enviesado que afasta tal pessoa das outras DE ANTEMÃO. Ocorre, contudo, que, em geral, NADA REALMENTE DESQUALIFICA esse tipo de pessoa de qualquer ambiente. E não é que em determinadas situações esse tipo de pessoa NÃO SAIBA parar, ela sabe; simplesmente NÃO QUER e decide apostar. Por quê? Porque assim, ao menos aparentemente, esse tipo de pessoa se coloca mais próxima DA VERDADE. Da verdade dela e dos outros.

A garota insinuante continua para testar a verdade daquele que gosta dela. O bêbado continua falando merda para testar realmente a paciência do amigo. O cara violento permanece em companhias desagradáveis para testar o momento em que decidirá partir para cima - ou não. Muitos que rondam essas pessoas às vezes se aproveitam de tudo isso e da situação em geral para curtir ou ver o andar da carruagem.

Uma noite, eu mesmo fiz isso. Descansando no teatro, vi um sujeito, amigo de outro amigo conhecido por ser violento, chegar e começar a provocar de maneira sutil as pessoas à sua volta e nossas amigas em particular. Comecei ao longe a conversar com ele para tentar entender aonde ele queria chegar. Percebi que ele queria arrumar encrenca. Fui puxando a linha e ele entrando no jogo. As amigas se afastavam aos poucos enquanto meu colega violento ficava quieto, fingindo que não acompanhava o "espetáculo". De repente, o sujeito percebeu a situação em que aos poucos estava se metendo e foi parando, suave e decididamente. Até um momento em que "preferiu" se despedir e salvar a própria pele. É isso. Claro que eu fiz isso totalmente de propósito, e fiz bem, evitando que lá na frente pudesse acontecer algo ainda pior. Usei a tendência problemática evidente de meu amigo violento para avisar o sujeito que logo, logo, ele teria de apostar ou deixar de fazê-lo.

Ocorre, por outro lado, que a desconfiança que pessoas ditas "do bem" em relação aos ditos problemáticos não tem excessiva razão de ser. Isso porque as pessoas ditas problemáticas não são, necessariamente, pessoas descrentes, irracionais, não ponderadas, intolerantes ou idiotas. Muito ao contrário. Pessoas que assumem comportamentos desviantes muitas vezes são MAIS crentes, MAIS racionais, MAIS ponderadas, MAIS tolerantes e MENOS idiotas que os outros.

Mas, por assumirem comportamentos algumas vezes excessivos, essas pessoas PASSAM essa impressão - que é completamente errônea. Falo por experiência própria, conversando por vezes com essas pessoas de forma mais profunda e percebendo que elas, às vezes de forma PROPOSITAL, querem passar essa impressão. Fazem gênero.

Para lidar com pessoas ditas "problemáticas" você em geral tem que saber muito bem o que está fazendo e saber EXATAMENTE quando dizer NÃO A ALGUMAS COISAS e meio que OBRIGAR essa tal pessoa a parar. Claro que para isso você MUITAS VEZES precisa quase SE VIOLENTAR para fazer com que a pessoa PARE e saia daquela vibe em especial. Isso significa que por vezes você precisa levantar a voz, ou falar em seus ouvidos algo forte o suficiente para demovê-la, ou simplesmente sair e deixar que ela perceba claramente o que está fazendo. O maior problema nisso, contudo, está em que esse tipo de pessoa se magoa muito fácil e tende a levar a situação ao ponto de questionar se você realmente gosta dela, dessa pessoa, seja um bêbado contumaz, uma garota arruaceira, uma moça com problemas de ordem de autoestima que quer se "vingar" de alguém em especial, etc. E, acreditem, NÃO ADIANTA você tentar convencê-lo/a do contrário.

Esse tipo de pessoa em geral irá culpar você, por meses ou anos a fio, de ter um sentimento errado em relação a ela, de desqualificá-lo/a em público, de isso e de aquilo. Não tem jeito. E fica a teu critério pagar esse preço. Não adianta. Houve um amigo bêbado que quando levei ao hospital ficou o tempo todo me xingando, na ida e na volta, e depois FINGIA que não se lembrava de ter feito tudo isso: mas ele mentia, porque em determinadas ocasiões retomava a conversa a respeito e demonstrava que se lembrava daquilo muito melhor do que eu. Isso é falha de caráter, é certo; mas também era para ele uma forma de se impor e de não assumir o preço de ter feito a merda que fez, por se considerar tão para baixo que só assim, dando uma de arrogante, poderia aceitar para si tudo o que acontecera. E me olhava - ainda por cima - para ver como eu me comportava. Muitos não aguentam lidar com isso, claro.

(Quem era esse sujeito? Meu pai).

A maior injustiça - que não é propriamente injustiça, mas mau-caratismo - a que você pode se sujeitar ao lidar com situações desse tipo é que, lá na frente, aquela pessoa dita "problemática" tenderá a negar o que aconteceu ou a não pagar o preço pela irresponsabilidade, que muito claramente, deve ter cometido (vou colocar apenas como probabilidade). Essa pessoa meio que te olha, assim, de esguelha, assumindo que você não irá levar tão a sério o que ela fez ou o que aconteceu, dizendo que mudou e etc e tal. Não é verdade, em geral.

Essas pessoas, como também as ditas "responsáveis", lá no fundo não mudam. Podem claro assumir outros comportamentos a depender dos lugares que frequentam e das pessoas que conhecem, mas em geral essas pessoas não mudam, realmente. Não que não queiram mudar, quero deixar claro. Elas até querem. Mas suas convicções para a mudança em geral são mais fracas ou mais duvidosas do que para as outras pessoas. Elas sempre precisam, em suma, lidar com os próprio demônios, e quando menos esperam. E o que acontece com você, nesse tipo de situação? Você tem que aguentar e compreender até o momento em que decida parar de fazer isso.

Conheço uma amiga que uma vez me confessou: "muito idiota que eu fui ao suportar todos aqueles anos ao lado dele, sabendo muito bem, aqui dentro de mim, que ele não ligava a mínima para ninguém". Quero deixar claro, nessa frase, que ela admite que sabia. Só fingia PARA SI MESMA que não sabia. Daí aquela convicção profunda que eu mesmo tenho: ninguém trai o outro; a gente é que no fundo trai a nós mesmos. A gente quase sempre sabe, sim, só finge que não. Claro que aquele que ama paga o preço dessa verdade; mas mesmo essa pessoa que ama sempre pode escolher.

É ilusão, por fim, chamar a atenção dessas pessoas ditas "problemáticas" quanto àquilo que ELAS FIZERAM. Elas sempre dizem que agora é diferente. Mas o problema não é esse, em suma. O problema mesmo está em que elas não cedem e insistem em dizer que sempre estiveram certas, até naqueles pontos em que sabem que fizeram errado - e por vontade própria, para arriscar. Elas, em suma, não abaixam a guarda. Não que seja necessário, MUITAS VEZES, que ela façam algo no sentido de tentar corrigir, pedir desculpas, etc. Em geral, nem adianta. O problema é que, lá no fundo, elas SE NEGAM a refletir quanto àquilo que aconteceu e A SENTIR o peso do drama. Elas no fundo assumem uma espécie suave de covardia que, muito provavelmente, lá na frente irá pegá-las de novo. Pois, se elas, nem que seja só para si mesmas, lamentarem o que aconteceu, sabendo que fizeram tudo aquilo em nome de uma liberdade que acabou magoando quem mais as queria, poderão, QUEM SABE - eu em geral duvido -, saber lidar melhor com situações similares no futuro. Ou pelo menos isso poderá ajudá-las a tirar o time de campo mais cedo, antes de algo pior acontecer. O maior risco, para quem sofre esse tipo de situação, acaba sendo, quase sempre, se tornar visado/a como o/a bobo/a da paróquia, quando na verdade "a pessoa que passava" podia ter sido, naquele momento, a pessoa que melhor compreendeu aquela pessoa dita problemática que no fundo queria testar, EM SI, os limites de SUA PRÓPRIA liberdade, em nome de uma razão para além da razão como é costumeiramente entendida.

Quero, a propósito, deixar bastante claro que quando, em por volta de 2007, decidi começar a me dedicar a conviver com gente desse tipo, amigos e amigas bastante diversificados e muitas vezes bastante interessantes, optei por livre e espontânea vontade a tentar entender esse tipo de comportamento e de gente.

Não nego que passei por situações bastante complicadas e dúbias, assim como tensas, mas entendi, de lá para cá, que na grande maioria dos casos esse tipo de situação não qualifica esse tipo de gente como GENTE DESGARRADA OU OVELHA DESGARRADA, mas como OVELHA QUE QUER SE DESGARRAR para testar algo em si que PRECISA. Ou seja, quase sempre, esse tipo de gente assume riscos calculados, e MUITAS VEZES OU SEMPRE é INJUSTAMENTE qualificada negativamente pelas pessoas ditas normais por MIOPIA de quem só enxerga sua própria tábua de valores ou AUSÊNCIA SELETIVA DE CORAÇÃO por quem vê a outra pessoa como alguém que, no fundo, não precisa de ajuda, mas precisa de uma lição. Isso é raro. Pelo que sei, isso é realmente raro.

Ninguém precisa de lição. Só precisa em geral de um apoio. Mas como lidar com quem PARECE desconsiderar o apoio, depois DELE SE ESQUECE, e ainda por cima ZOMBA a respeito dele? Difícil, claro. Como diria o Lemmy, é preciso ser forte. Mas até isso tem limite, óbvio. Todo mundo sempre pode escolher.


Contreraman

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